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Vitória Da Conquista(BA), Terça-Feira, 30 de Novembro de 2021 - 19:09
16/10/2021 as 09:39 | Por Luiz Carlos Figueiredo |
Comeram até o CACHORRO!
- Solta minha galinhas! Solta!
Fotografo: Sem Dados
Divulgacao

Comeram até o CACHORRO!
 
 
   Eu já disse uma vez e repito: a cidade de Cândido Sales é extremamente atípica. Cidade pacata, assim meio acanhada, se fingindo de morta, porém, tem cada personagem de lascar o cano! Um dos personagens mais conhecidos da cidade é Jerim.  O velho Jero – como é conhecido - foi acometido de um AVC e tem se recuperado lentamente, anda e fala com dificuldade, mas, o que este persona já pintou por aqui mete até medo.  É também conhecido pela alcunha de “Ligerim” por que andava mais ligeiro que o “Papa-Léguas” do desenho animado que fez muito sucesso na TV no século passado, Jerisvaldo (seu nome de batismo) tem uma infinidade de histórias que merecem serem contadas.
Outro grande personagem destas bandas foi Pepeu. Este se mudou de mala e cuia lá pras bandas dos Gerais. De quando em vez aparece por aqui, porém, hoje se transformou em um respeitável senhor. Em 1996, em plena campanha em prol do PMDB, Pepeu – Serralheiro por profissão – comprou uma velha Brasília, serrou mal serrado a parte de cima da bicha, botou uns pneus e feixes de molas reforçados e virou a grande atração daquela campanha política. Ia aos comícios do interior do município levando mais de trinta pessoas em cima. Quando a velha brasília adentrava os povoados era o maior sucesso. Primeiro vinha aquele poeirão danado, em seguida aquela algazarra toda com todo mundo “moqueado” pulando em cima do veículo que balançava mais que as antigas barcas dos parques de diversão. Em Lagoa Grande, por exemplo, o comício aconteceria à noite e naquela tarde de sol quentíssimo, adentrou o povoado Pepeu e a sua turma. Os caras atravessaram o povoado de ponta a ponta sendo aplaudidos de pé por toda a comunidade. Bar lotado e lá vem um velhinho se aproximando de toda aquela gente que fora daqui para o grande evento político. A principal diversão do Cândido-Salense quando ia a estes eventos era somente tomar todas as “conenas” necessárias e se possível, ver um o outro político usando a palavra. Doido pra tomar uma, o pobre do velhinho se aproximou para em seguida “tecer loas” favoráveis aos candidatos do PMDB. No fundo ele queria mesmo era que alguns dos presentes lhe pagassem uma ou outra. Assim que começou os elogios, choveu pinga na mesa do velhinho que parecia gostar mais de cana que de comida. Conversa vai, pinga vem e o sossego da tarde só foi quebrado quando Pepeu retornou com sua brasília adaptada com aquela renca de marmanjo pulando em cima... O barulho ensurdecedor fez que todos saíssem à porta do buteco para ver o show e ao passar diante do velhinho, este butucou os olhos e ao ver a quantidade de galinhas vivas que a turma de Pepeu transportava nas respectivas cacundas, largou o copo de cachaça e saiu embicado atrás do baqueleleixo:
        - Solta minha galinhas! Solta!  
Não sei o resultado do sucedido, só que sei que o velhinho ao correr atrás do veículo de Pepeu, passou a berrar pra que todo mundo ouvisse: 
- Se não devolver minhas galinhas eu voto contra! Devolva as minhas galinhas...!
Já o negro Jero ficou muito famoso por participar de todas as festas que aconteciam na cidade (batizados, casamentos, aniversários etc...), na maioria das vezes, sequer era convidado. Chegava à festa com a maior cara de pau, cumprimentava solicitamente o noivo (ou aniversariante, ou pai ou mãe do anfitrião) e logo estava bebendo e comendo tudo o que encontrava pelo caminho. Muitas vezes era o último a deixar a festa (se escondendo em algum quarto ou banheiro só pra continuar bebendo) e só saia quando posto à força pra fora. Mesmo assim, sempre foi extremamente querido por todos na cidade.
Trabalhador feito o diabo, o “Nego Jero” segurava as suas economias – e aplicava – os seus rendimentos com a sabedoria que lhe era peculiar. Tinha aversão em pagar uma ou outra cerveja para alguém (ou até para ele mesmo), quando isso acontecia, o caboclo tinha que rezar bastante! Quando bêbado, parecia incorporar alguma entidade. Começava a conversar sozinho, franzir a testa e enrugar o nariz, dava cada baforada no ar que quem estava perto tinha até dificuldade para respirar. Quando começava a perguntar... 
- Jerim é mau? Jerim é mau?!! – Melhor sair de fininho, porque na sequência vinha às dedadas no peito do interlocutor que não tinha cristão que suportasse! Isto gerou um monte de brigas, Jerim apanhava sempre, porém, conhecido de todos, sempre tinha uma “viva alma” para defendê-lo. Como eu disse, todo mundo da cidade amava o jeito de ser de Jero.
 Na Copa do mundo de 1998, por exemplo, Jero descobriu que Pepeu – o serralheiro – estava reunindo em sua residência um grupo de amigos para assistirem aos jogos da Seleção brasileira. No Primeiro jogo chegou de fininho, sentou-se, torceu, bebeu, comeu (mais que os outros convidados) e teve o cuidado de abraçar a todos na hora dos gols do Brasil. Saiu dali na certeza que descobrira um lugar com fartura de bebida e comida durante todas as partidas do Brasil na copa. Repetiu o feito no segundo jogo, nova vitória do Brasil, novos gritos, abraços, beijos, pulos e muito churrasco e cerveja. No terceiro jogo – que por acaso o Brasil perderia para a Noruega – o grupo de amigos liderados por Pepeu (famosos por servir nos churrascos carne de gatos criteriosamente abatidos) resolveu inovar e abater um velho cachorro doente que andava “caxingando” ali pela sua porta. Capturaram e abateram impiedosamente o pobre bichinho! Após descartar o couro, a cabeça, as patas e as vísceras, Pepeu temperou o bicho com três dias de antecedência e o deixou moqueando esticado em uma corda no quintal da sua casa tomando sol e sereno. Quem passava na rua sentia um inebriante cheiro que as deixavam salivando.
 Eis que chega o grande dia, copa da França, Brasil X Noruega caiu justamente no dia 23 de junho, dia da fogueira, véspera do São João, o Espigão preparando uma grande festa para comemorar mais uma vitória e lá foram as pessoas se reunirem na casa de Pepeu para assistirem ao grande confronto. Não preciso nem dizer que um dos primeiros a chegar foi o velho amigo de guerra Jerim. Chegou e se sentiu até lisonjeado com tanta atenção e carinho . Buscaram logo um litro de batida atrelado a duas garrafas de cerveja estupidamente geladas que foram colocados bem perto de Jero que – com medo das pessoas beberem tudo – solveu logo em uma ligeireza que só se vendo! Mal acabou de secar os copos e lá vinham novas garrafas de conhaque, vinho, rum, batida, caipirinha, os cambaus... Jero chegou a imaginar que se realmente existisse céu, aquilo ali que ele estava vivendo era bem próximo! O melhor foi quando a carne começou a sair e o “bode” foi posto exatamente na mesa onde estava o nosso amigo que quase se empanzinou de tanto comer! Comeu as costelas – tendo o cuidado de mastigar criteriosamente cada ossinho – e detonou o lombo e as partes maciças. Comeu que lambeu os beiços. Lá pras tantas, quando todo mundo já estava mais ou menos “medicado”, não é que o Brasil deu de perder para a Noruega? Pois é, perdeu! Pra que? Pepeu se “retou” e após alguns minutos de enfezação  botou todo mundo pra fora de casa. Como ainda tinha muita bebida e comida, Jerisvaldo botou um litro de batida debaixo do braço e saiu rasgando um enorme pedaço de carne com osso e tudo. Quando ele estava bem no meio da rua, eis que aparece o dono da casa mostrando o couro do cachorro todo esticado e berrando um bando de impropérios:
 - Tropa de “Felas de uma égua”! “O quí o que ocêis cumero, óh”! Se lascaro!
Foi um fuzuê. Tinha até algumas garotas no meio (e nem preciso falar que o organismo da mulher é um pouco mais sensível) e quando olharam para aquele couro espichado de cachorro mal matado com aquela boca aberta cheia de varejeiras, só se viu gente gritando, outros correndo e a maioria vomitando onde dava pra vomitar. Jero antes de – literalmente – largar o osso ainda deu uma bela de uma mordida no pedaço que levava. Morrendo de pena, jogou o osso fora! Foi uma comoção!
Enquanto Jerisvaldo saía lambendo os beiços, todo troncho, tropicando nas próprias pernas com o litro de batida debaixo do suvaco, um curioso perdeu a oportunidade de ficar calado e perguntou: 
- Xi, rapá... Até Jerim! Comeu carne de cachorro, hein? Caramba, meu irmão? Pepeu enganou todo mundo, não foi? Que gosto tem carne de cachorro, Jero, fala aí?
O velho Jero tirou uma linha de cima a baixo do interlocutor e falou com a conhecida e embriagada voz – que quando bêbado parecia um trovão:
- Eles com’eles, eles com’eles! 
 
 
FIM
Luiz Carlos Figueiredo dos Santos
Escritor e Poeta
Cândido Sales, estado da Bahia.
Quadras de Outubro...  Minguante de Primavera de 2021 
 




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