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Vitória Da Conquista(BA), Sexta-Feira, 21 de Janeiro de 2022 - 16:34
20/11/2021 as 11:48 | Por Luiz Carlos Figueiredo |
JOCA, O JIPE E O PANGARÉ.
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Joca chegou à Nova Conquista bem “pequerrucho”. Com uns cinco a seis anos de idade já era obrigado a tanger pelas ruas da recém-emancipada cidade os bodes e carneiros que a sua família engordava para serem vendidos nos açougues que existiam na hoje, Avenida Rio Branco. O seu velho pai (juntamente com toda a família) veio dar por aqui fugindo da seca que assolava o norte/nordeste nos anos 1960. Chegou, olhou, gostou e edificou residência.

Seu Sebastião era um velho nordestino daqueles que conduzia a família com mão de ferro, Joca, apesar de miudinho, descobriu desde muito cedo a necessidade de contribuir com as despesas da casa. Era muito comum ver o garoto tangendo o rebanho de bodes e carneiros com uma varinha de marmelo.  

Com uns 8 a 9 anos, Joca já promovia shows em um pequeno circo improvisado com madeira e sacos de estopa, reunia a molecada da rua e os travestia de mágicos, malabaristas, bailarinas, contorcionistas e palhaços – todos da sua idade. Já conseguiam levantar uma graninha pra defender o lanche.

Com 10 anos de idade, ao lado do poeta Billy Roger já criava a segunda banda musical da cidade (a primeira era a Sérgio Som) onde uma meia dúzia de latas vazias de leite ninho já fazia às vezes de uma potente bateria, tocada com zelo pelo garoto. O tempo passou e o menino Joca virou um dos grandes cidadãos na recém-fundada Nova Conquista. Revelou-se um bom baterista, honesto, trabalhador, compositor e poeta – nas horas vagas.

Desde muito cedo percebeu que não se dava muito bem com o álcool. Toda vez que tomava umas e outras, ficava em um grau de valentia que metia até medo. Sempre que insistia em beber, saia do prumo e chamava a atenção da cidade inteira:

- Hoje eu não tô legal... Se alguém cruzar o meu caminho hoje, só um dos dois sairá vivo, ah, hoje eu estou com a febre do rato!!! – Dizia cambaleante pelas ruas.

Quando ‘medicado’ a primeira coisa que fazia era botar - na base supetão - o dono do bar pra correr do seu próprio estabelecimento. Com o dono fora, ele assumia o balcão e distribuía bebidas de graça a torto e a direito para quem aparecesse. Quando o efeito da cachaça passava, lá ia ele no dia seguinte, cabisbaixo, pedir desculpas e pagar todas as despesas. Isto acontecia sempre.

Aparecia nos aniversários ou casamentos sem ser convidado e lá dava o maior espetáculo. Uma vez “sequestrou” todos os espetos (enquanto a carne era assada) do churrasco de uma festa de casamento diante dos noivos perplexos! Mesmo assim, era tão considerado, que mesmo “aprontando” ninguém ficava com raiva dele.

Definitivamente, Joca era um homem bom. Depois de anos trabalhando na agência bancária local, conseguiu comprar com o suor do seu rosto, um velho jipe caindo aos pedaços. Depois de um ano sendo consertado, o jipão todo incrementado passou a chamar a atenção de quem andasse pelas ruas da pequena cidade. Deu uma bela de uma pintada, botou quatro rodonas daquelas que só carro de pleibói tem, culminando com uma capota toda reluzente. O ronco do motor faziam as paredes mais frágeis tremerem na base.  

Mas, este era Joca que, apesar de ter o veículo mais cobiçado da cidade, queria ter mesmo era um cavalo alazão, destes da raça manga larga marchador, onde ele pudesse mandar fazer um arreio sob medida e desfilar imponente pelas ruas da cidade, elegantemente montado como um velho cangaceiro ou até mesmo como algum artista de cinema do faroeste italiano. Enquanto o seu sonho não se realizava, ele ia quebrando o galho com o jipão envenenado.

Um belo dia não apareceu um destes ciganos que andam de porta em porta, todo paramentado, inclusive trazendo um chapéu de gaúcho na cabeça (e um lenço preto amarrado ao pescoço) conduzindo a tiracolo um velho pangaré? Nem era preciso ser um bom entendedor de cavalos para ver que o bicho estava todo remendado. A boca torta, os dentes todos tronchos e cariados, dois imensos ossos aparecendo na parte traseira dos quartos, os cascos todos lambuzados de óleo queimado e se ainda não bastasse, trazia o pelo todo retocado com uma tinta branca destas encardidas...

Claro que era um cavalo maquiado, mas a paixão de Joca pelo animal falou mais alto, após dar umas duas ou três cheiradas no cangote do bicho e ver o sorriso que o cavalo (visivelmente maltratado) lhe devolveu, um embevecido Joca aceitou fazer negócio na hora.

Como o único bem que possuía era o seu velho jipão, o jovem topou trocá-lo imediatamente pelo pangaré, inclusive, aceitando voltar uma graninha. A coisa só não ficou pior para Joca porque a intervenção de um colega um pouco mais astuto foi providencial. Ao exigir do cigano/espertalhão a nota fiscal do cavalo, fez que ele aceitasse trocar “no pau” um pelo outro e embora, antes mesmo de cair rapidamente na “lapa do mundo”, ainda fez questão de dar uma “meia dúzia de cavalos de pau” com o famoso jipe na porta da casa do poeta/compositor!

Com o seu sonho realizado, Joca ficava horas alisando e enchendo de bicotas o velho pangaré. Dava dois banhos por dia, passava xampu perfumado, água de cheiro importada e após mais de meia hora de escovação dos pelos do bicho, dava até uma boa ariada nos velhos dentes tronchos do animal.  Saía pelos matos cortando capim do bom e do melhor para alimentar o animal que se tornou um morador efetivo da sua casa, habitando folgadamente a sua garagem novinha que ele construíra apenas para abrigar o seu lindo veículo!

Os moradores o via diariamente passeando feliz, sempre puxando delicadamente pela rédea o velho animal que a cada dia que passava ficava visivelmente mais gordo. Logo começaram as reclamações dos vizinhos. O fedor de fezes e mijo emanados da garagem iam dar diretamente nas casas mais próximas. Para não entrar em desavença com a sua querida vizinhança, Joca passou a acordar bem cedinho e dar diariamente uma faxina na garagem, inclusive, maquiando o mau cheiro com dezenas de litros de desinfetante.  

Um belo dia – depois de adquirir em suaves prestações um arreio da cor de prata novinho – ele resolveu dar a primeira montada da vida dele no seu querido pangaré. Após se paramentar todinho como um vaqueiro nordestino, inclusive, usando esporas, chapéu e gibão de couro, ao tentar cavalgar o bichano pela cidade, percebeu que o pobre do cavalo caxingava mais que andava, assim, finalmente, descobriu que tinha caído no “conto do vigário” do cigano malandrão.

Com o coração partido, testemunhou que o pobre do pangaré, além de ter os quatros cascos rachados, ainda tinha uma bela de uma bicheira em uma das patas que se encontrava em carne viva e cheia de morotós. Desesperado, saiu pelas ruas em busca de alguém que pudesse ajudá-lo. Depois de anotar quase um caderno de sugestões dos “entendidos”, optou pelo método que ele achou ser o mais fácil, lavar com óleo diesel e esquentar com um fósforo a pata bichada – alguém garantiu que era tiro e queda!

Em um domingo pela manhã, reuniu os filhos pequenos, comprou dois litros do óleo diesel no posto mais próximo e após encharcar a pata do bicho com um pedaço de estopa ali mesmo no quintal, resolveu riscar o fósforo quando foi surpreendido por uma imensa lavareda!  

O que restou do pobre animal foi à memória de dois gritos escandalosos de dor e um espetacular salto sobre o muro do seu quintal, culminando com uma carreira desabalada rumo ao rio da ponte com a pata mais incandescente que a cabeça do motoqueiro fantasma. Depois deste dia, nem Jipe e nem cavalo. Joca perdera os dois.

Hoje em dia, quando enxerga – mesmo de longe – um ou outro cigano, ele imediatamente passa por outra rua.

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Parte integrante do Livro “O Indiferente Olhar de um Gato Velho (...)” publicado em 2018.

 

 




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