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Para espectadores que não estão cientes
da realidade do Brasil e da maneira apocalíptica como o país tem-se
inserido no mundo como promotor da energia limpa, o presidente Luiz
Inácio da Silva apregoou que os biocombustíveis não afetam a segurança
alimentar com o argumento de que a cana-de-açúcar ocupa apenas 1% das
terras agricultáveis brasileiras. O problema de Lula é que ele quer
abraçar o mundo antes de resolver o problema nacional.
Essa porção de terras agricultáveis
provavelmente já era maior quando Lula terminou o discurso, em
setembro, na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas; ao
menos, os fazendeiros já cogitavam aumentá-la pelos atrativos da era
da energia renovável.
Se o negócio der dinheiro, o
empresariado rural adere. E não é que está dando certo: com a
exportação do etanol, o setor do agronegócio vai bem enquanto o povo
não sabe quanto se embriagar com a instabilidade dos preços do álcool
nas bombas de combustível.
A revista inglesa “The Economist”, de
olho nas tendências, publicou um artigo na edição de oito de dezembro
a respeito do “fim da comida barata”. Entre os produtos mencionados,
constam arroz, feijão, trigo e milho. O aumento no preço do milho (e
das essenciais tortilhas) no México gerou uma crise com a população
manifestando-se nas ruas, enquanto o feijão mais caro no Brasil não
tem impedido os aplausos a favor da expansão da cana-de-açúcar.
O etanol tem parte da culpa pelo aumento
dos preços de produtos advindos de outras colheitas, sobretudo pela
demanda crescente por etanol em carros no continente americano. A
lógica é de que, quando o preço de um produto agrícola estoura, os
fazendeiros plantam-no para obter vantagem, mas se apropriam das
terras que tinham outros usos. Portanto, a alta demanda por um produto
agrícola específico, como tem sido a cana-de-açúcar e o milho, afeta a
segurança alimentar.
Logo, a preocupação surge no momento
oportuno em que o aumento da renda na China e na Índia fizeram sua
enorme população consumir mais carne e outros alimentos. Ao mesmo
tempo, nós brasileiros estamos abastecendo os carros de países
desenvolvidos com o que se produz de renovável nas nossas terras
agricultáveis, enquanto ouvimos mais uma balela de nossos
representantes, que não se importam que o arroz e o feijão fiquem mais
caros na mesa do povo.
Algumas soluções seriam proibir as
exportações brasileiras de etanol, já que Lula enfatiza a
transferência de tecnologia da produção desta fonte renovável de
energia em vez de fazer do Brasil o celeiro da cana-de-açúcar; ou
atribuir um teto no preço do álcool comercializado dentro do país e
aumentar as reservas internas. Defendo a pesquisa e o investimento em
biocombustíveis, mas desde que seja com benefício para o povo
brasileiro e não apenas para um grupo econômico seleto.
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