Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Sou leitor inveterado de biografias. Imiscuir-me na vida alheia, descobrir o lado não notável das personalidades biografadas ou o que elas pensavam de fatos, circunstâncias e pessoas com as quais conviveram, possibilitam-me formar a imagem mais precisa de pessoas dando-lhes reais dimensões humanas, retirando-as carinhosamente dos pedestais em que a notabilidade as colocou.
Como leitor, por vezes, sinto-me tão envolvido pela narrativa da vida do biografado que me emociono. Isso é frequente quando o biógrafo é próximo e tem envolvimento emocional com o protagonista. Não é imprescindível que este seja alguém que frequente a mídia por feitos políticos, esportivos ou heróicos. Foi com o que me deparei já nas primeiras páginas de Donana – Vidas Entrelaçadas, história de Anna Benícia Moreira – cujo exemplar me foi oferecido pelo meu amigo Antônio Moreira Campolina, um dos seus 17 filhos – de sua grande família, de seu amor por Coco, seu marido, de seus valores e muito das minas gerais, escrito com maestria e delicadeza por sua filha, Rosalina Moreira das Mercês.
Biografias trazem, muitas vezes, respostas a dúvidas que preexistem na mente do leitor e que a leitura esclarece. Em outros casos, pelo contrário, provocam questões do tipo “como teria sido se...”. A biografia de Einstein, por Walter Isaacson, esclarece a real participação da física Marié Mileva, primeira esposa do gênio, na elaboração das suas teorias, e que se chegou a cogitar serem de coautoria.
Após a leitura de Mauá – Empresário do Império, de Jorge Caldeira, ficou-me na garganta a pergunta que sei, nunca será respondida: O que seríamos hoje se Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, tivesse sido mais bem acolhido pelo Império naqueles meados do século XIX? Que repercussões históricas teriam ocorrido no Brasil se aquele empresário moderno que aqui nasceu e se enraizou, tivesse sido, pelo país, melhor aceito e tomado como exemplo? Se o tivéssemos seguido, se o seu vírus de empreendedor e financista não tivesse sido tão duramente combatido, possivelmente teríamos tido a industrialização precoce, o nosso território poderia, desde então, estar unido por ferrovias e hidrovias. Especialidade do Barão. Conjecturas, Sonhos!
Reli, nesta última semana, Código da Vida, uma das mais bem escritas autobiografias com que me deparei na minha vida de leitor desse tipo de obra. A minha admiração pelo autor era antiga. Sua inteligência brilhante, sua participação na política e suas opiniões, das quais muitas vezes divergi, eram sempre bem arquitetadas e elegantemente apresentadas. O que me fez voltar à estante e dela retirar o exemplar que lá estava desde 2007, quando foi publicado, foi o julgamento, pelo STF, da prisão após a segunda instância, que incendiou a opinião pública, não por tê-la rachado ao meio, pois pelo que se pode perceber, a maioria esmagadora da população quer ver criminosos, principalmente os de colarinhos-brancos, os da corrupção geral e irrestrita, atrás das grades.
De fundamental importância no placar de 6 a 5 a favor da não prisão após a sentença em segunda instância foi a posição do prestigiado Ministro Celso de Mello, Decano da Corte, como é tratado. Eu me arriscaria a dizer, até mesmo doutrinador entre seus iguais, haja vista o longuíssimo parecer que proferiu sobre o tema.
Em 2007, quando pela primeira vez li o livro de Saulo Ramos, o STF não tinha a proeminência de hoje. Sou sincero em dizer, que sequer sabia o nome dos onze. Pela primeira vez que tomei conhecimento do ministro Celso de Mello, foi no Código da Vida, com o relato da decepção que seu autor havia sofrido com o afilhado para o STF, por decisão que esse havia tomado.
Recomendo a leitura do Código da Vida a quem curte uma excelente leitura. Àqueles que se interessarem apenas pelo episódio envolvendo o ministro Celso de Mello, podem obter esta parte no Google, digitando apenas: “você é um juiz de merda”.