Fotografo: Danilo Sili Borges
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Danilo Sili Borges

Sempre tive predisposição negativa em relação à palavra paliativo. O seu sentido de ficar pela superfície, de não ir às causas, às raízes, contrasta com a minha maneira de ser, com a minha intenção de querer resolver qualquer situação logo que surge. Paliativo era, para mim, coisa de quem quer postergar, “empurrar com a barriga”, “deixar como está para ver como é que fica”.
Ao me aproximar dos 80, como pessoa prudente que sou – ou acho que sou – as coisas estão mudando. Com os receios naturais do inevitável porvir, comecei a observar e refletir sobre como amigos que me antecederam na caminhada têm enfrentado as proximidades da linha de chegada. Sei que algum leitor vai abandonar por aqui a leitura e dizer para si mesmo: “Seja o que Deus quiser”. Eu sou menos corajoso e quero estar no comando até o último sopro. Como a ocorrência é inevitável, procurei ir me acostumando com a ideia. Acho mesmo que a natureza nos vai preparando, por meio das nossas taxas hormonais, para o desenlace.
A atitude será sempre muito pessoal. O que me desagrada, e devo assumir, me mete medo, é a tal da UTI. Tenho visto amigos, já na fase aguda das suas enfermidades, serem conduzidos aos hospitais e terem suas vidas mantidas por aparelhos e procedimentos sofisticados. A pergunta que me faço é: Qual é o ponto de não retorno? É possível detectá-lo? Em doenças degenerativas de progressão lenta é possível saber quando os longos procedimentos  hospitalares não produzem mais resultados?
Sofro com os amigos e parentes que permanecem, longo tempo, hospitalizados passando por procedimentos variados: vai para a UTI, faz hemodiálise, respiração forçada, entuba, alimentação parental, coma induzido, volta ao quarto, vai para a UTI, pulmão tem que ser drenado, coração em risco e segue por aí. Para o leigo que sou, tudo indica que não tem mais jeito. Mas a máxima humanista adotada é “Enquanto há vida há esperança”. Será? A esperança é no milagre e isso anda tão raro hoje, como sempre foi.
Ao visitarmos o amigo, entendemos que é uma despedida, mas que ele será mantido vivo. E que será tentada sua cura, ou melhora expressiva, enquanto der. Invadirão ainda mais seu corpo, coisificarão seu orgulho, esgotarão sua paciência, tudo na intenção de tirá-lo do inevitável e trazê-lo à saúde.  A luta dos médicos e das equipes é notável. A família a cada etapa se enche de esperança, mas não demora a ver que as coisas não melhoraram também desta vez, pelo contrário. Mas a luta continua renhida, heroica e inglória!
Pensando nisso e para livrar, na hora agá, os médicos que então me assistam dos problemas de consciência e talvez até legais, procurei e descobri que existe a possibilidade de deixar a minha vontade clara, de não ser objeto de tratamentos que me prolonguem a vida por procedimentos que apenas retardem, por curtíssimo prazo, a morte inevitável. Isso existe e se chama Testamento Vital. Estou providenciando para que o documento seja vazado em termos legais de modo a ser apresentado aos médicos, hospitais e a quem quer que seja, com a minha vontade expressa, no momento oportuno, o que espero demore muito tempo para acontecer.
Descobri, recentemente, que há uma nova especialidade médica que cuida dessa fase, a Medicina Paliativa, que atua principalmente naqueles casos em que o paciente foi diagnosticado como no ponto sem retorno, isto é, para o qual, a ciência médica não possui meios de cura. O que resta é dar ao doente conforto, paz e dignidade, reduzindo sintomas físicos, emocionais, psicológicos e religiosos. Formam-se equipes multidisciplinares para essa finalidade. Sempre que possível, o atendimento é domiciliar. Em casa, junto à família, o moral do doente eleva-se consideravelmente.
Penso que com o Testamento Vital e com o acompanhamento por equipe de medicina paliativa, quando não houver mais jeito, sairemos desta, senão para melhor, como se costuma dizer, pelo menos, mais suavemente.
A palavra paliativo ganhou novo significado no meu vocabulário.
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Set. 2019