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Vitória Da Conquista(BA), Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2021 - 17:59
16/01/2021 as 14:32 | Por Luiz Henrique Borges | 1140
Final paulista em terras cariocas
Artigo Esportivo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Após 14 anos, teremos uma nova final brasileira, nesse caso paulista, na Copa Libertadores da América. O mais importante campeonato de clubes da América do Sul começou a ser disputado em 1960, com sete equipes participantes e o Bahia representou o Brasil por ter vencido a Taça Brasil de 1959 contra o Santos de Pelé. A partir daí a competição que se chamava Copa dos Campeões da América ganhou importância, número crescente de clubes e em 1965 passou a ter a denominação atual.

Esta será a quarta final com clubes do mesmo país, sendo a terceira com times brasileiros. Uma decisão paulista entre Santos e Palmeiras no Maracanã.

O professor Fábio Santa Cruz, em livro que escreveu sobre o desenvolvimento do futebol no Centro-Oeste, analisou com muita propriedade como o processo de profissionalização implicou, entre outras relações, no predomínio dos recursos financeiros, ou seja, do dinheiro, para o fortalecimento dos clubes e a conquista de títulos. Como bem ressaltou o professor, essa é uma tendência, mas não uma lei universal, em outras palavras, não necessariamente os clubes com investimentos maiores ganham os títulos.

No entanto, se analisarmos os maiores campeonatos, independente do formato, verificamos que as equipes mais bem estruturadas, com mais recursos, costumam ter mais êxito, o que confirma a hipótese ressaltada pelo professor. No sistema de pontos corridos, como o Campeonato Brasileiro, isso se torna muito claro, mas também em partidas eliminatórias verificamos tal tendência. Por exemplo, nas últimas quatro Libertadores o predomínio foi argentino e brasileiro, duas finais entre argentinos e brasileiros, uma final argentina e uma final brasileira. Ora, as equipes dos dois países são as mais bem estruturadas e com os investimentos mais significativos.

As semifinais, que terminaram no dia 13/01, colocaram representantes dos dois grandes rivais sul-americanos frente a frente. O Palmeiras enfrentou o River Plate e o Santos o Boca Juniors. O Palmeiras conseguiu uma vitória espetacular na Argentina, derrotou o River por 3X0 e parecia ter encaminhado sem maiores traumas sua classificação para a grande final. No entanto, o jogo em São Paulo foi de grande dramaticidade. Os argentinos, treinados há seis temporadas por Marcelo Gallardo, talvez o melhor treinador hoje do continente, conseguiu desfazer o nó tático que se viu envolvido em Buenos Aires e por muito pouco não devolveu o resultado com juros e correção monetária.

O Palmeiras não viu a “cor da bola” e acredito que isso ocorreu, paradoxalmente, em virtude da vantagem construída no jogo em Buenos Aires. O placar elástico acabou criando uma pressão adicional para a jovem equipe do Palestra Itália e fez com que o medo de perder fosse maior que a esperança de ganhar. Para o River Plate o efeito foi inverso. Gallardo certamente utilizou o placar adverso para motivar os seus atletas. A desclassificação já era dada como favas contadas, por isso a esperança de ganhar, aliada à técnica e à disposição argentina superou em muito o medo de perder. O resultado foi o sofrimento gigantesco das duas torcidas. Os brasileiros, percebendo a incapacidade de reação de sua equipe, desejou ardentemente o final da peleja e os argentinos, acreditando no milagre, no terceiro e redentor gol. Enfim, ainda que amarelado, o sorriso foi palmeirense.

O Santos, por sua vez, é algo inexplicável. Adora desafiar as previsões. É amante da surpresa. É corriqueiro iniciar a temporada desacreditado e, ao longo do ano, escrever uma outra história. Enfrentando graves problemas financeiros, a FIFA chegou a proibir o clube de contratar novos atletas por conta do não pagamento de algumas dívidas. Politicamente, a confusão foi avassaladora e terminou com os sócios do clubes aprovando o impeachment do presidente.

Não há dúvida, o sucesso do Santos se encontra intimamente vinculado à sua inesgotável capacidade de lançar novos e promissores atletas. No entanto, esse ano, além de contar com atuações inesquecíveis do irreverente Marinho, a equipe da baixada santista encontrou em Cuca não apenas um treinador, mas um gestor sem paralelo no futebol atual. O bom treinador é aquele que entende de jogadores, Cuca foi muito mais. Além dos aspectos técnicos e táticos, que sempre foi do seu domínio, ele impediu que a crise política adentrasse o campo, motivou os atletas, superou problemas financeiros, enfim, dirigiu o clube com maestria.

Enfrentar o Boca Juniors na Libertadores sempre foi para mim a certeza de “pegar o boné” e retornar para casa. A partir de meados da década de 1970 a equipe parece talhada para a competição. Conquistou os seus seis títulos, o que lhe faz a segunda equipe com maior número de conquistas, perdendo apenas para o também argentino Independiente, com sete. Até na última quarta-feira, nas vinte últimas disputas eliminatórias com clubes brasileiros foi desclassificado ou perdeu a final apenas em três oportunidades.

Em Buenos Aires, o Santos realizou uma partida segura e poderia ter alcançado até um resultado melhor que o 0X0. Por sinal, placar perigoso. Com o critério do gol fora de casa ou qualificado, qualquer empate com gols classifica o visitante. Na Vila Belmiro, o Santos não tomou conhecimento do Boca, atropelou impiedosamente a equipe argentina. 

Quis o destino que a final da Libertadores de 2020 seja disputada no Maracanã. Uma final paulista em território carioca. É preciso lembrar que, apesar do estádio ser no Rio de Janeiro, o Santos de Pelé tinha no Maracanã a sua segunda casa. Foi lá que disputou e venceu a primeira partida da final da Libertadores de 1963 contra o Boca Juniors e foi lá também que o Rei fez seu milésimo gol.

Apesar de não gostar de ficar “em cima do muro”, já era difícil fazer previsões quando as disputas eram de ida e volta, imagine agora em partida única. Acredito em uma final equilibrada. Lamento somente a ausência das torcidas em virtude da pandemia, pois o espetáculo seria ainda mais inesquecível. Que vença o melhor, o título já é brasileiro!

 

 




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