Fotografo: HermesdePaula/Agência O Globo
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Vendedores ambulantes estão entre os que poderão receber auxílio de R$ 600

 A falta de conhecimento do universo dos trabalhadores informais que estão fora dos cadastros do governo e a necessidade de criar uma estrutura de distribuição inédita para esse público é o principal entrave para acelerar o pagamento do auxílio de R$ 600 para à camada mais desassistida da população, relatam técnicos que estão debruçados sobre o problema.
 
Além disso, as regras impostas no projeto aprovado pelo Congresso, e que o presidente Jair Bolsonaro informou que sancionará ainda nesta quarta-feira, criam dificuldades, como a limitação do pagamento do auxílio a isentos da declaração do Imposto de Renda em 2018 e a obrigação de que até dois membros de uma mesma família possam receber o benefício.
 
Tais regras vão exigir trabalho adicional dos gestores públicos. Será preciso rever a renda de 2018 dos potenciais beneficiários e de suas famílias, excluir quem recebe benefício previdenciário e assistencial e todos os trabalhadores por conta própria que  não se enquadram no critério de renda para receber o auxílio:  de meio salário mínimo por pessoa ou renda familiar total de até três salários mínimos.
 
Ainda será preciso definir, por exemplo, como se caracterizará para efeito dessa lei um grupo familiar: pais e filhos apenas ou inclui também avós, netos, tios ou sobrinhos que coabitam um mesmo imóvel. 
 
Nesta quarta-feira, o Senado deve votar o projeto que amplia o número de categorias que vão receber auxílio de R$ 600. Catadores de lixo, taxistas, motoristas de aplicativos e artistas estão entre os que devem ser incluídos no 'pacotão social'.
 
Segundo os técnicos,  o sistema do governo só consegue atender com rapidez os beneficiários do Bolsa Família, que já estão amparados,  porque eles têm cartão e conta em banco. Esse grupo corresponde a cerca da metade do total de 28 milhões de  inscritos no Cadastro Único (CadÚnico), do Ministério da Cidadania.
 
Os dados restantes, que incluem nove milhões que se declararam autônomos, 1,7 milhão de microempreendedores individuais (MEI), trabalhadores com carteira assinada, informais, aposentados e pensionistas do INSS, além de idosos e deficientes da baixa,  não estão depurados. Além disso, há um universo de informais que não aparecem no cadastro.
 
Segundo a fonte, se nada for feito, o governo não vai conseguir pagar o auxílio para os mais necessitados em menos de um mês. Ela acrescenta que será preciso localizar essas pessoas e abrir uma conta para fazer o pagamento.
 
O projeto permite ao governo abrir conta sem autorização para essas pessoas. Mas os técnicos advertem que essa situação pode dar margem a fraudes.  Os dados pessoais e a senha podem ser capturados por terceiros que não têm direito de receber o benefício. 
 
Em entrevistas dadas na terça-feira, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, admitiu que um dos principais problemas é a falta de tecnologia. Onyx afirmou inclusive que a ajuda só começará a ser distribuída a partir de 16 de abril. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, criticou o prazo estipulado por Onyx para o pagamento de auxílio de R$ 600 aos informais.
 
Para localizar os informais o governo anunciou que vai  desenvolver uma plataforma digital — um site —  pelo qual as pessoas que estão fora dos cadastros possam fazer a declaração de renda individual e de todos os membros da família. Mas esses dados também precisam passar por cruzamentos.
 
Eventuais aplicativos de celular que forem elaborados pelos bancos para facilitar o pagamento precisam ter conexão com esse site, explicou a fonte. 
 
O GLOBO procurou a pasta diversas vezes para detalhar as dificuldades e o que está sendo feito para acelerar o processo, mas não obteve retorno.