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16/10/2021 as 10:59 | Por Luiz Henrique Borges |
A nova preocupação: a ausência de confrontos contra os europeus
"Minha tese vai em outra direção: nosso futebol europeizou"
Fotografo: Reprodução
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A nova preocupação: a ausência de confrontos contra os europeus
 
Luiz Henrique Borges
 
 
Após os jogos da Seleção Brasileira contra a Venezuela e contra a Colômbia, a imprensa especializada passou a discutir com muita ênfase a ausência de confrontos contra as seleções europeias e o que isto pode acarretar na disputa da Copa do Catar no final do próximo ano.
Entendo o posicionamento dos jornalistas e também compartilho a ideia de que é sempre interessante jogar contra adversários de diversas escolas de futebol. Enfrentar e vencer adversários gabaritados e donos de diferente estilos, independente de seus continentes, eleva a confiança da equipe que, sabemos, é um fator de grande importância para o sucesso, mas não é garantia de conquistas.
A minha maior tristeza no futebol se deu com a Seleção Brasileira que mais confiança me inspirou. O saudoso Telê Santana montou uma equipe sensacional para a Copa de 1982 na Espanha. Ela representava o futebol-arte em toda a sua magnitude e esplendor. A partir do Mundialito disputado no Uruguai na virada de 1980 para 1981 a equipe brasileira passou a inspirar não apenas confiança em seus torcedores, mas também orgulho. Durante a primeira fase da Copa do Mundo, contra a União Soviética, Escócia e Nova Zelândia, praticou um futebol envolvente e artístico.
Na chamada segunda fase de grupos, a forma de disputa ainda não era eliminatória, teve como adversários a Argentina e a Itália. Apenas o primeiro colocado passaria para as semifinais. A vitória contra os Argentinos por 3X1 foi épica, mágica e incontestável. No entanto, precisando de um simples empate contra uma até então claudicante Itália, fomos derrotados amarga, mas orgulhosamente, nos despedimos do que seria o tetracampeonato Mundial. 
Recordo que ao apito final fiquei vários minutos aparvalhado, olhando para a antiga televisão Telefunken, na expectativa que a partida fosse retomada e que o Brasil, enfim, faria o gol de empate. Só revivi tal sensação de anestesiamento, de descrença no que assistia, numa ocasião verdadeiramente quixotesca do Brasil, quando, em 2014, a Alemanha desembestou a fazer gols. Em alguns momentos eu pensava que aquilo era apenas fruto da minha imaginação e que, na verdade, o confronto ainda iria se iniciar. Estava enganado nas duas situações, com a diferença que contra a Itália saímos de cabeça erguida e jogando um excelente futebol. Já contra a Alemanha...
Confiança é importante e deve-se acrescentar, especialmente em campeonatos de tiro muito curto, o encaixe da equipe como fator também essencial. O caminho para a Copa de 2002 foi extremamente árduo. A classificação só ocorreu na última rodada contra a fraca Venezuela. Chegamos a perder para a Honduras na Copa América. Não tenho dúvidas que a última coisa que a Seleção Brasileira tinha e transmitia para o seu torcedor em 2002 era confiança. Mas, durante a Copa, além da eliminação de fortes adversários como a Argentina e a França, a seleção encaixou e isto reverberou na confiança da equipe. O resultado foi o pentacampeonato após uma campanha perfeita de sete jogos e sete vitórias.
Em relação à ausência de confrontos com as seleções europeias faço algumas considerações. Eles também não jogarão contra as principais forças sul-americanas, sendo assim, o alegado prejuízo é mútuo. Há dois pontos que, no meu entender, atenuam a situação. Os principais atletas que estarão na Copa do Mundo atuam no futebol europeu, além disso, a prática está globalizada. Os segredos táticos e técnicos fazem parte do passado. Alegar atualmente o desconhecimento do futebol praticado pelo outro, como fez Zagallo após a derrota para a Holanda em 1974, é a mais pura lorota. No fundo, nossos selecionáveis estão mais adaptados ao futebol praticado na Europa do que ao brasileiro e, talvez, esteja aí a razão de nossas derrotas.
Tais considerações não significam que não seria interessante enfrentar as boas seleções europeias, como a França, a Itália, a Alemanha, a Espanha, a Inglaterra e Portugal. Os confrontos contra equipes gabaritadas servem de métrica para o trabalho que se realiza, mas não servem para a elaboração de afirmações peremptórias sobre as dificuldades que o Brasil terá quando enfrentar adversários europeus mais gabaritados no Mundial. Para justificar os argumentos, os jornalistas utilizam-se dos quatro últimos fracassos em Mundiais quando perdermos respectivamente para a França, para a Holanda, para a Alemanha e para a Bélgica nas fases decisivas do torneio.
Eles só contam uma parte da história. Primeiro, não vejo os jornalistas ressaltarem que há muito mais seleções de alto nível na Europa do que na América do Sul, os dois principais centros do futebol mundial. A isto soma-se o maior número de vagas na Copa do Mundo para países europeus. Logo, nada mais natural que nas fases decisivas ocorram enfrentamentos contra equipes do Velho Continente. Deles, colhemos inúmeras vitórias, mas também sofremos múltiplas derrotas.
Outro aspecto importante é a dificuldade para se ganhar a Copa do Mundo. Após a primeira fase, classificatória, são quatro jogos eliminatórios. Nestas partidas é preciso minimizar ao máximo os erros. Em 2018, contra a Bélgica, por exemplo, dois equívocos do mesmo atleta resultaram na derrota do Brasil em partida muito equilibrada.
Além de minimizar os erros, o que exige total concentração e foco, é importante alcançar o encaixe que fortalece a confiança. A Croácia não era uma seleção excepcional, mas em 2018 a equipe se acertou e disputou a final contra a França. Para mim, os croatas eram tecnicamente inferiores ao Brasil e a Bélgica e me atrevo a dizer que também a Argentina, de quem ganharam com autoridade e o fizeram aproveitando-se da desorganização, da falta de comando e confiança que se instalou sobre Messi e seus companheiros.
O que me preocupa em relação à Seleção Brasileira não é a falta de confronto contra os europeus, mas o futebol sofrível que vem jogando. Vejo uma seleção, na maior parte das vezes, muito esforçada e pouco inspirada. O futebol-arte, que sempre nos caracterizou, tornou-se um futebol burocrático.
Ouvi vários jornalistas afirmando que nossos jogadores na Europa, exceto Neymar, não são protagonistas em seus clubes. Concordo com eles e acredito que isto resulta em nosso futebol previsível. No entanto, lembro que protagonistas, em clubes ou seleções, são poucos, a maior parte “carrega o piano”. Em 1994, na campanha do tetra, foram muitos “carregadores” qualificados e apenas dois protagonistas – Bebeto e Romário. Enfim, minha tese vai em outra direção: nosso futebol europeizou e perdemos nossa essência e com ela os protagonistas e o protagonismo.
 
 




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