Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Associadas ao Brasil estão algumas marcas: carnaval, café, futebol e, mais recentemente, Amazônia. O país é muito mais que isso, mas essas bandeiras são o abre-alas do nosso bloco no desfile da passarela do “quem sou eu” internacional. E é nosso dever cuidarmos delas com inteligência, o que não vem ocorrendo com regularidade.
Vejamos o café. Maior produtor, exportamos acima de 44 milhões de sacas in natura e o recebemos de volta em coloridas cápsulas medidas em gramas, que usamos para preparar um cafezinho de qualidade, bem caro, em máquinas também importadas. Produtos de alta qualidade, café e máquina. Nem sequer podemos louvar a desenvolvida tecnologia dos alienígenas, nada que não pudesse ter sido criado aqui. O diferencial está em organização, marketing, capacidade gerencial, administrativa e criatividade, coisas que se aprendem na escola.
Futebol. No mundo, a mídia nos informa sobre valores financeiros praticados que nos fazem pensar de onde surgem tantas riquezas: Craques trocam de camisa por muitos milhões de dólares e os contratos valem outro tanto para ganhos anuais. Por aqui, “terra do melhor futebol do mundo”, pelo menos o único penta, temos os nossos clubes endividados até a raiz dos cabelos, não podendo manter em suas equipes os jovens talentosos, que logo que despontam são vendidos, para que os clubes façam caixa. E lá se vai o nosso futebol para as praças dos recursos infinitos.
“A economia do Brasil não é comparável a dos países europeus e asiáticos”, argumenta-se. “Até a China está investindo em futebol”. Se por lá a grana rola, por aqui, ouvimos sempre que os clubes estão no vermelho, débitos fiscais estão sendo renegociados, com liberações de multas e redução de juros, são os Profut e similares. Os grandes clubes se beneficiam da popularidade e a transformam em prestígio político para negociarem parcelamentos sobre parcelamentos. Esses são indicativos de que há algo errado com o modelo administrativo do futebol brasileiro.
O que se propõe é transformar clubes, hoje associações sem fins lucrativos, em empresas, como em boa parte do mundo. Projetos tramitam no Congresso Nacional e, pelo que apurei, nenhum provem do setor futebolístico. Seremos também nessa área destinados a exportar matéria prima – os nossos potenciais craques – cada vez mais jovens, como receita financeira para os clubes?                                
Hoje não há lugar para amadorismo em atividades que sejam de alto retorno econômico. O futebol deve ser visto, do mesmo modo que nos grandes centros futebolísticos, como importante negócio que movimenta anualmente centenas de bilhões de dólares. Aqui, segundo o próprio setor, sua participação é de 0,7% do PIB. A conferir.
Há forte resistência das estruturas de poder dos clubes e de suas associações, inclusive a CBF, contra a modernização que o legislativo está propondo. Apesar delas não serem impositivas, isto é, só passarão a empresas os clubes que assim o desejarem. Diz-se que empresas não têm as isenções fiscais que o modelo atual aufere, isso corresponde ao raciocínio do indivíduo que prefere não trabalhar, para não ganhar nada e não ter que pagar imposto de renda. O Projeto de Lei número 5082/2016 levou o Presidente da Câmara a visitar clubes e a CBF. O circulo está apertando, agora começou a choradeira argumentando que o projeto deveria ter sido de iniciativa dos clubes; de que futebol não dá retorno para ser tratado como empresa. E que não haverá interesse do capital nacional e internacional em investir em futebol. Duvidam que haja investimento privado em clubes, inclusive no exterior. Dizem até, a boca pequena, que o Emir do Catar comprou e investe muita grana no Paris Saint-Germain por adorar futebol, inclusive suportando os chiliques do Neymar. Ora, façam-me o favor!
Apequenam os clubes das cidades do interior, afirmando que nunca se transformariam em empresas, o que parece ser raciocínio equivocado. Cidadãos e empreendedores locais ao se tornarem proprietários do clube-empresa de sua cidade o adotarão com o sentimento de algo que lhes pertence e sobre o qual podem atuar nos conselhos e na administração. Oxigênio, vida renovada!
A verdade mesmo é que em empresas não haverá lugar para os cartolas e seus feudos.  
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Out. 2019