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Flamengo X Globo
 
Por: Luiz Henrique Borges
 
Na quarta-feira, dia 2 de julho, o Flamengo enfrentou o Boavista pelo Campeonato Carioca e no domingo (5/7) carimbou a passagem para a final do turno contra o Fluminense ao derrotar o Volta Redonda. As partidas, como esperado, foram treinos de luxo para os rubro-negros. Em ambas, vitória por 2X0 e a sensação de que os placares não expressaram fielmente a superioridade da equipe da Gávea. 
Não vamos discutir os aspectos táticos, técnicos ou a superioridade abissal do Flamengo em relação aos demais clubes do Rio de Janeiro, um desnível que só faz a alegria do torcedor flamenguista, mas retira a competitividade e a atratividade da disputa. A culpa é do Flamengo? De forma alguma, a equipe, ao que parece, faz gestão profissional, conseguiu equacionar suas dívidas e gerar recursos para investir pesadamente na montagem de um grande elenco. Os outros grandes do Rio patinam há anos em seu dever de casa.
Desde o início do Carioca há enfrentamento entre o Flamengo e a Rede Globo. Os dirigentes flamenguistas não aceitaram o valor de R$ 18 milhões oferecidos pela emissora de TV e não assinaram o contrato para a transmissão de seus jogos.
Neste ínterim, a Presidência da República editou a Medida Provisória 984/2020, alterando as regras para as transmissões das partidas. Sinteticamente, antes, as emissoras só transmitiam as partidas se tivessem a anuência de mandante e visitante, ou seja, na prática elas compravam de ambos os direitos de transmissão. Com a MP editada em junho, não há mais a necessidade da concordância do visitante, os clubes poderão vender seus jogos enquanto mandante livremente.
Sem ingenuidade, a MP 984 é, por um lado, mais um capítulo da novela que narra a disputa entre o governo Bolsonaro e o seu arqui-inimigo, a Rede Globo. Por outro lado, a concorrência costuma beneficiar os consumidores, uma vez que os monopólios impõem seus preços, seus horários e o jogo que teremos que assistir, seja no canal aberto ou fechado, a menos que desembolsemos nossos parcos Reais pelo Pay-per-view.
O Flamengo amparado pela citada MP transmitiu as duas partidas pelo seu canal de YouTube, o FlaTV. A primeira transmissão foi disponibilizada gratuitamente na rede social. A resposta não tardou, no dia seguinte, 3 de julho, a Globo rescindiu o contrato de transmissão do Campeonato Carioca, embora tenha garantido que manteria todos os compromissos firmados. 
Considero a ação do Flamengo uma nova possibilidade que se abre para clubes e torcedores, contudo, é preciso saber se os impactos, especialmente a longo prazo, foram estudados. Nesse sentido, precisamos, inicialmente separar os torcedores-simpatizantes dos torcedores-consumidores. Ou seja, o primeiro torce para o seu time, mas não é um consumidor dos produtos e serviços por ele ofertados. Já o segundo, como o nome já indica, adquire toda uma gama de produtos e serviços disponibilizados pelo seu time do coração, ele auxilia nas receitas dos clubes. As pesquisas demonstram que o Flamengo possui em torno de 40 milhões torcedores, mas quantos são, realmente, torcedores-consumidores? A mesma pergunta vale para qualquer outro clube. 
O Flamengo possui estrutura para ter a Fla TV, mas os demais, sobretudo os pequenos, terão recursos financeiros e técnicos para fazer o mesmo? Se não tiverem como seus jogos serão transmitidos e o que isso impactará em suas receitas? 
Quantas pessoas efetivamente possuem acesso à internet rápida, para além do celular? Quantas assistirão as transmissões? É possível prescindir da TV aberta ou teremos um sistema misto? Os empresários que patrocinam os eventos não caem mais na conversa dos números absolutos, eles querem saber qual é o público consumidor efetivamente atingido.  Tais pontos impactam em toda a rede de marketing que envolve o espetáculo, das placas publicitárias no gramado até os patrocinadores que colocam suas marcas nas camisas. Para eles, o importante é saber o número de pessoas que terão contato com as suas marcas.
O Flamengo anunciou ainda que cobraria R$ 10,00 daquele que desejasse assistir a partida pela internet. Tal cobrança não reduzirá das classes menos abastadas um dos seus poucos espaços entretenimento? Não podemos esquecer que uma equipe joga várias vezes ao mês. Se ela jogar dez vezes isso implicará em um custo para o torcedor de R$ 100,00. Quem pode dispor de tal quantia? Isso, sem levar em conta a importância da partida, deixando mais claro, será que o valor cobrado será o mesmo se o jogo for uma final? Nos estádios sabemos que o ingresso para um jogo de menor importância é mais barato que os jogos decisivos. Lei da oferta e demanda.
Enfim, há muitos pontos que precisam ser discutidos e esclarecidos, no entanto, entendo que, por um lado, os torcedores não podem ser onerados ou perderem um espaço de lazer, por outro, é preciso que a solução encontrada seja capaz de gerar recursos significativos para os clubes e, principalmente, que eles sejam distribuídos de forma equilibrada, garantido não só a solvência das instituições, mas sua capacidade de realizar investimentos, uma vez que os campeonatos são mais atrativos quando há efetiva disputa entre os participantes.