Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Hoje, mesmo sem vê-lo diretamente, sabemos a cara e o jeitão do inimigo: parece uma coroa de rainha, é muito pequeno, se reproduz com rapidez, pula de uma pessoa para outra com a habilidade de trapezista do Cirque du Soleiel e gosta de se alojar dentro das nossas células pulmonares.
Há muito tempo, o mundo dos seres muito pequenos era desconhecido e as guerras que conosco travavam eram postas na conta de outros inimigos. Nas costas do demônio ia a maior parte. O nosso comportamento pecaminoso era responsável pela punição do próprio deus, insatisfeito por nossa ausência às práticas religiosas, às não contribuições pecuniárias, aos pecados, como cobiçar a mulher do vizinho (curiosamente, não há registro de comportamento pecaminoso quando mulheres cobiçavam o homem da vizinha. Seria isso permitido, ou elas nunca o cobiçavam?)
O instrumento para o estabelecimento de armistícios com esse poder eram as orações, os sacrifícios, as oferendas, conduzidas pelas religiões formais. Ou pelas magias, tocadas pelos autônomos, que se diziam dotados de poderes, tipo joãos de deus, e que eram duramente combatidos pelas religiões que existiam em simbiose com o poder político, haja vista os tribunais da inquisição. Monopólio sempre foi o melhor dos negócios. As ditaduras invariavelmente se baseiam em partido único, mesmo quando se declaram democráticas. Desculpem, mas a questão, do meu ponto de vista, sempre foi mais da Terra que do Céu.
Foi Louis Pasteur, há pouco mais de 200 anos, que correlacionou doenças infecciosas com microrganismos e criou as primeiras vacinas. Para os amantes da leitura de biografias recomendo o livro Medicina dos Horrores, que é a história do cirurgião Joseph Lister que revolucionou a prática cirúrgica no século XIX, ao demonstrar como as bactérias interferiam nesses procedimentos. A tradução brasileira é de 2019, do original de 2017.
Com a pandemia do corona vírus, revivo o clima de apreensão da infância, quando ainda durante a guerra, ao ouvir falar do andaço de doenças como sarampo, coqueluche, catapora, difteria e pragas desconhecidas, mortais, que estavam para chegar àquele Rio e ao mundo, contra as quais as mezinhas correntes eram insuficientes.
Surgiam, então, as “simpatias” que corriam de casa em casa, mães ensinando mães como proteger seus filhos da praga que logo se viria juntar as que já nos punham fora das brincadeiras de rua daquele subúrbio da Leopoldina, onde nasci.
Trago na lembrança de um desses episódios, que minha mãe, a exemplo das vizinhas, produziu um sachê, em cujo interior pôs um dente de alho, apenas machucado, tiro e queda, diziam, contra a praga terrível que se anunciava, e que era mantido preso por alfinete de fraldas 24 horas por dia a nossas roupas.
Artifícios desse tipo chamavam-se “simpatias”. Dessa, não cheguei a testar a eficácia, a praga não chegou. Talvez seja a atual, com muitas décadas de atraso. Ficamos, meninos e meninas, com perfume de spaghetti aglio olio por semanas. Durante anos repudiei o gosto de alho nos alimentos.
No pós-guerra surgiram logo as sulfas, a penicilina, o Raio X, que foram pondo fora a necessidade de nos agarrarmos a procedimentos não científicos de cura. Dentre estes, o melhor, o mais eficiente, poético, inesquecível, era a rezadeira que atuava nas doenças de todas as origens, as endêmicas, as emocionais, as psicossomáticas, as sentimentais.
Dignas senhoras que transpareciam limpeza, confiança, honestidade. Quase sempre grisalhas,  traziam os cabelos presos em pano imaculadamente branco, atendiam sem pedirem ou aceitarem recompensa. – “A serviço de Deus, meu Senhor”. Vem-me a memória Cecília, rezadeira negra, miúda, neta de escravos, que levou tantas vezes conforto à minha família e ao nosso bairro, com o seu ramo de arruda, perfumando o ar por onde passava.
A ciência, apanhada de calças curtas pela ameaça atual, dará respostas certas, vencendo os desafios. No momento testa os princípios ativos existentes, os tipo bom-bril ou WD40 – mil e uma utilidades, as aspirinas modernas. Certamente vai encontrar e aliviar a pressão sobre a humanidade. Um pouco mais e virão as vacinas.
Por via das dúvidas, estou plantando três pés de arruda e dois de espada de São Jorge que vou colocar na porta aqui de casa!
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Mar.2020