Fotografo: Reprodução
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Divulgacao

Deu Zebra!
 
Luiz Henrique Borges
 
Nada é mais empolgante e até excitante que a surpresa, desde que bem-vinda, não é mesmo? Já aquelas de mau gosto não costumam deixar boas lembranças. E por que o futebol é tão empolgante? Por que é o esporte mais popular em todo o mundo? Por que ele é arrebatador? Não tenho dúvida em afirmar que é o fator surpresa, que singelamente denominamos de Zebra.
Que sensação de volúpia sentimos, quando a nossa equipe, travestida de Davi derrota o poderoso adversário que encarna Golias. Como consequência da boa surpresa gostaríamos que ela durasse uma infinidade de tempo. É como uma bebida, que nos deixa inebriados sem necessariamente resultar nos efeitos da ressaca. Para os torcedores do caído Golias, resta o gosto amargo, indesejável da derrota e o desejo de que a próxima rodada, o próximo confronto, chegue o mais rápido possível e, em caso de vitória, que eles voltem a se regozijar com sua força restabelecida. 
Obviamente que tais sensações são inerentes aos esportes, especialmente aqueles que atraem muitos fãs. Então, o que faz com que no futebol seja tão diferente? Mais uma vez ela, sempre ela, a Zebra. Em outras modalidades, como o basquete, o vôlei, o handebol, apenas para citar alguns, os resultados inesperados ocorrem de forma muito mais discreta. Para os estudiosos dos esportes há uma explicação, as jogadas feitas com as mãos possuem um grau de exatidão muito superior àquelas que são feitas com os pés, logo a previsibilidade do resultado final se torna mais factível, especialmente quando duas equipes apresentam um desnível técnico mais acentuado. 
Você teria dúvida em afirmar quem venceria uma partida entre Brasil e Honduras no vôlei masculino? E no basquete, se você pudesse apostar seus parcos recursos, você os destinaria à Seleção dos Estados Unidos com seus jogadores da NBA ou à Seleção Brasileira? Nestes dois ingênuos exemplos, a muito improvável derrota do Golias não é um ato simplesmente heroico, é épico. Pensando na mitologia grega, uma vitória de tal magnitude faz com que o atleta, até então na galeria do herói, seja alçado a categoria de deus.
Já no futebol... 
Antes das partidas das oitavas de final do Campeonato Paulista assisti várias e várias mesas-redondas. Entre nós, são tantas que eu fico até tonto. Os jornalistas, como senhores do oráculo, faziam suas previsões. Muito equilíbrio no confronto entre Corinthians e Bragantino. Algum favoritismo de Santos e Palmeiras contra Ponte Preta e Santo André respectivamente e, finalmente, um largo favoritismo do São Paulo que enfrentaria o desfigurado Mirassol.
Espero, de todo coração, que os jornalistas nunca digam que meu time é amplamente favorito contra qualquer outro adversário, seja ele até mesmo o “Arranca Toco”, como fizeram no confronto entre São Paulo e Mirassol. Quando esses especialistas fazem essas previsões o personagem de Nelson Rodrigues, Sobrenatural de Almeida, teima em fazer suas peripécias.  
O que ocorre com o São Paulo? O que ocorre com seu treinador, Fernando Diniz? Em relação ao São Paulo, parece que os anos de boa gestão foram completamente esquecidos. O resultado é que o tricolor paulista enfrenta grave crise financeira e precisa, como muitos outros clubes brasileiros, vender os seus promissores atletas para saldar minimamente suas contas. Nós sabemos os resultados das más gestões, a queda do Cruzeiro para a Série B é o exemplo mais recente, mas a lista é longa.
Mas, o que me chama realmente atenção é o Fernando Diniz. O técnico tem ótimas ideias (é verdade que o inferno tá cheio de gente assim), prega um futebol ofensivo, criativo, na linguagem moderna, intenso. Mas, lembrando Cazuza: “Tuas ideias não correspondem aos fatos” e daí a indagação, o que te falta Diniz? Como não acompanho o dia-a-dia de treinamento do tricolor paulista não é possível falar com muita propriedade. Mas indagações, essas podemos sempre fazer.
O São Paulo, como as demais equipes que o Diniz treinou, costuma ter a posse de bola e finalizar muitas vezes em uma partida, mas costumeiramente os jogadores perdem gols incríveis. Confiança? Talvez. Mas, não estaria faltando treino de finalizações para os jogadores? Lembro de ouvir o Zico dizer que após o treino ele ficava mais meia-hora, uma hora, aprimorando faltas e finalizações. Mas hoje, há uma preocupação com o desgaste físico do atleta e esse refinamento nem sempre é realizado. E a defesa? É um verdadeiro “Deus nos acuda” quando o São Paulo perde a bola. Os adversários encontram muitos espaços para atacar. No tipo de futebol pregado por Diniz é fundamental, imediatamente ao perder a bola, pressionar por sua retomada, uma vez que a equipe joga com as linhas altas, caso contrário vai sofrer. Mas para isso é preciso contar com atletas dispostos e que se entreguem inteiramente na partida. Não vejo tal disposição em alguns que envergam tal camisa.
Depois da gigantesca Zebra e da não tão inesperada derrota do Santos, a normalidade voltou a se instaurar na terra dos bandeirantes. O Corinthians, que tanto sofreu ao longo da competição, passou pelo surpreendente Mirassol e fará a decisão com o Palmeiras de Luxemburgo. Favoritismo? Prefiro ficar com a folclórica frase atribuída ao ex-centroavante Jardel: “Clássico é Clássico e vice-versa”.