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Isso pode!

Arlindo Alves é escritor adamantinense, autor de “Vôo Solo” - aralsi58@terra.com.br

Todas as noites de sábado, a Dra. Lorca, nutricionista do Zorra Total, recebe em seu consultório pessoas invariavelmente esbeltas, quando não magérrimas, às quais emite o seu diagnóstico paradoxal e avia suas dietas excêntricas.

A doutora, que não apenas no nome como também no biótipo lembra muito aquele mamífero cetáceo do oceano, logo de cara foca (eis mais uma referência a outro mamífero marinho, igualmente rechonchudo) o olho clínico/cínico no paciente e constata fria e cientificamente: “Você está gordo!”.

Tentando disfarçar a indisfarçável decepção causada pelo inesperado conhecimento da própria obesidade, até então não percebida, o paciente (como todo bom paciente) sugere a própria receita: “Que tal uma dieta frugal, com muita pêra, maçã, água de coco...?”.

Com cara de zanga, própria das pessoas que não gostam de ser contrariadas em seu saber inquestionável, a Dra. Lorca despacha: “Isso, NÃO PODE!”. Em seguida, ajeitando os óculos professorais e recompondo o auto-controle, retoma as rédeas da consulta: “Prá você tem que ser uma dieta bem rica em calorias, gorduras, carboidratos. Por exemplo: vatapá, dobradinha, bacon, lombo de porco, bucho de bode... regado a muito chocolate!”.

Olhos arregalados de pura incredulidade, o paciente, que tudo o que não quer é ficar balofo como a nutricionista, indaga perplexo: “Mas, doutora, isso PODE?!”. Com um sorriso gordo, recheado de malícia, a espaçosa nutricionista responde: “ISSO, PODE!”.

Diante da reação inconformada do paciente que sai pisando firme e xingando a doutora de “gorda” e “baleia”, Lorca dá de ombros, desdenhando, e murmura para si mesma e para as iguarias que a esperam na gaveta: “Gorda? Eu?... O que eu sou é saudável”. E, faminta, ataca as guloseimas.

O que a Dra. Lorca expõe em suas consultas desastradas é a inversão de valores, ao chamar o magro de gordo e o gordo de magro; dizer que o que “pode” não pode e o que “não pode” pode. O que se vê na tela é a transposição para o humor daquilo que tragicamente vivenciamos no dia-a-dia, em todo o mundo e, particularmente, no Brasil.

Também no consultório do Dr. Lula (igualmente roliço e parecido no nome e aspecto com aquele molusco marinho comestível), pode e não pode muita coisa, quase sempre contrastando com a moral comezinha imposta ao cidadão comum. Por exemplo: roubar uma galinha, não pode!... Dá BO!... Mas, furtar milhões nos cartões, PODE!...

Mas, em meio a toda essa inversão de valores, principalmente na política nacional, o cidadão comum, honesto e trabalhador, NÃO PODE se deixar envolver pelo surrealismo da imoralidade. Sempre lúcido, na hora de usar o seu cartão de crédito eleitoral, deve ter em mente a receita da moralidade político-social: Corrupto no poder, não pode. Honesto, PODE!... Chega de zorra!

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