Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Caro leitor, mesmo que não seja botafoguense, não abandone essa crônica. Lendo o maravilhoso livro escrito por Ecléa Bosi, Memória e sociedade, que trata, como o título já indica, do processo de construção das lembranças e a necessidade do esquecimento, fui arremetido, tal como um lançamento que parte do goleiro ao atacante, a bola que atravessa voando todo o campo, ao meu passado e, dentre as muitas lembranças que formam meu patrimônio pessoal, a minha aproximação com o futebol.

Ainda na mais tenra idade, na pequena cidade de minha mãe, Leopoldina, em Minas Gerais, meu tio, Antônio Mário, me lançou na mais duradoura armadilha, a paixão clubística. Ele, que não gostava de futebol e não era torcedor, falou para mim: “Torce para o Botafogo, ele teve o Garrincha, o Nilton Santos e o Jairzinho”. Naquele momento meu destino foi selado, me tornei botafoguense e a estrela solitária, que pontua de branco o céu negro, o preto e branco, o alvinegro, tornou-se uma paixão.

Em meados da década de 70, uma editora lançou um álbum do Pelé. Ávido pelas figurinhas, meu pai viu uma oportunidade de me converter ao seu time de coração, o Vasco da Gama. Ele me fez uma proposta, compraria uma grande quantidade de envelopes, cada um com três cromos, para o meu álbum. Mas, sempre ele, o terrível “mas”, a condicional: eu deveria torcer para o Vasco. Naquele momento, mesmo sem conhecer um dos dez princípios de economia, a relação custo e benefício nas decisões, intuitivamente tomei a decisão. Vou completar o álbum, é muita figurinha... De agora em diante vou torcer para a Cruz de Malta. Meu pai, sempre cumpridor da palavra, saiu pelas bancas da cidade e comprou o prometido. Ao retornar das “compras”, o último gesto, a garantia, ele me dirigiu os envelopes, na hora que iria tomar posse, ele o afastou e me perguntou: “Qual é o seu time”. Mais do que rápido, quase automaticamente, respondi em tom suplicante: “Vasco, sou Vasco”.

Passei parte da noite envolvido em rasgar envelopes e colar os cromos em seus locais. O álbum ficou quase completo. Extasiado com a experiência fui deitar. Foi aí que os problemas começaram. O sono não vinha e a “traição” começou a tomar conta da desamparada criança. Virava para um lado, virava para o outro e nada de dormir. Lá pelas tantas, chamei o meu pai. “Pai... Pai...”. Já desconfiado que algo havia ocorrido ele me perguntou: “O que foi meu filho?”. Respondi: “Pai, eu sou Vasco, mas eu não consigo deixar de gostar do Botafogo”. Percebendo que a partida estava perdida, meu pai disse complacentemente: “Vai dormir meu filho, pode torcer para o Botafogo”.

Como se fosse um código, uma palavra mágica que abre a porta da Caverna de Ali-Babá, eu adormeci quase imediatamente, certo de que a “traição” estava reparada. A partir desse momento, meu pai percebeu que eu era, em suas palavras, “caso perdido”. Da minha parte, tive a certeza que jamais torceria para outra equipe.

Caro leitor, perceba que o Botafogo se esforçou para que eu mudasse de clube. Nasci em 1968 e passei os meus primeiros 21 anos de vida sem comemorar um único título, o mais mísero que fosse. Lembro do sofrimento ao assistir o Flamengo, com seu esquadrão comandado por Zico, derrotar o meu alvinegro. Mas o pior eram os jogos contra o Vasco. Quando o Roberto Dinamite matava a bola no peito dentro da área, antes dele completar o giro e jogar a bola para o fundo das redes, eu desligava o botão da televisão.

Foram 21 anos de sofrimento, mas o que é esse tempo quando comparado a longevidade de uma estrela? Há um ditado que diz: “Há coisas que só acontecem com o Botafogo”. Em uma quarta-feira, dia 21 de junho de 1989, ao lado da família do amigo, Guto, quase todos flamenguistas, aos 12 minutos (21 ao contrário), Maurício tornou-se o meu redentor. Seu gol terminou com o jejum de títulos e a equipe, comandada pelo saudoso Valdir Espinosa, levantou o Caneco contra o rubro-negro.

Que êxtase! Passei duas semanas sem tirar a camisa do Botafogo, calma, eu tinha algumas camisas, não era a mesma. Como a alegria é mais arrebatadora, como a estrela brilha mais intensamente depois de tanta dificuldade; como a leitura de um texto sobre memória me permitiu reviver emoções tão fortes. Agradeço ao meu Tio, já falecido, por ter colocado o Botafogo em minha vida; ao meu pai, por ter, mesmo com alguma resistência, aceitado a minha escolha; à Ecléa Bosi, por ter permitido relembrar tais emoções e, principalmente, ao leitor, que compartilhou essa experiência.