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Vitória Da Conquista(BA), Segunda-Feira, 27 de Setembro de 2021 - 04:03
11/09/2021 as 11:36 | Por Luiz Carlos Figueiredo | 228
CUIDADO PINTOR, PRA NÃO PINTAR PALAVRA ERRADA!
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

 

Marcolino sempre foi um cara extremamente diferente. Desaguou em Cândido Sales de mala e cuia em plena década de 1980 e logo lá estava ele inserido no seio da “mais alta sociedade Cândido-Salense”. De uma hora pra outra, o jovem atlético e cabeludo (oriundo da Zona da Mata do Pernambuco) já era íntimo de todo mundo, participando ativamente do cotidiano da cidade.  O jovem ganhava a vida como pintor de lameiras e para-choques de caminhões, embora, se pintasse (sem trocadilhos) um ou outro “letreiro” para se abrir em uma ou outra parede de alguma casa comercial ele fazia com o maior gosto.  Não demorou muito para ele se ingressar no velho sistema de alto-falantes da cidade, conseguindo encaixar três programas diários como locutor. Em um destes interpretava as vozes de quatro personagens simultâneos (interagindo entre si), tendo um velho nordestino de voz arrastada e pavio curto como a grande atração do programa. Quando a principal Banda Musical da cidade precisou de um crooner, quem estava lá mais saltitante que galinha pisando na brasa? Ele. Foi vocalista por um bom tempo sempre cantando todos os gêneros musicais. A criatividade do rapaz era tanta que quando ele não estava pintando cartazes artísticos ou rostos femininos, podia ser encontrado no palco do Rio Pardo Festival defendendo uma ou outra canção da sua autoria. Em uma destas apresentações entrou no palco munido de um motosserra destruindo sem querer todo o cenário do evento.  Se isso não bastasse, sabe Deus como, Marcolino conseguiu conquistar a garota mais descolada da cidade. Valquíria era uma galega extremamente inteligente, além de ter um corpo de parar o trânsito, era desejada por todos os solteiros (e alguns casados também) da cidade, andava de shortinho pelas ruas distribuindo uma invejável sensualidade. Alta, curvilínea, longos cabelos loiros, boa de prosa e viciada em jogar futebol. Como naquela época não havia espaço para mulher praticar o esporte beltrão, Valquíria montou um time de futebol masculino onde ela jogava de centroavante. No dia em que estava invocada, premiava quem lhe desse um passe pra gol com um fogoso beijo de língua! Filha de um dos comerciantes mais abastados da cidade, repentinamente a jovem não deu de se encantar pros lados do jovem Marcolino? Sim. E em menos de vinte dias saltaram da paquera direto para o casamento. Para enrubescer as famílias conservadoras da cidade, no dia do casamento o casal optou por sair caracterizados pelas ruas e ao invés de fazerem um “matrimônio convencional”, foram conduzidos pelos becos da cidade através de uma carroça puxada por um jumento caolho, com os convidados dançando atrás ao som de sanfona, triângulo e zabumba.  Se o casamento chamou a atenção, imagine aí a lua de mel? No mesmo dia da consubstanciação os recém-casados se trancaram literalmente em um quarto e só saíram depois de três semanas ininterruptas (a comida era posta por baixo da porta), até os mantimentos acabarem e a santa mãe de Valquíria ser forçada a fazer que o jovem marido fosse se aventurar na beira da rodagem em busca de mais alguns trocados.

- Filha, tá na hora de vocês voltarem a viver. Saiam deste quarto! – Falava a senhora batendo delicadamente na porta do quarto.

- Ah, mãe, mas está tão bonzinho! – Suspirava Valquíria nos braços de Marcolino.

- Filha, a comida acabou. Seu marido precisa voltar a trabalhar!

- Trabalhar como, minha sogra? Eu não fiz uma feira enorme e trouxe pra casa?

- Sim, meu filho... – dizia pacientemente a sogra. – Mas já fazem trinta dias que vocês estão trancados aí, a feira acabou. Hora de sair e trabalhar! – Determinou a velha senhora. Toda esta paixão de Marcolino e Valquíria passou igual um tufão, em menos de dois meses só sobraram às cinzas fazendo que o pobre moço entrasse em uma depressão tão medonha que se Dona Edite (que era metida a curadeira) não tivesse lhe benzido era riscoso Marcolino ter batido as botas! Para quem pensa que o que já está ruim não pode piorar, eis que após participar de um baile como crooner na cidade mineira de Medina, o carro que trazia a banda tombou e entre mortos e feridos, Marcolino conseguiu escapar com vida, porém ficou todo muchilado. Até hoje tem um tique nervoso como se uma mutuca picasse insistentemente um dos seus braços.

Em 1989 logo após a vitória do então candidato Jaimilton Aciole, Marcolino - que fora um dos principais locutores dos comícios -, foi contratado na função de pintor. Antes mesmo de se completar um mês de administração, a população foi contemplada com a chegada de uma ambulância novinha em folha (enviada às pressas por um deputado). Mal o veículo estacionou na porta da Prefeitura, já foi cercado por dezenas de babões. Após um fervoroso discurso e dez minutos de aplausos depois, o prefeito todo orgulhoso mandou chamar o famoso pintor que chegou imediatamente com o seu indefectível macacão (parecido com aqueles do filme Os Caça-Fantasmas) e com a sua indefectível maletinha de madeira entupida de latas de tintas e variados pincéis. Diante daquele monte de curiosos, o prefeito recém-eleito deu um afetuoso abraço no pintor e ao lhe entregar um bilhetinho datilografado com a palavra “EMERGÊNCIA” escrita em letras graúdas, mostrou onde o letreiro deveria ser pintando (em ambos os lados e em cima do capô do veículo). Empolgado, Marcolino mostrou o conteúdo do bilhete para os babões e tanto ele como o prefeito foram aplaudidos de pé. Como o dever chamava o jovem administrador, todos os olhares da praça se viraram em direção à Marcolino. Depois de fazer um estranho alongamento (dando pequenos pulos, estalando todos os ossos do corpo e saltitando em uma perna só), sentou-se sobre a sua maletinha e envolto em uma “confusão de misturas de cores” acabou abrindo um lindo letreiro em cada um dos lados da nova ambulância. Após terminar o serviço, Marcolino todo orgulhoso fez mais alguns alongamentos e, impaciente, resolveu interromper uma importante reunião apenas para mostrar ao patrão a linda pintura que acabara de fazer. Depois de muita insistência por parte do jovem, o prefeito, vereadores e os respectivos secretários foram até a porta da prefeitura para ver a tão decantada pintura e ao ver o resultado da obra, o prefeito que tinha fama de ter o pavio mais curto que perna de anão, quase caiu de costas! E para piorar, Marcolino ainda não deu na bistunta de fazer uma pergunta para a autoridade constituída?  Perdeu foi à oportunidade de ficar calado!

- E aí, chefe... gostou?

- O que é isto? – Indagou o prefeito retorcendo o bigode de raiva! - Você é doido por acaso? Eu lhe mandei escrever o que, seu idiota?

Ao invés de escrever “EMERGÊNCIA” como mandara o patrão, na empolgação Marcolino escreveu em letras garrafais: “URGENTE”!  

– Que palavra eu mandei você escrever seu tabaréu? – Indagou o jovem prefeito (cercado de secretários e vereadores) espumando de raiva os cantos da boca!

- Urgente, ué!!!! Não foi isto não?

– Deixa de ser burro, procure o papel que eu lhe dei... – insistiu o prefeito quase enfartando! Nervoso diante da grande aglomeração de pessoas que começava a se formar, Marcolino abriu a caixinha de pintura todo trêmulo e entre uma lata ou outra de tinta mal tampada achou o papelzinho todo embolado...  - Ah, está aqui, oh...

– O que está escrito aí? – Perguntou aos berros o enfezado gestor!

– Emer... gên... cia! – Gaguejou o pintor. – Então, seu idiota, porque eu lhe mandei escrever um nome e você escreveu outro?

Eu não sei exatamente quem foi o inventor da palavra “desculpa”, porém, quem a inventou, com certeza sabia exatamente o que estava fazendo. Diante de uma situação vexatória daquelas um simples pedido de desculpa poderia vir a sanar o problema, porém, egocêntrico e teimoso, o jovem e agitado Marcolino achou de questionar:

- Emergência e urgente não é tudo a mesma coisa? Está certo também, ué! Eu não errei não! As duas coisas são iguais. – Bradou com relativa convicção!

 Vou te contar... Foram umas oito pessoas para conter o prefeito que queria porque queria dar uns cascudos no pintor, que ao ver o altíssimo grau de infezação do chefe, se aproveitou da situação para sair de fininho. Sei que depois a coisa foi contornada e o nome correto foi realmente pintado, só que o prestígio do pintor para com o gestor ficou mais arranhado que cara de gato brigão!

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Escritor e Poeta

CSales, Ba. Quadras de Setembro de 2021. Minguante de Outono.

Adaptado do livro AS PERIPÉCIAS DAS NOVAS CONQUISTAS SOB O INDIFERENTE OLHAR DE UM GATO VELHO! Lançado em 2018.

 

 




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