Fotografo: Reprodução
...
Divulgacao

Não é “mimimi” 
 
Luiz Henrique Borges
 
Depois de jogar contra a inexpressiva Bolívia e ganhar com extrema facilidade, o Brasil enfrentou, na última terça-feira (13/10), a Seleção do Peru que, mesmo desfalcada, é uma equipe mais qualificada que os bolivianos. A vitória, para mim, não foi convincente e o futebol apresentado está longe de encantar.
A defesa da equipe de Tite mostrou grande fragilidade diante de um ataque adversário que é sofrível. Não esqueçamos que o principal centroavante do Peru, Paolo Guerrero, se encontra machucado. Os gols peruanos surgiram de rebatidas errôneas, para a frente da área, da zaga brasileira. O segundo gol ainda contou com o desvio de Rodrigo Caio impedindo qualquer chance de defesa do goleiro Weverton. 
O meio campo, mesmo aguerrido como toda a equipe, errou passes fáceis o que dificultou a fluidez do jogo. Phillippe Coutinho e o atacante Roberto Firmino não realizaram um bom jogo e foram muito bem substituídos pelos Evertons, o Ribeiro e o apelidado de Cebolinha. Coutinho, após sua saída do Liverpool, não se firmou no Barcelona e no Bayer de Munique. Na Seleção é um jogador muito esforçado, mas pouco mais do que isso, ele não pode ser o responsável pela criação e municiamento do ataque do Brasil. Já Firmino não me parece confortável como atacante de área e ele próprio afirmou que no Liverpool costuma auxiliar no meio campo. 
A falta de fluidez do meio campo brasileiro se acentua com Neymar. É incontestável a sua capacidade técnica e genialidade, contudo ele prende a bola em demasia e isso, acrescido dos erros nos passes no meio campo, tiram a velocidade na construção das jogadas. As tabelas curtas, rápidas e envolventes pouco ocorreram e restou ao Brasil fazer os lançamentos longos o que normalmente facilita o trabalho da defesa adversária quando ela se encontra postada. Óbvio que não estou dizendo que devemos abrir mão de Neymar, mas é preciso alertá-lo para a necessidade de tocar de primeira em alguns momentos visando dar maior rapidez à equipe.
Mesmo sem repetir a atuação contra a Bolívia, penso que a lateral esquerda ganhou seu titular, Renan Lodi. Na direita, Danilo fez um jogo burocrático, contudo seguro. A equipe melhorou com a entrada do Everton Ribeiro e do Cebolinha, mas é preciso lembrar que o Peru perdeu um jogador expulso depois da entrada desses dois atletas o que abriu mais espaços para os jogadores brasileiros. Seria interessante vê-los começarem como titulares.
Finalmente, mas não menos importante, se a equipe titular do Peru já é inferior tecnicamente à Seleção Brasileira, a diferença na qualidade dos bancos, com as substituições, acentuou ainda mais esse hiato. 
Em novembro, em São Paulo, enfrentaremos os venezuelanos e, em seguida, um páreo bem mais difícil, o clássico contra o Uruguai em Montevidéu. A Celeste Olímpica e a Argentina formam com o Brasil o que chamo de “trio de ferro” da América do Sul. A partida contra os uruguaios será o primeiro grande teste para os brasileiros. De qualquer forma, largamos bem nas Eliminatórias, o que é muito importante, pois reduz a pressão e permite que se trabalhe com maior tranquilidade rumo à Copa do Mundo.
A história humana é marcada por avanços e retrocessos, felizmente, os retrocessos não parecem ser movidos pela mesma força dos avanços, ou seja, não são capazes de anulá-los. Por que digo isso? Essa semana o Santos contratou o já bastante experiente jogador Robinho. O atleta está envolvido em uma acusação de estupro coletivo na Itália e foi condenado em 1ª Instância. Lembro que quando atuava no Manchester City, em 2009, o jogador também foi acusado pelo mesmo crime, contudo, ao contrário de agora, foi inocentado pouco tempo depois. A atual condenação não significa que ele seja efetivamente culpado, uma vez que recorreu e pode ser inocentado em instância superior. Não estou aqui para dizer se o jogador é ou não culpado, esse papel cabe à justiça italiana. Também não quero discutir se tecnicamente, apesar da idade, ele agregará valor à equipe santista. O que quero discutir é se a sua contratação é benéfica para a imagem do clube.
O Santos se notabilizou, nos últimos anos, por defender questões raciais e de gênero, contudo, a contratação do Robinho me faz pensar se os discursos proferidos não são apenas jogadas de marketing, visando se alinhar com um discurso progressista, ético e igualitário, mas que na realidade não retratam efetivamente o que os seus dirigentes acreditam. 
Desculpem os retrógrados, os machistas, mas contestar a contratação de um jogador até o momento condenado por um estupro coletivo não é “mimimi”. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada onze minutos uma mulher é estuprada no Brasil, ou seja, mais de 65 mulheres sofrem a citada violência por dia no país. Infelizmente, ao ler comentários na internet sobre a discussão, percebo como a cabecinha de muitos homens continuam reproduzindo discursos ridículos e preconceituosos, transformando a vítima em algoz. A discussão é muito mais séria, mais profunda e precisa ser feita com muito mais inteligência e delicadeza.
Também não defendo que o Robinho seja proibido de realizar suas atividades laborais, uma vez que a própria justiça italiana ainda não lhe condenou em definitivo, contudo é importante que o Clube analise cuidadosamente o impacto dessa contratação em sua imagem. Eu sei que o futebol é movido pelas paixões, ou seja, se o jogador atuar bem e auxiliar nas vitórias do clube, parte da torcida fechará os olhos às acusações que o atleta sofre, mas isso é o suficiente para não arranhar a imagem e a história do clube? Acredito que não. 
Minha opinião é que o Santos contratou (e em virtude da péssima repercussão já suspendeu o contrato) um atleta que está com seu nome envolvido em um crime repugnante e covarde e que, neste momento, por maior que sejam suas conquistas futuras, se ocorrerem, não serão o bastante para manter imaculada a camisa e a imagem do Santos.