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Vitória Da Conquista(BA), Quarta-Feira, 20 de Outubro de 2021 - 13:15
25/09/2021 as 11:02 | Por Luiz Carlos Figueiredo | 241
“NADA VEM DE GRAÇA, NEM O PÃO E NEM A CACHAÇA”.
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

A Nova Conquista do final dos anos 1960 tinha apenas três ruas. A Avenida Presidente Vargas – que ainda hoje tem as entranhas rasgadas pela Rodagem BR-116, a Usina entrelaçada à Rua José Porto e a Flores Dantas que nascera ancorada pela família “Batista de Oliveira” que construíram uma rua “inteirinhazinha” só com as casas da família. Neste tempo a população era diminuta e a economia que movia a máquina de sustentação do povoado era gerada pelos vendedores ambulantes (comercializando guloseimas nos Paus-de-arara), pelos “botadores” de água conduzida em frotas de jumentos e dos parcos salários dos funcionários lotados no DER – Departamento de Estradas e Rodagens – muitos residiam por aqui.

 O comércio de portas abertas, além de bastante reduzido, era quase todo construído à base de tábuas reutilizáveis, formando pequenos barracos que a população chamava de “TIOSQUE”. A palavra quiosque, quase nunca utilizada, parecia advir de uma língua estrangeira, provocando uma espécie de repulsa na população.

O barraco mais movimentado na época era do velho Onofre, um senhor baixinho, de fala mansa, óculos fundo de garrafa e que amarrava a calça com um velho currião de sola bem no meio da barriga chocha e esquálida. Este senhor que conversava bem baixinho e andava sempre arrastando a velha alpercata de couro cru - que ele não tirava nem para tomar banho -, chegou ao povoado como vendedor de bilhetes premiados da loteria federal e foi ficando por aqui! Chegou (como se dizia antigamente) com uma mão na frente e a outra atrás, “desapiou” na cidade vindo das bandas do Norte, no longínquo ano de 1963 acompanhado da sua querida esposa Luzia e dos três filhos pequenos. Depois de passar uma noite e um dia martelando um bando de tábuas que encontrara em um monturo, o nortista acabou construindo o seu primeiro “tiosque” e com isto, começou a ganhar a vida às margens da famosa BR-116, a Rio-Bahia. 

 Apesar da aparente tranquilidade demonstrada pelo velho senhor, nas entrelinhas, Onofre era mais astuto que raposa perseguida. Em pouco tempo o progresso daqueles “pseudos-retirantes” mudara da água para o vinho. Diariamente o velho Onofre trabalhava das 7 da manhã às 10 da noite, enquanto dona Luzia entrava de corpo e alma na cozinha improvisada que existia no fundo do barraco, produzindo no velho fogão à lenha, uma variedade enorme de guloseimas, tais como buchada, feijoada, sarapatel, fritado de tripas, cuscuz, arroz doce e o famoso mingau de fubá de milho.

Claro que nem sempre a coisa foi assim tão boa.   Para ganhar a praça, Onofre teve que usar algumas artimanhas e eliminar os concorrentes mais diretos usando toda a sua astúcia. Por exemplo, quando começou a vender o seu famoso mingau de fubá, teve que concorrer com a qualidade incontestável do mungunzá de Gaspar, um comerciante religioso que tinha os cabelos mais brancos que talco de barbearia. Muito querido e conceituado no povoado, Gaspar detinha o respeito de todos por ser extremamente direito nos seus negócios. O evangélico Gaspar vendia tanto na época que chegava a despertar a inveja nos concorrentes. O mungunzá de Gaspar era tão delicioso que só o seu cheiro já parava literalmente o trânsito. Quando este cheiro, nas primeiras horas do dia deslizava lentamente pela brisa que flutuava nas margens da BR-116, podia se ver motoristas de todos os tipos descerem embicados em direção ao velho “tiosque” de madeira, degustando repetidas vezes o seu famoso mungunzá feito de milho verde com leite de coco fresco.

Diante da concorrência desleal (leia-se: qualidade desproporcional entre uma iguaria e outra), completamente desolado e após várias noites em claro, o velho e astuto Onofre resolveu bater abaixo da linha de cintura do concorrente, enviando diariamente para o esbelecimento vizinho, bem no auge do movimento, uma renca de meninos sujos e fedorentos, inclusive os seus três pequenos rebentos com as respectivas fraldas entupidas de bosta ressecada. Lá estava uma fila enorme, pessoas comendo (outras esperando a vez) e o cheiro do mungunzá atormentando o apetite de todos, quando entrava correndo aquele rebanho de moleques fingindo brigar entre si, espalhando um odor miserável pelo recinto! Quando o “fedorzão” subia naquele ambiente abafado e sem ventilação, não ficava um freguês dentro, corria todo mundo pra fora. Quem estava comendo, largava os pratos, outros saíam pelos fundos, e a maioria, principalmente os que ainda não tinham sido atendidos, fugia em busca do primeiro concorrente que encontrasse pela frente, não por acaso, o barraco do velho Onofre.

Pouco tempo depois, o “tiosque” mais famoso da região ganhou o apelido de “Restaurante Carniça”, não sobrando um cliente, sequer. Depois de algum tempo, Gaspar até descobriu a história dos “meninos cagões”, porém, quando tentou reagir já tinha perdido toda a sua clientela para o desonesto concorrente que em pouco tempo passou a ter o comércio mais famoso do povoado. Assim, era muito comum se ver filas e mais filas de pessoas famintas que outrora fora de Gaspar, trocando cotoveladas na porta do velho barraco de Onofre, tendo como principal atrativo o famoso mingau de fubá de milho.

Rezava a lenda que o mingau que se tornou o carro chefe das suas vendas, com filas intermináveis, não viera assim tão gratuitamente. Tinha pessoas que jurava que o velho e decadente Onofre fizera um pacto com o Tinhoso em plena Sexta-Feira Santa e que o Pé Redondo exigiu que entre os ingredientes do famoso mingau fosse misturado um elemento secreto e valioso, ou seja, um osso de braço de um recém-nascido, prematuramente falecido, retirado do cemitério na calada da noite em adiantado estado de putrefação. Depois de limpo e ferventado, o ossinho do braço da criança servia como colher para mexer o mingau enquanto era servido. É claro que havia uma dose extra de exagero na história, mas não faltava quem dissesse abertamente que já vira o velho Onofre em uma noite de lua cheia, logo após o gemido do bacurau, entrar sorrateiramente no cemitério local, revirar uma cova rasa e sair com um osso do braço do bebê de Alzira de João “Cangaia”! Bebê este que já nascera morto e, segundo as más línguas, com uma cara de bode, duas asinhas nas costas e dois chifrinhos pontudos na cabecinha deformada, por isto teve que ser enterrado às pressas e às escondidas. Verdade ou não, quando chegava o tal do mingau de Onofre, o cheiro inebriava a todos. E assim, entre araras, nativos e concorrentes (sim, estes eram os que mais consumiam o “mingau da pata de anjo”, nome dado à surdina para o referido), a iguaria não dava para quem queria. Diante do movimento o velho Onofre chegou a contratar às pressas umas duas ou três cozinheiras para ajudar a sua querida esposa, dona Luzia. No início das vendas, se fazia um caldeirão – grandão, daqueles vendidos por ciganos –, e sempre acabava logo, depois de duas ou três semanas, a coisa foi duplicado e logo depois teve que treplicar, tão grande era o seu consumo. Quanto mais se fazia, mas se vendia.

Diante da concorrência desleal que o mingau da “Pata de Anjo” impunha aos demais comerciantes, alguns concorrentes (liderados pelo rancoroso Gaspar) se reuniram e passaram a usar o mesmo artifício usado pelo velho Onofre, os moleques (não eram poucos os que corriam atrás de alguns trocados) eram contratados para saírem espalhando aos quatro ventos a história do bracinho afanado do cemitério. Falavam, falavam, falavam e o povo nem tchum! O velho Gaspar chegou ao cúmulo de se disfarçar usando um enorme chapéu mexicano (de palha), entrando na fila feito um cliente comum, cochichando (ele mesmo) diretamente nos ouvidos dos fregueses a história do osso do bebê moribundo! Para o azar de todos, quanto mais o “inacreditável sucedido” era relatado (parecia até uma praga) a freguesia de Onofre parecia quadriplicar. Saía gente pelo ladrão! A fila ia de um lado a outro da rua. Depois de um tempo, o coitado do Gaspar, completamente desolado, impotente diante do “poder” do velho nortista, mudou-se de “mala e cuia” da cidade, carregando a fama de vender mungunzá com cheiro de bosta! Como podem ver, não é de hoje que existe o tal do Fake News, né?

Com a concorrência fora de combate, o velho Onofre em pouco tempo construiu o primeiro restaurante de alvenaria do município. Os atônitos moradores do povoado passaram a testemunhar incólume um movimento da peste, com um batalhão de clientes entrando e saindo diariamente deste restaurante. Tudo corria às mil maravilhas quando em uma fria noite chuvosa de junho, exatamente no momento em que as mesas se encontravam abarrotadas com uma variedade enorme de carros (e até algumas marinetes) parados na porta, as garçonetes correndo pra cima e pra baixo (neste tempo já tinha até garçonetes contratadas), a famosa buchada de bode – o prato daquele dia – servida em todas as mesas quando diante de um assobio, uma violenta rajada de vento adentrou o famoso restaurante. Pânico geral com mesa virando, pratos voando, gente gritando, talheres caindo, e aquele redemoinho de chuva rodando dentro do ambiente destruindo tudo o que tinha pela frente. Prateleiras sendo despedaçadas, móveis sendo amassados, litros e mais litros de bebidas jogados contra as paredes e aquela gritaria danada, aquela tensão, aquele desassossego todo dentro do restaurante. Repentinamente quem aparece furiosamente dentro do redemoinho, berrando feito um aluado? Ele. O famoso bebê de Alzira de João “Cangaia”, dando o maior calundu, preso dentro do funil do redemoinho de chuva, derrubando tudo o que havia pela frente com a sua carinha de bode, com as suas duas asinhas amarrotadas nas costas e seus dois chifrinhos pontudos na cabecinha deformada gritando com a sua voz de bode:

- Segura a cabra, Onofre avarento! “Miserávi Véi”! Hora de pagar por todos os seus pecados, seu sovina desgraçado! – Era o feto deformado, ensandecido, sapateando dentro do redemoinho. Quanto mais sapateava, mais forte o vento ficava.

Eu não vi, mas me contaram que quem presenciou o fato ficou mais arrepiado que gato quando encurralado por cachorro. Foi uma lambança disgramada...  Gente correndo, gritando, desmaiando, saindo pelos fundos e até pelo telhado. O pior foi quando aconteceu uma explosão. O pipoco foi tão violento que o fedor de enxofre ficou impregnado no ar por mais de duas horas. Quem estava dentro o hotel deram pinote pros lados de fora, inclusive dona Luzia e suas crianças. Depois de tremer mais que donzelo com a primeira namorada, o prédio de alvenaria veio a baixo com tudo o que tinha dentro dele, inclusive, soterrando violentamente o velho e avarento Onofre que se negou a sair. Foi uma tragédia!

O mais estranho foi que após dias de trabalho retirando os escombros, nenhum corpo foi encontrado. Até hoje não se sabe onde misteriosamente foi parar o corpo do velho Onofre, o velhinho dos óculos fundo-de-garrafa!

 

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Escritor e Poeta

CSales, Ba. Quadras de Setembro de 2021. Minguante de Primavera.

Adaptado originalmente do Livro AS HISTÓRIAS QUE ‘CANDIN’ SE ESQUECEU DE CONTAR publicado em 2016.

 




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