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Divulgacao

Por: GILBERTO MENEZES CÔRTES
 
Muito já se disse das mentiras, exageros e inverdades do segundo discurso do presidente do Brasil nas Organizações das Nações Unidas. Em setembro de 2019, Jair Bolsonaro falou de viva voz, em Nova Iorque. No dia 22 de setembro de 2020, devido à pandemia da covid-19, o Brasil marcou, como faz desde 1955, a abertura dos trabalhos da 75ª Assembleia Geral da ONU, mas desta vez, com um discurso pré-gravado de Jair Messias Bolsonaro. Uma estranha interferência (hacker?) causou engasgo no início da transmissão do discurso quando surgiu uma legenda disparatada. Prenúncio do que viria depois...
 
O próprio presidente Jair Bolsonaro reconheceu, em live gravada quinta-feira à noite (24 de setembro), ao lado do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que exagerou no valor de “US$ 1 mil pago no Auxílio Emergencial a 65 milhões de pessoas”, desmentido no mesmo dia do discurso [conforme denunciamos aqui no JB] em release da Caixa Econômica Federal que “não conversou” com os redatores da fala presidencial. A íntegra da matéria pode ser acessada em Economia, no dia 22 de setembro.
 
Os valores médios pagos até aquele dia a 67,2 milhões de pessoas [2,2 milhões a mais] estavam abaixo de R$ 3 mil. Ao câmbio do dia 22 (a CEF, que gere 100% do AE soltou novo release no começo da noite, atualizando com os valores pagos na própria terça-feira) somariam de US$ 552 a US$ 545. De qualquer forma, desvios de 44% a 45% menores do que disse na ONU. Mais ou menos dentro do padrão das “rachadinhas" usadas pelos filhos 01,02 e 03.
 
Na live, Bolsonaro tentou se corrigir: "Eu disse no meu discurso da ONU que o total do auxílio emergencial era próximo de US$ 1.000, na verdade, dá US$ 960, mas foi o suficiente para baterem em mim", comentou. "Dos 65 milhões que receberam de R$ 600, tínhamos ali 12 milhões de senhoras com filhos, essas receberam o dobro, o que eleva a média”, justificou. Bolsonaro repetiu ainda que o novo valor de R$ 300 [a partir de setembro], apesar de pouco para o cidadão, é muito para o Brasil e o seu endividamento. E destacou que o custo da pandemia deve ser próximo a R$ 1 trilhão. [O déficit público foi revisado esta semana pelo Ministério da Economia em R$ 861 bilhões. Ou seja, em seis meses os gastos com os impactos da covid-19 consumiram o que a Reforma da Previdência aprovada em 2019 iria poupar em 10 anos].
 
No dia seguinte à live, em novo release, a CEF, já incorporando a primeira rodada de pagamento do Auxílio Emergencial Extensão (como a Caixa batizou a redução dos R$ 600 para R$ 300) diz ter alcançado “nesta sexta-feira (25/09), a marca de 304,5 milhões de pagamentos do Auxílio Emergencial, beneficiando 67,2 milhões de brasileiros. Os pagamentos somam um montante de R$ 207,9 bilhões disponibilizados pelo Governo Federal, com o objetivo de amenizar os impactos da pandemia do novo coronavírus na renda da população brasileira. A maior ação de pagamento social da história do país atinge a marca histórica no dia em que inicia o crédito de R$ 1,6 bilhão do Auxílio para 4 milhões de beneficiários nascidos em setembro, conforme o calendário do Ciclo 2, e a disponibilização de R$ 428,2 milhões referente à primeira parcela do Auxílio Emergencial Extensão para 1,6 milhão de beneficiários do Bolsa Família com final de NIS número 7”.
 
A divisão de R$ 207,9 bilhões por R$ 67,2 bilhões dá R$ 3.093,75, em média por pessoa. Considerando o câmbio de 25 de setembro, quando o dólar fechou a R$ 5,5538, isso representaria US$ 557,05. Ou seja, estariam faltando US$ 442,95 para completar os tais US$ 1.000 anunciados pelo presidente brasileiro no discurso gravado à ONU. Com a redução à metade nos pagamentos referentes aos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, os valores em dólar vão minguar cada vez mais. E se o real não se recuperar, o nariz de Pinóquio de Jair Bolsonaro pode crescer mais. A quantia presidencial vai ter de baixar dos US$ 960 para a faixa de US$ 500 ou até menos...
 
Não vou entrar nos delírios em relação à questão ambiental. O jornalista Elio Gaspari resumiu com propriedade o tom e o conteúdo do discurso sobre o tema: “Parecia discurso de vereador em caçamba de caminhão”. Os fatos são evidentes e não adianta repetir Nélson Rodrigues que desdenhava da realidade quando queria defender um gol irregular do seu amado Fluminense: “pior para os fatos”, o que seria o embrião do fake news. Mas Nelson era antes de tudo um cronista, um ficcionista, que deixava falar mais forte sua alma tricolor....
 
Na mesma live, ao lado de Salles, o presidente Bolsonaro afirmou ter recusado ajuda financeira estrangeira para a preservação ambiental, no ano passado [quando o Brasil abriu mão de receber recursos da Noruega e da Alemanha para o Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES], por temer "perda de soberania". O presidente voltou a rebater críticas sobre a atuação do governo no combate às queimadas e disse que há um "jogo econômico" por trás do interesse de países e organizações internacionais quanto ao meio ambiente brasileiro [os grandes empresários e exportadores do agronegócio não pensam assim].
 
"Tem países oferecendo alguns milhões de dólares para a gente para reflorestamento e tiveram embate comigo ano passado. Eu não aceitei isso porque a troca seria perdermos parte da soberania na região Amazônia", declarou. Também em agosto de 2019, Bolsonaro recusou ajuda financeira de países do G-7, anunciada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, para combater os incêndios florestais na Amazônia. Em retórica tão canhestra quanto a gramática, emendou: “Agora, por que esses países em invés de dar dinheiro para nós reflorestar, não reflorestam os seus países?",
 
O que queria chamar a atenção não foi a posição defensiva que o Brasil assumiu na ONU. Este segundo discurso de Bolsonaro na ONU, no dia 22 de setembro, evitou mencionar os 137.272 mortos pela covid-19 [até o dia 21, no dia 22 chegamos a 138.108 óbitos, segundo o Ministério da Saúde, agora sob o comando efetivo do general Eduardo Pazuello, e neste domingo já são mais de 141 mil vidas abatidas pelo novo coronavírus e pelo discurso negativista ao recolhimento social, uso de máscaras e práticas profiláxicas contra a pandemia], mas sepultou as pretensões de independência e protagonismo da política externa brasileira postas em prática desde 1975, no governo do general Ernesto Geisel, o quarto presidente do regime militar (1964 a março de1985).
 
Pela primeira vez desde que Fernando Henrique Cardoso, então ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco [antes de ser ministro da Fazenda e germinar o Plano Real, FHC dirigiu por quase oito meses o Itamaraty], defendeu a ideia de reforma do Conselho de Segurança da ONU, com a duplicação do número de membros permanentes. A tese foi encampada pelo Itamaraty e sempre renovada por Lula, Dilma e Temer, na ONU. No seu discurso inaugural em 2019, na 74ª Assembleia Geral, em Nova Iorque, o presidente Jair Bolsonaro também defendeu a reforma.
 
Este ano, o Brasil de Bolsonaro absteve-se de defender a reforma com duplicação dos assentos permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Bolsonaro aderiu à tese americana e pregou a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), que, esvaziada pelo presidente dos Estados Unidos, levou o brasileiro Roberto Azevedo a pedir demissão antecipada do cargo um ano do fim do mandato para dirigir a Pepsi...
 
No discurso, em vez da independência histórica da política externa brasileira, aplicada desde o grande barão do Rio Branco, cuja habilidade permitiu ao Brasil ampliar suas fronteiras sem guerras sangrentas, como a do Paraguai, Bolsonaro atacou duramente a Venezuela e demonstrou vassalagem aos interesses americanos. Enalteceu Donald Trump, candidato à reeleição pelo Partido Republicano, que foi devidamente citado, rompendo a praxe de se considerar apenas os Estados/nações (que são permanentes) e não os líderes (passageiros). “O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino”, disse textualmente Bolsonaro.
 
O chanceler Oswaldo Aranha (1894-1960) deve ter-se revirado no túmulo. Aranha presidiu a Primeira Assembleia Geral Especial das Nações Unidas, realizada em 1947, e a Segunda Assembleia Geral Ordinária, no mesmo ano, que tiveram o papel histórico de determinar – por meio da resolução 181 da Assembleia Geral – a partição da Palestina entre árabes e judeus, abrindo caminho para a criação do Estado de Israel.
 
Como quinto país em extensão territorial e quinta população mundial, com 212 milhões de habitantes, praticamente empatado com o Paquistão, o Brasil perdeu uma ótima oportunidade para reafirmar sua importância no concerto das nações. Calou-se na questão mais importante da ONU: a reforma do Conselho de Segurança para tratar de temas menores. Apequenou-se. E foi tratar de temas paroquiais. Não com a visão do grande Leon Tolstoi, que dizia “se queres falar para o mundo, comeces pela sua aldeia”. Bolsonaro não deve te-lo lido. Afinal, não é muito chegado a livros, quanto mais de “um russo”.
 
O CS tem 15 membros, sendo cinco permanentes: Estados Unidos, Rússia (herdeira da URSS), Reino Unido, França e China, as potências atômicas na Guerra Fria, com poder de veto no Conselho. Outros dez membros integram o CS em sistema de rodízio. O Brasil, que já integrou o CS em 14 ocasiões (a última em 2010-2011), pleiteia uma vaga permanente ao lado da Alemanha, Índia, Japão e a África do Sul, como representante do continente africano.