Fotografo: Reprodução
...
Divulgacao

A pandemia e o futebol brasileiro: os desafios para o retorno
 
Por: Luiz Henrique Borges
 
Caro leitor, na última semana a crônica tratou o futebol como potencial propagador da pandemia e das dificuldades enfrentadas pelos clubes. Cabe, neste momento, refletir sobre o futuro, sobre o porvir. 
Há algumas semanas, quando o presidente da República realizou uma visita ao Rio Grande do Sul, foi-lhe solicitado o retorno das atividades futebolísticas. Na semana passada, representantes do Flamengo e do Vasco estiveram também com o chefe da nação reforçando a ideia da retomada dos campeonatos de futebol. 
Ora, como um apreciador e estudioso desse esporte, sinto imensa falta dos jogos nas quartas e domingos. Preciso confessar aos leitores, nas quartas, em virtude das aulas que ministro em uma Universidade no período noturno, eu só conseguia assistir o final do segundo tempo das partidas, mas aos domingos, eu suspendia qualquer outra coisa que estivesse fazendo, independente de sua importância, para religiosamente assistir um dos jogos que estivessem sendo transmitidos. Aos domingos os professores preparam aulas e corrigem trabalhos de seus alunos orientados. As horas roubadas pelo futebol, muitas vezes, representaram a redução de horas de sono, afinal as responsabilidades precisavam ser atendidas. Sinto a falta das partidas, das torcidas, das rivalidades e das gozações da segunda-feira.
Mas, o rompimento de práticas consolidadas não significa que podemos retomá-las irrefletidamente. Acima de tudo, precisamos cuidar das vidas, das nossas e das dos demais, a vida é o bem mais importante de um país. Não existe um “Deus Mercado”, não importa o PIB, enfim, não há economia, política, atividades de lazer, se não existirem pessoas, são elas que afetam os mecanismos de oferta e demanda, são elas que produzem o PIB, são elas que se fazem presentes nos espetáculos.
O Brasil, ao contrário da maior parte dos demais países, tem por tradição a disputa dos campeonatos regionais. Os argentinos, por exemplo, sentem muita dificuldade em entender tais disputas, uma vez que historicamente o futebol naquele país desenvolveu-se a partir de Buenos Aires e no Brasil o processo se deu de forma descentralizada, por isso, temos em cada estado o seu “pai do futebol” e as rivalidades construídas mais fortemente nos âmbitos regionais que no nacional. 
Como retomar os campeonatos regionais? Alguns problemas surgem. O primeiro, a questão do calendário, uma vez que já deveríamos ter finalizado tais disputas e estaríamos vivenciando as primeiras rodadas dos campeonatos nacionais em suas diversas divisões. Neste aspecto, como as férias dos atletas foram antecipadas, ainda existe alguma elasticidade para a finalização dos regionais. Uma outra possibilidade, seria alterar as fórmulas de disputa e, neste sentido, as possibilidades são múltiplas.
Se tais aspectos precisam ser discutidos, talvez a maior dificuldade na retomada dos regionais esteja nos desmontes que os clubes pequenos tiveram que realizar em seus elencos. Incapazes de arcar com as suas despesas durante a suspensão do futebol, eles tiveram que dispensar seus atletas. Como recontratá-los agora? Como prepará-los técnica e fisicamente para o restante do campeonato? 
Independente das fórmulas de disputa e do calendário, muito mais importante é garantir a integridade física de jogadores, comissões técnicas e dos demais profissionais envolvidos em uma partida de futebol. O Brasil tem por hábito desvalorizar o trabalhador, que é visto, como, tão bem encenou Chaplin em seu filme “Tempos Modernos”, um mecanismo de uma engrenagem, que pode ser substituído por outro.
 O caso dos “meninos do Flamengo” evidencia tal afirmação. A falta de preocupação com o bem-estar e segurança daqueles jovens resultou na tragédia do Ninho do Urubu, o incêndio que ceifou a vida de dez pessoas. Ora, tal irresponsabilidade, para além de futuras e justas indenizações, privou o Flamengo de uma importante “matéria prima” que poderia ter rendido muitos recursos aos cofres do clube. Naquele grupo, não poderia existir um novo Vinícius Júnior? Ressalto que situações semelhantes eram vivenciadas pelos demais clubes brasileiros. 
Ora, para a retomada do futebol, devemos nos espelhar na Alemanha, país que desde meados de maio prosseguiu o seu campeonato nacional. É preciso seguir um rígido protocolo de segurança que inclui testes constantes para todos os envolvidos nas partidas, distanciamento nos estádios, portões fechados aos torcedores, entre outras medidas. Mais uma vez cabe um questionamento: os pequenos clubes terão recursos para adotar tais medidas? 
As perguntas são muitas e as respostas também são diversas. O importante é que elas se baseiem na preservação da vida, no cuidado com a saúde de todos. Precisamos voltar de forma responsável à normalidade, caso contrário, o Brasil dará mais um exemplo negativo ao mundo.