Fotografo: Arisson Marinho/CORREIO
...
Gravura de Santa Dulce foi levada por fiéis até a Colina Sagrada

No meio do caminho entre a Conceição da Praia e a Colina Sagrada tinha um santuário: o de Santa Dulce dos Pobres. Foi este ano, na primeira Lavagem do Bonfim após a canonização da freira baiana, que os milhares de fiéis dispostos a fazer a caminhada de oito quilômetros entre as duas basílicas receberam bênçãos em dose dupla.
 
Não foi só a imagem do Senhor do Bonfim, o dono da festa, que estampou camisas e alegorias carregadas no trajeto. A Santa Dulce dos Pobres, cujo santuário fica no meio do percurso entre os dois pontos da festa, estava nas mãos do povo, em santinhos, camisetas e até ‘debruçada’ no gradil da Basílica. 
 
A aposentada Ana Lúcia Rebouças, 68 anos, fez a caminhada acompanhada dos dois: o Senhor do Bonfim estampava a camisa, enquanto a Santa Dulce ia pendurada no pescoço. Frequentadora da festa desde que tinha três anos e ia no colo da tia, ela garante que não há tempo ruim para a fé, ainda mais para a fé em Dulce e no Bonfim.
 
Colada na corda do santo, que este ano fez o trajeto num carro alegórico, Lúcia ajudava a conduzir o ‘bloco’, puxando o cordão na dianteira. “É emoção pura!”, riu ela.
 
“Tenho muitas histórias com o Senhor do Bonfim. A minha tia me passou essa tradição de vir à festa e, coincidentemente, ela faleceu no dia da lavagem. Fico feliz que ela foi embora em boa companhia, toda linda vestida de branco, como merecia”, completou a aposentada.
 
Além dela, mais gente levou o Bonfim e Santa Dulce para a caminhada. Uns capricharam na fantasia; outros, estamparam a imagem no peito e até nas costas, como fez um grupo de participantes da Corrida Sagrada. “Foi a forma que encontramos de homenagear a única Santa brasileira e baiana”, disse  Antonio Pavão, 61, educador físico, ao lado de alunas.
 
Fitinhas
Um dos grandes símbolos da festa do Senhor do Bonfim também caiu nas graças dos fiéis da santa baiana. Em frente ao santuário, uma imagem da Santa Dulce dos Pobres era alvo de pedidos, agradecimentos, orações, fotos. Ao final do cortejo, a imagem tinha um dos braços cobertos de fitinhas coloridas do Senhor do Bonfim.
 
“Ao passar aqui, de qualquer maneira, tenho que vir aqui fazer a minha homenagem. Eu tenho certeza que ela nos dá esperança de dias melhores”, disse a  professora Jussara Gomes, 60.
 
Era a fé compartilhada, inclusive por quem, no meio do caminho até a Colina, parava para fazer mais uma oração. Foi o caso da ajudante de cozinha Tânia Rodrigues de Souza, 54, cuja determinação centralizava os olhares.
 
Descalça sobre o asfalto quente, ela foi assim até o fim para cumprir uma promessa feita quando a filha engravidou. “A minha menina tem catarata e eu tinha medo que meu neto nascesse cego. Eu pedi ao Senhor do Bonfim que se ele visse saudável, faria esse percurso assim”, contou.
 
Na passagem em frente às Obras Sociais Irmã Dulce, a cozinheira rezou o Pai Nosso evocado pelo padre e caiu em prantos de emoção ao chegar à Colina Sagrada. No alto da igreja estava estendido um estandarte de Santa Dulce - a santa soteropolitana aos pés do Senhor do Bonfim.