Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Anúncio de página dupla em jornal de grande circulação de âmbito nacional divulga empresa que produz hambúrguer vegetal com sabor de carne, sem tirar nem pôr. Se me coubesse dar o nome a tal produto, eu não hesitaria: “Hambúrguer me engana que eu gosto”. Segundo fui informado, o produto tem grande aceitação no mercado e a empresa que o produz atrai investidores que veem na atividade oportunidade de lucros.
Parece ser contraditório e pouco eficaz que alguém que se proponha a eliminar de sua dieta a carne bovina ou carne de qualquer tipo, fique procurando meios de reproduzir o sabor da picanha ou de um mal passado bife alto de filé mignon. A proposta honesta é tirar de vez da sua memória gustativa e olfativa tudo que possa parecer com uma coxa de frango envolta numa tira de bacon estalando na churrasqueira ou com uma costelinha suína assada na brasa.
Entendo que encarar as opções feitas e segui-las, sem tergiversar, é questão de coerência, de carácter, de honestidade pessoal. Ninguém pode ser isso ou aquilo ao mesmo tempo. Se sou vegetariano, vegano ou qualquer outra opção de alimentação que aboliu a ingestão de carne, devo segui-la e dar adeus ao que decidi abandonar, sem saudosismos. Nada de ficar fraudando a mim mesmo. A mais cretina das desonestidades é a que cometemos contra nós próprios, contra as nossas crenças e valores. E isso vale para tudo na vida.
Por vezes, temos que descobrir onde, de fato, nosso coração está. Agora me peguei em contradição! Mesmo sendo ardoroso torcedor do Vasco há mais de 70 anos, na decisão da Libertadores, torci e chorei com a inesquecível vitória do Flamengo sobre o River Plate. E a coerência, onde ficou? – Está em que sendo brasileiro, como o é o Flamengo, e sendo o River argentino, a escolha foi óbvia. Torci pelo Brasil.
Não creio que se nos servirem um desses hambúrgueres o comamos como se fosse carne de verdade. Só acredita na semelhança quem está predisposto a fazê-lo. As conveniências de diversas naturezas falam mais alto: saúde, preço e até para ser agradável ao ofertante. Carne é carne, peixe é peixe, soja é soja, agrião é agrião. Transformar chumbo em ouro foi durante séculos objetivo dos alquimistas. Não deu certo.
No prato do dia a dia, nos oferecem o hambúrguer da felicidade, composto de misturas “de vote em mim”, “acredite na minha crença”, e “tudo será diferente”. Sinta o sabor de carne e o cheiro desse hambúrguer, não é de carne, mas parece. Apure o paladar! Fique esperto! Veja se quem está oferecendo se diz, por exemplo, progressista, ligado aos pobres e desassistidos e vive em New York, Miami, Paris e Londres, ao invés de estar nas sofridas Caracas, Havana, Pyongyang, ou se as fotos que as redes sociais dele flagram não o estão mostrando num Bistrô no Leblon, ou em torno de um bom jantar em Lyon, no tradicional e centenário La Coupole, degustando um Chateau Petrus Pomerol de 4 mil dólares a garrafa, que, quando inquirido, ele disse que foi o Cabral quem pagou.
Veja se seus amigos são banqueiros. Se o famoso Emilio, o da construtora, disse que ele era o seu amigão do peito. Não coma capim por filé mignon. Nas campanhas eleitorais, veja quem lhe disponibiliza os jatos executivos. “Diga-me com quem andas e te direi quem és”, os antigos já sabiam disso antes de provar o hambúrguer do engodo.
Tenho amigo político por profissão, ateu por crença e ideologia, que desde a última eleição perdeu meu voto quando soube da sua presença em templo religioso, cumprindo liturgia para cabular votos daqueles fiéis. Hóstia consagrada não é hambúrguer vegetal.
Se você não é mais carnívoro, esqueça, neste Natal, o leitãozinho à pururuca e curta um bom prato de grão de bico cozido com alface bem temperada.
Não me engane, que eu não gosto.
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Dez.2019