Fotografo: Divulgação
...
Sem Legenda

Não se assustem, não sou pregador religioso, pelo contrário, disso entendo pouco. Só para que tenham uma ideia, na minha conta corrente, para acerto definitivo, a coluna “Pecado” é a mais longa e vejo o tempo passando e não consigo abatê-la.
Sei, por experiência e observação, que todas as virtudes nascem do enfrentamento, com vitória, sobre as tentações. Roberto Carlos, em canção antiga, registrou que tudo que é bom ”é ilegal, imoral ou engorda”, pecado, enfim. Mesmo a gula é um deles, talvez o mais inocente, dentre os que o então jovem compositor tinha em mente. No plano pessoal, burlas à austeridade excessiva costumam ser muito divertidas.
Ouvi de Santiago Dantas, o grande jurista, político e intelectual, precocemente falecido em 1964 – cuja biografia merece ser conhecida pelas novas gerações –, que são de três naturezas os objetivos que os indivíduos perseguem para suas realizações pessoais: o ter, o saber, o poder. Este é o que exerce a maior atração e cujo exercício passa pelo desfiladeiro das tentações.
Ao me vir à lembrança a figura imponente de Santiago Dantas, o vejo na condição do Ministro das Relações Exteriores e participante do grupo que implantou no país uma política externa desalinhada dos grandes blocos que se digladiavam naqueles anos 60 do século XX, da Guerra Fria. Exemplo de altivez, que pode e deve ser seguido. “É melhor ser focinho de gato, que rabo de leão.”
Acreditei autênticas as mensagens de novos líderes, propondo procedimentos honestos, se eleitos. Alçados ao poder, tentações surgiram. A luta se instalou entre as intenções iniciais e as impensadas fartas possibilidades futuras. Tornaram-se lenientes, os que se haviam propostos à probidade e até participantes da corrupção. A tentação venceu. A da riqueza pessoal, a da perpetuação no poder. Quando a tentação é vencedora, a virtude perde. E os líderes deixam de sê-lo. O caminho é sem volta.
A cupidez nem sempre é causa do descaminho. Na ação político-administrativa, o açodamento pode levar ao impulso de fazer o mais e o melhor intempestivamente, o que rompe a proporção correta entre o desejável e o possível. Na meta dos 50 em 5, Juscelino tangenciou sempre essa questão, resolvida com gestão competente.
Governos centrados na teoria do Estado de Bem Estar Social pretendem reduzir desigualdades e preveem em seus programas a distribuição de benefícios diretamente do Tesouro Nacional. A dosagem deve ser a suportável, pois, caso contrário criam-se déficits a serem cobertos por futuras gerações. A economia real, aquela que cria trabalho e produz riqueza, é forçada por tributos, buscando-se nela os “ovos de ouro”, tornando-a de baixa eficiência e produtividade.
O lado B do disco está tocando: Neoliberalismo. Seita econômica que prega que os recursos da sociedade – suas riquezas – estejam primordialmente alocados à disposição da produção e dos consumidores. As palavras são Mercado, Demanda e Oferta. Nos países em que prevalece essa orientação reduzem-se impostos. Neoliberais também estão sujeitos aos mais diabólicos desejos.
Dentro desse catecismo, medidas têm sido tomadas para equilibrar as contas e estão dando resultados: reforma da previdência, venda de ativos de empresas públicas, concessões de serviços, direitos para exploração de petróleo, encaminhamento das reformas tributária e administrativa. Mas o diabo da tentação começou. A maldição de romper proporções está atuando. O desejo de sair da sensatez do gradualismo para a aventura do governo “joão sem braço” quer mostrar a cara.
A tentativa de fazer reviver das cinzas a CPMF que o Congresso incinerou, em 2007, e lhe dar uma identidade fake, com o nome de Imposto sobre Transações Financeiras, é tentação do tipo Derruba Governo. Impostos sobre as folhas de pagamentos, que querem trocar pela nova CPMF, as empresas repassam em seus produtos. Taxar a totalidade das operações bancárias afeta principalmente os assalariados, que não tem como repassá-las.  Nada é menos neoliberal e mais injusto. A incontrolável vontade de gerir um Tesouro rico baixou no governo. Bolsonaro tem até aqui segurado essa imprudência.
Neoliberais cortam impostos, não os trocam por outros para que o Tesouro engorde mais rapidamente.
O presidente sempre proclama que não entende de economia, mas como político hábil sabe que é preciso vencer tentações para ganhar eleições.