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Vitória Da Conquista(BA), Terça-Feira, 30 de Novembro de 2021 - 19:09
20/11/2021 as 15:04 | Por Luiz Henrique Borges |
20 de novembro: o Dia da Consciência Negra
Artigo Esportivo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Sábado, dia 20 de novembro, é o Dia da Consciência Negra. A efeméride foi criada em 2003 e objetiva instigar a reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A sua idealização é bem anterior. Ela partiu de um grupo de negros no Rio Grande do Sul no início da década de 1970. As celebrações, por sua vez, surgiram no país em meados da referida década, ou seja, em pleno governo militar no âmbito das lutas dos movimentos sociais contra o racismo.

Atualmente, há uma tendência em determinados segmentos de matiz conservadora em negar ou mitigar o racismo no Brasil inclusive partindo de instituições oficiais criadas para a valorização do negro, como a Fundação Palmares, criada em 1988. Me incomoda bastante quando o presidente da citada instituição reduz, primariamente, a luta pela igualdade racial como um simples movimento negro marxista, como ele afirmou no “Congresso Conservador: Liberdade e Democracia” que pode ser acessado na página da Fundação Cultural Palmares.

A luta pela igualdade, pelo reconhecimento das minorias não é privativa de movimentos de esquerda, mas ela deve ser encampada por todos aqueles que desejam viver em uma sociedade mais justa e igualitária. A afirmativa do dirigente máximo da Fundação Palmares é simplista e desconhece muitos autores sérios, que se dedicam a temática e que não possuem a orientação ideológica por ele mencionada. Lamentável.

Como já destaquei alhures, o futebol iniciou sua história no Brasil como um esporte elitista, particularmente praticado por brancos abonados. Em poucos anos, porém, ele se espraiou para diversos segmentos sociais e os negros puderam dar sua importante contribuição para o esporte que é patrimônio cultural dos brasileiros. O futebol nos identifica e nos individualiza como país e como povo.

É impossível contar a trajetória de sucesso do futebol, em particular do futebol brasileiro, sem abordar os africanos e seus descendentes que se espalham pelo planeta. Nossos títulos mundiais sempre tiveram os afrodescendentes como protagonistas: Didi, Pelé, Garrincha, Jairzinho, Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho são apenas alguns exemplos.

Porém, os sutis laços que envolvem o racismo se reproduzem também no futebol. Se pensarmos na escravidão, ao negro cabia o labor físico e o espaço gerencial e intelectual era ocupado pelos brancos. Antes que os opositores gritem, em altos brados, que temos negros que ocuparam posições de destaque na sociedade brasileira escravagista, já afirmo que sei e que as poucas exceções apenas reforçam a regra.

Retornando à reflexão que iniciou o parágrafo anterior, a analogia do trabalho físico como local privilegiado para o negro, o futebol também reproduz tal lógica. Eles atuam em campo, transformando o suor, a disposição, a força física em jogadas inesquecíveis e gols. Contudo, quantos treinadores negros fizeram sucesso no Brasil? Atualmente, Marcão do Fluminense e Jair Ventura no Juventude são os únicos treinadores negros em atividade entre os 20 integrantes da Série A do futebol brasileiro.

Olhando um pouco para trás, qual foi o reconhecimento dado para Carlinhos ou Andrade que conquistaram títulos brasileiros para o Flamengo? Por que a paciência dos dirigentes e dos torcedores com Cristovão Borges ou Roger Machado é infinitamente menor? Qual foi o negro que dirigiu a Seleção Brasileira? Não há dúvida de que os negros que conseguiram quebrar as barreiras e alçaram voos mais altos ainda sofrem com a discriminação velada e também muito mais difícil de ser combatida.

Quando se aborda o racismo no futebol, é muito comum vir à cabeça as agressões e injúrias raciais que os jogadores negros sofrem. Contudo, existe um tipo de racismo, ainda mais enraizado e muito pouco visível aos olhos de quem não sofre com ele ou não se atenta para a temática. Ele se dá no nível gerencial, dos dirigentes. Na medida em que nos distanciamos do esforço físico, menor o número de negros que encontramos nos diversos cargos do futebol. Em 2020, a Ponte Preta de Campinas era o único clube das Séries A e B que contava com um presidente negro.

Na falta de palavras melhores, busco o apoio em Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, para explicar a realidade acima ressaltada: “Por conta da escravidão, foi colocado na cabeça da sociedade brasileira que os negros eram bons somente para ações que envolvem o corpo e não o intelecto. A gente ainda atribui às pessoas negras o corpo. O futebol envolve habilidades físicas, estar numa posição de gestão envolve o intelecto”. Fica claro que as atividades de gestão são locus de exclusão. Levantamento realizado pelo Vagas.com, apenas 4,1% dos trabalhadores negros ocupam cargos de gerência e de diretoria em empresas brasileiras. A presença do negro jogando futebol cria a falsa ilusão de que existe diversidade. Mas, como foi ressaltado, praticamente não existem negros nos cargos de poder.

Contrariando segmentos da população brasileira que demonstram pouca simpatia com as denominadas cotas, o deputado estadual Noel de Carvalho (PSDB) protocolou um projeto de Lei que determina que os clubes de futebol do Estado do Rio tenham negros e mulheres em seus quadros de dirigentes e no corpo técnico. O que os críticos talvez desconheçam é que ainda em 2003 a norte-americana NFL aprovou a “a Lei Rooney”, que exige que as equipes façam entrevistas para técnicos e posições sênior com candidatos de minorias étnicas.

Enfim, há diversos exemplos recentes de ataques racistas que atingiram os jogadores no futebol brasileiro. Dentre elas, talvez, seja possível conceber a síntese do racismo na fala proferida pelo comentarista Fabio Benedetti na transmissão realizada durante o jogo Santos e Ponte Preta em 2020 pelas quartas de finais do Campeonato Paulista. Indignado com a expulsão do jogador Marinho, do Santos, ainda no primeiro tempo, o comentarista foi questionado sobre o que diria para o atleta em um grupo de WhatsApp com os jogadores do Santos: – Eu vou falar assim: "Você é burro, você está na senzala, você vai sair do grupo uma semana para pensar sobre o que você fez".

Em síntese, pode-se afirmar que o preconceito racial nunca deixou o futebol. Em seus primórdios ele era escancarado, depois buscou-se vender a falsa ideia de que o negro era sinônimo de bom jogador, isto aliado ao mito da igualdade social. Atualmente, os casos de racismo são apontados, denunciados e duramente criticados. Se, infelizmente, não deixaram de existir, ao menos não são mais naturalizados.

 




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