Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Não sei se é um presságio ou mera coincidência, mas o calor que faz no Centro-Oeste brasileiro neste momento, com temperaturas até cinco graus acima da média, deve ser uma forma de preparação para enfrentar o clima escaldante do Catar. E por falar neste país da Península Arábica, em mais uma demonstração de insensibilidade com torcedores, jogadores, comissões técnicas, iniciou-se, na última quinta-feira, as Eliminatórias Sul-Americanas.
Vivemos, como é sabido de todos, a pandemia, mas muitos por aqui fingem, ou acreditam em discursos que se distanciam da ciência e que nada de mal acontecerá. Só um adendo, acho curioso que um dos maiores defensores da hidroxicloroquina, o presidente norte-americano, não a utilizou em seu tratamento, ou seja, “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. A Conmebol, a CBF e alguns clubes brasileiros cantam essa mesma canção. Vamos manter as competições e até mesmo, quem sabe, reabrir os estádios para os torcedores. As experiências vivenciadas por algumas equipes na Libertadores da América não serviram de ensinamento.
Não seria melhor alterar o calendário e até mesmo realizar a disputa em outro formato em caráter excepcional? Mantendo o atual modelo, ela não poderia começar no início de 2021, quando provavelmente já teremos a vacina e se estender por mais dois ou três meses do que o previsto? Lembro que a Copa do Mundo de 2022 não será disputada em meados do ano, como tradicionalmente ocorre, mas por questões climáticas, a competição iniciará apenas no final de novembro. Vale ressaltar que a Conmebol, contando com o apoio da CBF, preferiu não acatar o conselho da FIFA para iniciar a competição em março do próximo ano.
Na impossibilidade de contar com os atletas para uma preparação mais demorada para a Copa do Mundo, não seria mais proveitoso que as seleções estivessem terminando as eliminatórias três ou quatro meses antes da competição, ou seja, em junho ou no mais tardar início de julho? Em relação ao espetáculo, acredito que se as seleções classificadas estivessem competindo em datas mais próximas ao Mundial, elas acrescentariam qualidade aos jogos uma vez que contaríamos com equipes mais entrosadas e em ritmo de competição.
Não concordo, de forma alguma, com a continuação das rodadas do Campeonato Brasileiro durante os jogos das Eliminatórias. O Brasil atualmente é um mercado promissor para jogadores sul-americanos e as equipes que buscam melhorar seus plantéis com esses jogadores, além de não contarem com os atletas brasileiros convocados, também são privadas de alguns dos seus estrangeiros. 
Contudo, o mais grave ao meu ver é a impossibilidade dos torcedores de assistirem os jogos nos estádios. Nos últimos anos, o brasileiro se viu crescentemente privado de ver, torcer, aplaudir e vaiar a Seleção Brasileira, uma vez que ela se apresenta muito mais em outros territórios que em terras tupiniquins. Depois ouço queixas de que a identificação dos torcedores com a Seleção Brasileira está em declínio. Ora, a paixão, por maior que seja, precisa ser cotidianamente alimentada e regada. No futebol o sentimento de pertencimento e identidade, motor da paixão, passa inevitavelmente pela proximidade com a equipe. 
Atualmente, das poucas oportunidades de refazer a ligação entre os torcedores e a Seleção eram as Eliminatórias, mas, ao menos neste ano, isso não ocorrerá, os estádios estarão vazios. No momento em que essa união se torna rarefeita, é óbvio que os atletas se sentem não só menos motivados, mas também menos responsáveis por defender com brio, garra e técnica os milhões de torcedores. Menor identificação, menor será também o peso de um eventual fracasso e por isso os atletas podem, ao serem derrotados em uma Copa do Mundo, na mesma noite, serem vistos em boates divertindo-se enquanto os torcedores sofrem.
Os bolivianos nunca foram páreos para a Seleção Brasileira, a não ser quando jogam com o auxílio da altitude de La Paz. Desta feita, no entanto, o nível de preparação das duas seleções é bastante díspar. Os bolivianos já estão treinando a mais de quarenta dias e nós só contamos com todos os jogadores convocados faltando 4 dias para o jogo. Apesar do pouco tempo de treinamento assistimos um inapelável 5X0 o que reverbera a máxima do craque e bicampeão mundial, Didi: “treino é treino e jogo é jogo”. A diferença técnica entre as duas seleções é gigantesca.
Na próxima semana enfrentaremos a Seleção Peruana, em Lima. A partida deve ser um termômetro mais apropriado para sabermos o que esperar dessas Eliminatórias. Acredito ainda que a ausência dos torcedores, desta feita, seja mais positiva para o Brasil, me faço mais claro adiante. Não posso falar o mesmo para os argentinos, que terão que “subir o morro” e enfrentar a altitude de La Paz. 
A ausência dos torcedores trará mais equilíbrio e dificuldade ao longo da competição? Não sei o que responder. Todos perderão, em alguma medida, o fator “campo”, jogar ao lado de sua torcida costuma ser motivador. Em compensação, talvez, seleções mais técnicas, como a brasileira, possam se favorecer, se em casa não contarão com o auxílio de seus torcedores, fora de casa sofrerão menos pressão. De qualquer forma não acho que será uma competição fácil para o Brasil. Dentre os muitos fatores que já se enumeram corriqueiramente na imprensa, gostaria de ressaltar mais um, a presença de muitos atletas sul-americanos atuando no país permitirão com que eles estejam mais aclimatados com os estádios e com o estilo de jogo que é praticado pelo pentacampeão. Porém, com ou sem sofrimento, quero a classificação e ela é, sem dúvida alguma, uma obrigação e tenho dito!