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Vitória Da Conquista(BA), Sexta-Feira, 27 de Novembro de 2020 - 16:51
21/11/2020 as 12:36 | Por Luiz Henrique Borges | 817
Identidade em Fragmentação
Identidade em Fragmentação
Fotografo: Reprodução
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Identidade em Fragmentação
 
Luiz Henrique Borges
 
A Seleção Brasileira caminha firme rumo à Copa de 2022. Com 4 vitórias, mantendo 100% de aproveitamento, o Brasil lidera as Eliminatórias Sul-Americanas. A partida contra a Venezuela foi muito mais difícil que o esperado. O oponente montou um ferrolho e os comandos de Tite, que não atuaram bem, tiveram muita dificuldade para romper a barreira imposta pelos venezuelanos. Vitória magra, mas 3 pontos garantidos.
Na Terça-feira iniciamos os confrontos mais duros e, mesmo sem brilhantismo, derrotamos os uruguaios em Montevidéu. Gostaria de falar das partidas, mas me pareceu mias importante discutir os novos rumos do televisionamento dos jogos do Brasil.
O futebol, dentre muitas funções, é negócio. No entanto, é divertimento, entretenimento, paixão e identidade. A identidade é um sentimento de pertencimento que nos faz tomar parte em um coletivo. Em nossas vidas formatamos diversas identidades, as familiares, as escolares, as relacionados ao ambiente de trabalho, ao gênero, entre outras. No Brasil, assim como na Argentina e no Uruguai, o futebol tece teias identitárias muito firmes em dois sentidos: o clubístico e o relacionado à seleção nacional.
Na Argentina, por exemplo, a identidade com os clubes era até mais forte do que com a sua seleção. Isso fica claro quando se estuda a preparação menos cuidadosa dos argentinos para as Copas do Mundo até 1978. Escolhida ainda em 1966 para sediar o citado Mundial, eles começaram a preparação ao final da Copa da Alemanha, em 1974. Neste momento ficou claro a preferência pela Seleção em relação aos clubes.
No Brasil, ao contrário, a identidade foi construída de forma mais concomitante. Enquanto os clubes criavam identidades estaduais que se amplificavam por intermédio dos amistosos e do auxílio do rádio e posteriormente da televisão, a Seleção Brasileira as unificava e nos unia em torno de um símbolo que a partir de 1958 tornou-se extremamente vitorioso.
Nas últimas duas décadas assistimos o declínio da relação entre torcedores e Seleção Brasileira. Os fracassos nos últimos quatro mundiais poderiam ser a causa? Não acredito. A ideia do Brasil como país do futebol foi criada ainda em 1938, Copa da França, e o Brasil não passava, até aquele momento da terceira força na América do Sul, muito atrás de Uruguai e Argentina. O nosso primeiro título mundial ainda levou duas décadas para ser conquistado e, finalmente, já passamos um longo jejum entre 1970-1994 sem que o interesse em relação à Seleção declinasse significativamente.
Atribuo o atual desinteresse pela Seleção Brasileira ao processo de mercantilização pelo qual o futebol foi tomado. Há aproximadamente duas décadas os nossos dirigentes e patrocinadores, mais preocupados com os cofres das instituições que dirigem e, como é do conhecimento de todos, com os seus próprios bolsos uma vez que a corrupção grassou também neste cenário, demonstrando que é um mal que supera as cores ideológicas, resolveram afastar a Seleção dos brasileiros ao realizarem os amistosos em outros países por polpudas cotas. Lembro de um ditado popular, “o que os olhos não veem o coração não sente”, nesse caso, o que os olhos não veem resultam na desintegração gradual de nossa identidade.
Esse mesmo processo afasta nossos jovens talentos cada vez mais cedo do futebol brasileiro. É cada vez mais comum nas convocações encontrarmos nomes até então desconhecidos. Quem conhecia, por exemplo, Douglas Luiz, antes de ser chamado por Tite? Tal distanciamento também enfraquece o processo identitário, mais uma vez vale o ditado acima.
Finalmente, a busca pelo “vil metal” fez com que, pela primeira vez em meus cinquenta e dois anos de vida, eu pagasse para assistir um jogo da Seleção Brasileira nas Eliminatórias e só o fiz em virtude das crônicas que escrevo semanalmente. Uruguai e Brasil não foi transmitido pelos canais abertos. Os brasileiros, em sua maioria, são pobres, em virtude da acentuada desigualdade na distribuição de renda. Quem pode pagar os quase R$ 20,00 cobrados por um canal de pay-per-view para assistir o clássico sul-americano? Muitos brasileiros que tinham nesses jogos um momento de entretenimento e de reforço em sua identidade estão alijados dessa possibilidade. 
Não tenho dúvida que, ao permanecer tal realidade, será cada vez menor nossa identificação com a “amarelinha”. Não me surpreende que, em número crescente, vemos nossas crianças envergando camisas de clubes e até de seleções estrangeiras. A sangria dos nossos talentos e o acesso mais fácil aos campeonatos europeus, acrescido agora das novas dificuldades impostas para assistir o Brasil, resultam em tal afastamento.
O discurso patriótico de nossos atuais governantes é em grande parte retórico, uma vez que um dos elementos pátrios mais importantes e significativos, que é a Seleção Brasileira, está nos sendo tirada. Sei que os liberais e os não amantes do futebol irão dar pulos de ódio quando afirmo que cabe ao Estado garantir o acesso dos brasileiros à Seleção. Dentre as finalidades da existência do Estado está a de gerar bem-estar para a população e as atividades culturais e esportivas integram este escopo. Isso não significa que deva comprar os direitos de transmissão, mas que atue de forma firme garantindo o acesso de todos os brasileiros aos jogos. Nem sempre o liberalismo e a livre concorrência beneficiam o consumidor: o fim do monopólio da Rede Globo significou, ao final, não o barateamento e o maior acesso ao produto, mas o resultado foi o oposto. Da mesma forma que as tradições são inventadas, como nos lembra o historiador Hobsbawm, elas também se fragmentam e desaparecem.
A Seleção Brasileira é motivo de orgulho e de entretenimento para milhões e milhões de brasileiros, sobretudo para aqueles que não possuem recursos financeiros, que se encontram distantes dos meios culturais ou esportivos e não podem pagar os valores cobrados por um jogo do Brasil. “Pão e Circo” não é apenas um processo de alienação, mas é também produção de bem-estar e de acolhimento.
 
 
 




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