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Vitória Da Conquista(BA), Sábado, 16 de Janeiro de 2021 - 21:13
14/11/2020 as 13:00 | Por LuizHenriqueBorges | 1142
A dança das cadeiras
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Depois do sucesso de Jorge de Jesus criou-se uma narrativa, que o próprio Flamengo reforçou, de que os técnicos brasileiros estavam superados e que para se tornar um dos grandes clubes nacionais e até mundial seria necessário contratar um treinador europeu. Os dirigentes do clube carioca, acreditando nesta receita, buscaram por diversos nomes do Velho Continente após a saída do lusitano e, em virtude das várias e compreensíveis negativas, acabou “escolhendo” o inexperiente espanhol Domènec Torrent.

Com pouco mais de 3 meses no clube, Torrent foi pego pela “torrente” de demissões que é marca do futebol brasileiro. Sem contar com os interinos, até o momento ocorreram 14 trocas de comando ao longo da Série A e apenas seis dos vinte clubes permanecem com o mesmo treinador que iniciou a competição.

A diretoria do Flamengo, no meu entender, errou ao contratar no final de julho um treinador com pouca experiência para dirigir o clube, fato que contrastava com a sombra deixada pelos resultados de Jesus em 2019. As pressões existentes em um clube da dimensão do Flamengo exigem que o treinador seja bastante “cascudo”.

Apesar de ser defensor da manutenção dos treinadores ao longo da temporada e de acreditar que os resultados práticos da dança das cadeiras costumarem ser perfunctórios, desta feita, entendo que o Flamengo agiu de forma correta ao trocar Torrent por Rogério Ceni.

Vejamos os motivos: o espanhol, ao chegar, prometeu não realizar mudanças drásticas no esquema que Jesus havia montado para o Flamengo, no entanto, não foi esse o caminho trilhado. O seu futebol posicional exige uma estrutura tática distinta ao do treinador português. Se o ataque do Flamengo continuou marcando muitos gols, o sistema defensivo fragilizou-se bastante e o frequente rodízio da dupla de zaga promovido pelo treinador em nada ajudou na solidez do setor.

Mesmo em termos ofensivos, o sistema tático posicional alterou a forma de atuar de um dos principais atletas em 2019, Bruno Henrique. No ano passado, ele e Gabigol atuavam próximos, como uma dupla de atacantes. Com a chegada do novo treinador, ele foi fixado do lado esquerdo do campo e se distanciou do centroavante. Coincidência ou não, suas atuações também caíram de nível.

Finalmente, os comandados não entendiam, como afirmam, ou não queriam entender, as orientações que o espanhol passava. Questionar um treinador inexperiente e sem conquistas é muito mais fácil do que desafiar técnicos com larga bagagem. Que fiquem duas lições: ser auxiliar de Josep Guardiola não significa ter o seu estofo e nem sempre o profissional estrangeiro será sinônimo de sucesso ou de qualidade superior ao treinador nacional.

O Flamengo buscou rápida saída e contratou um técnico em ascensão: Rogério Ceni. O ex-goleiro são paulino terá oportunidade única e, apesar de seu gigantismo no Fortaleza, ele não poderia deixá-la passar. Apesar de não o considerar experiente, são apenas três anos como treinador e nas duas vezes que dirigiu grandes equipes (São Paulo e Cruzeiro) os resultados não foram os melhores, ele carrega importantes características, foi um jogador extremamente focado e vencedor, é ambicioso e, desde que abraçou a nova profissão, busca se aprimorar constantemente.

Entendo que Ceni terá alguns desafios na nova equipe. O primeiro deles será gerir com qualidade um plantel de estrelas, o que nem sempre é uma tarefa fácil. Nesse sentido ele terá que se adaptar ao gigantismo do Flamengo e não o contrário, como ocorreu no Fortaleza. Lá, ele dava as cartas. O segundo desafio será ajustar o sistema defensivo em uma temporada praticamente sem treinos. Ele terá ainda que devolver o futebol vistoso que o rubro-negro carioca jogou em 2019. E claro, conquistar títulos. Acredito que ele terá uma vantagem em relação ao seu antecessor, a herança de Jorge de Jesus deverá ser menos pesada.

A cartada de Ceni foi certeira. Como jogador perseguia conquistas e não é diferente como treinador. No Fortaleza ele ganhou tudo o que era possível, a Série B, o campeonato regional e a Copa do Nordeste, no entanto, o horizonte da equipe cearense ainda é esse. Uma vaga na Libertadores já seria um sonho! O Flamengo, por sua vez, lhe oferece múltiplas oportunidades, uma vez que Torrent, é bom que se diga, deixou a equipe viva nas três competições: Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores da América. Se tiver sucesso, Ceni abrirá as portas tanto para a Seleção Brasileira quanto para uma carreira internacional que, ao que parece, ele objetiva.

O retrato do abismo entre o futebol sul-americano e o europeu ficou expresso na saída de Eduardo Coudet do Internacional. Vivenciando melhores condições econômicas que os países vizinhos, o Brasil tornou-se atraente para os treinadores sul-americanos e até europeus de menor expressão, que podem aqui iniciar ou até dar continuidade na internacionalização de suas carreiras, mas eles entendem essa fase como um trampolim para, futuramente, se fazerem presentes nas principais competições europeias.

Jorge de Jesus não titubeou, retornou para Portugal ao primeiro chamado mesmo que isso significasse deixar um casamento extremamente feliz aqui no Brasil. Coudet, líder da Série A, não teve dúvidas de romper seu contrato com o Internacional para dirigir o Celta de Vigo, clube que flerta perigosamente com o rebaixamento no Campeonato Espanhol pelo segundo ano consecutivo. Vejam que ele nem sequer buscou a propalada estabilidade do futebol europeu uma vez que a equipe espanhola se assemelha com as brasileiras na voracidade em que demite os seus treinadores.

É impossível competir, especialmente com a desvalorização do Real, com os salários oferecidos em Euro, para não falar das condições de trabalho e de vida. Quem não se sentiria atraído? Coudet abraçou a oportunidade de adentrar em tal mercado mesmo em uma equipe que não me parece se preocupar com o desenvolvimento de projetos. Assim como Ceni, se tiver sucesso, deverá galgar voos mais altos e dirigirá clubes de maior visibilidade e estabilidade.

 

 

 

 




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