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28/11/2020 as 15:51 | Por LuizHenriqueBorges | 1294
La Mano de Dios levou Maradona
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

A crônica que seria publicada hoje estava em pleno desenvolvimento, mais de 600 palavras escritas, quando recebi pelo WhatsApp a mensagem que Maradona, um dos maiores jogadores do futebol mundial, o maior que vi atuando, já que não tive a oportunidade de assistir Pelé e Garrincha, morreu em sua casa, em Tigre, belíssima região vizinha de Buenos Aires. O tema semanal, em um misto de tristeza pela morte do craque e alegre nostalgia pela lembrança de suas inesquecíveis jogadas, teve que ser alterado.
Maradona é o exemplo das possibilidades que o futebol abre para os segmentos menos favorecidos da população. O atleta nasceu em uma família humilde que morava na Villa Fiorito, Buenos Aires. Apesar das dificuldades enfrentadas, ele afirmou que teve uma infância muito feliz. Foi ali, em seus primeiros contatos com a bola, que teve a certeza de que queria ser jogador de futebol. Naquele momento, não sabia em que posição jogaria, o importante era correr atrás da bola, como qualquer menino em uma pelada. Posteriormente, pasmem, afirmou que se sentiu atraído pela posição de líbero: “(...) Me seduz jogar de líbero. De líbero se observa tudo a partir de trás, o campo inteiro está diante de você, você tem a bola e diz, pim, saímos por ali, pum, buscamos pelo outro lado, você é o dono da equipe”, afirmou o craque. Percebe-se pela declaração dois aspectos que marcariam sua carreira de jogador, a liderança que ele exerceu nas equipes que defendeu e o fascínio pela bola, sua grande companheira.
Maradona reafirmou a mítica argentina do potrero, ou seja, do menino que aprende a jogar futebol em terrenos baldios, em campos esburacados, no caso argentino, mesmo não sendo exatamente o caso de Maradona, nos pastos de gado. No Brasil encontramos similaridade no futebol de várzea. Nesses espaços de disputa, os meninos aprendem a driblar as dificuldades do terreno e dos adversários, muitas vezes mais fortes fisicamente do que eles. Para superarem as adversidades precisam aguçar a habilidade. 
Habilidade!!! Tá aí algo que nunca faltou ao craque hermano. Em 1969, um colega de escola e de futebol lhe disse que havia sido convidado para fazer um treino no Argentinos Juniors e chamou Maradona para ir com ele. No dia marcado, caiu uma chuva torrencial e o treino foi suspenso para não estragar o gramado do centro de treinamento. No entanto, percebendo a frustração dos meninos, Francisco Gregorio Cornejo falou aos meninos que eles jogariam em Parque Saavedra. Com apenas 9 anos, Maradona, que aparentava ter menos em razão de sua baixa estatura, encantou Cornejo que o convidou para treinar no Cebollitas, escola de inferiores do Argentinos Juniors.
Em outubro de 1976, estreou na primeira divisão do campeonato argentino e com apenas 11 partidas e três meses de sua estreia, o craque foi convocado, em princípio de 1977, para a Seleção Argentina. Apesar do início meteórico, Maradona sofreu o que considera a sua maior tristeza no futebol ao não ser convocado para o Mundial de 1978. No ano seguinte, explodiu no Mundial Juvenil disputado no Japão.
A partir daí colecionou idolatria, títulos e polêmicas. Em 1982, um pouco antes do Mundial em que não brilhou, transferiu-se para o Barcelona. Na cidade espanhola iria entrar em um mundo do qual não mais sairia: o de usuário de drogas. O ápice de sua carreira em clubes começou em 1984 quando foi atuar pelo Nápoli. Tornou-se ídolo não só do clube, mas de toda a cidade do sul da Itália ao ponto de, na Copa de 1990, quando argentinos e italianos se cruzaram, ironicamente no Estádio San Paolo, em Nápoles, na semifinal do campeonato, parte dos italianos presentes no estádio e, certamente, espalhados pela cidade, torceu para o argentino que também personificou a rivalidade entre o sul e o norte do país.
Apesar de ser um ídolo internacional, Maradona jamais escondeu o amor que sentia por seu país e por defender as suas cores. Em várias oportunidades contrariou os dirigentes dos clubes pelo qual jogava para atuar em um simples amistoso da Argentina.
Não tenho dúvida que o ápice de Maradona ocorreu na Copa de 1986. Ele não foi apenas campeão mundial, ele nos regalou com dribles, lançamentos e jogadas inesquecíveis ao longo de todo o mundial. É impossível esquecer do segundo gol contra a Inglaterra ou ainda a picardia e a malandragem que só os gênios são capazes de produzir, como o gol com a mão, “la mano de Dios”, também contra os ingleses. 
Maradona, que sempre respeitou e elogiou a categoria do futebol brasileiro, deixou sua marca contra nós na Copa de 1990. Em uma arrancada fulminante driblou meio time do Brasil e deu um passe preciso para Caniggia marcar o gol que nos desclassificou do Mundial. A partir daí, ainda mais envolvido em polêmicas e drogas, iniciou o seu ocaso. No ano seguinte foi pego em um exame antidoping, que ele sempre contestou, e foi afastado 15 meses dos campos. Preparou-se muito para a Copa de 1994, mas após início promissor, novo exame apontou o uso de derivados de efedrina, substância proibida para os atletas. Foi afastado da Copa.
Maradona se notabilizou por dizer o que pensava, sem “papas na língua”. Era ferino. Contudo, sempre foi autêntico. Durante o doutoramento li dois livros em que o jogador relata sua vida e em ambos fala abertamente do uso de drogas, das farras e até das traições matrimoniais por ele cometidas. Contudo, afirmou que não usava drogas nas proximidades dos jogos e que o resultado do exame realizado na Itália havia sido forjado. Em relação à Copa de 1994, ele usou medicamentos para emagrecer, mas houve um equívoco por parte de um dos seus preparadores na compra de um desses medicamentos, quando já estavam nos Estados Unidos e que o remédio comprado tinha as substâncias proibidas. Ele admitiu ter tomado o medicamento, mas não sabia que ele continha tais substâncias e que jamais ingeriu algo, em toda a sua carreira, para melhorar sua performance.
Se suas afirmações foram ou não verdadeiras, não se tem como responder. Mas sei que perdemos não só um gênio do futebol, mas alguém autêntico. Se suas jogadas brilhantes estão há muito tempo no campo da nostalgia e da saudade, suas falas sempre agudas e polêmicas farão muita falta. 
 




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