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Todas as noites de sábado, a Dra. Lorca,
nutricionista do Zorra Total, recebe em seu consultório pessoas
invariavelmente esbeltas, quando não magérrimas, às quais emite o seu
diagnóstico paradoxal e avia suas dietas excêntricas.
A doutora, que não apenas no nome como
também no biótipo lembra muito aquele mamífero cetáceo do oceano, logo
de cara foca (eis mais uma referência a outro mamífero marinho,
igualmente rechonchudo) o olho clínico/cínico no paciente e constata
fria e cientificamente: “Você está gordo!”.
Tentando disfarçar a indisfarçável
decepção causada pelo inesperado conhecimento da própria obesidade,
até então não percebida, o paciente (como todo bom paciente) sugere a
própria receita: “Que tal uma dieta frugal, com muita pêra, maçã, água
de coco...?”.
Com cara de zanga, própria das pessoas
que não gostam de ser contrariadas em seu saber inquestionável, a Dra.
Lorca despacha: “Isso, NÃO PODE!”. Em seguida, ajeitando os óculos
professorais e recompondo o auto-controle, retoma as rédeas da
consulta: “Prá você tem que ser uma dieta bem rica em calorias,
gorduras, carboidratos. Por exemplo: vatapá, dobradinha, bacon, lombo
de porco, bucho de bode... regado a muito chocolate!”.
Olhos arregalados de pura incredulidade,
o paciente, que tudo o que não quer é ficar balofo como a
nutricionista, indaga perplexo: “Mas, doutora, isso PODE?!”. Com um
sorriso gordo, recheado de malícia, a espaçosa nutricionista responde:
“ISSO, PODE!”.
Diante da reação inconformada do
paciente que sai pisando firme e xingando a doutora de “gorda” e
“baleia”, Lorca dá de ombros, desdenhando, e murmura para si mesma e
para as iguarias que a esperam na gaveta: “Gorda? Eu?... O que eu sou
é saudável”. E, faminta, ataca as guloseimas.
O que a Dra. Lorca expõe em suas
consultas desastradas é a inversão de valores, ao chamar o magro de
gordo e o gordo de magro; dizer que o que “pode” não pode e o que “não
pode” pode. O que se vê na tela é a transposição para o humor daquilo
que tragicamente vivenciamos no dia-a-dia, em todo o mundo e,
particularmente, no Brasil.
Também no consultório do Dr. Lula
(igualmente roliço e parecido no nome e aspecto com aquele molusco
marinho comestível), pode e não pode muita coisa, quase sempre
contrastando com a moral comezinha imposta ao cidadão comum. Por
exemplo: roubar uma galinha, não pode!... Dá BO!... Mas, furtar
milhões nos cartões, PODE!...
Mas, em meio a toda essa inversão de
valores, principalmente na política nacional, o cidadão comum, honesto
e trabalhador, NÃO PODE se deixar envolver pelo surrealismo da
imoralidade. Sempre lúcido, na hora de usar o seu cartão de crédito
eleitoral, deve ter em mente a receita da moralidade político-social:
Corrupto no poder, não pode. Honesto, PODE!... Chega de zorra!
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