Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

O futebol, caixa de ressonância das práticas e hábitos do país, nos deu mais um exemplo deprimente de gestão, de irresponsabilidade com os menos favorecidos, de falta de empatia com a vida, de ignorar os alertas. É a política de vamos ver o que vai dar, ou pior, de corrupção.

O caso do incêndio do Ninho do Urubu, ocorrido em fevereiro de 2019, trouxe novos capítulos para esta longa novela brasileira de irresponsabilidades e também certeza da impunidade. Documentos divulgados essa semana deixam claro que os dirigentes do Flamengo tinham conhecimento da precariedade e dos riscos dos alojamentos de seus jogadores de base em virtude das deficiências de suas instalações.

O clube não foi alertado horas, dias ou semanas antes da tragédia, o aviso foi dado nove, isso mesmo meu amigo leitor, nove meses antes e deixou o saldo: 10 adolescentes mortos. Em 11 de maio de 2018, os responsáveis pelo centro de treinamento receberam um relatório que apontava para vários problemas presentes no sistema elétrico. Aqui também devemos ser justos, a empresa que desenvolveu a vistoria e o relatório havia sido contratada pelo Flamengo. Contudo, entendo que três questões ficam claras. Primeira questão, o Flamengo estava preocupado com as instalações, afinal contratou uma empresa para realizar a vistoria e o relatório. Segunda questão, nenhum dirigente do Flamengo, em especial seu presidente, não pode, em hipótese alguma afirmar que desconhecia a situação. Terceira questão, há notas fiscais referentes ao pagamento de serviços que deveriam ter sido realizados com o intuito de resolver os problemas apontados, mas o serviço não foi feito.

O ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Melo, nega ter tomado conhecimento do e-mail com o citado relatório. Estratégia recorrente adotada na política brasileira de afirmar, após denúncia feita, de que não se sabia do que estava acontecendo. “Petrolão? Não sabia! Rachadinha? Meu Deus! Fizeram isso, eu não tinha ideia”. Ora, já passou da hora dos dirigentes, em qualquer nível de gestão, pública ou privada, responderem pelos atos de sua administração. Alegar desconhecimento é, no mínimo, atestado de incompetência e negligência, ou então, e é o que eu acredito, mau-caratismo mesmo. Isenção da culpa? Por favor, não brinquem comigo.

Um motorista que ingere bebida alcóolica e dirige, assume o risco de cometer um acidente e de ser punido na letra da lei. Ele não pode simplesmente alegar desconhecimento do código de trânsito brasileiro. Não sou formado em Direito, pouco entendo de leis, mas como cidadão tenho o direito de expressar minha opinião e considero a analogia do caso do Flamengo com o do motorista embriagado válida. Nos dois casos, além de não ser, no meu entender, aceitável alegar desconhecimento, o crime, ao menos na minha forma de entendimento e de querer que se realize justiça, deveria deixar de ser culposo para ser doloso. No primeiro, não há a intenção consciente do agente, no segundo, há a intenção consciente, mesmo que ele, o agente, não tenha desejado o resultado atingido, ele assumiu os riscos ao adotar tal conduta.

Vamos discutir agora a contratação da empresa que deveria ter executado os serviços. Segundo documentos que estão em posse da Justiça, três dias depois de acolher o relatório, o Flamengo recebeu a proposta de uma empresa para realizar os reparos e, em maio de 2018, pagou a primeira parcela do contrato pela sua execução e em outubro pagou a segunda parcela. O trabalho foi realizado? Segundo outra empresa, contratada também pelo Flamengo, após a tragédia, ele não foi feito. Pergunto: Como o Flamengo pagou por um serviço que não foi realizado? Para onde foi esse dinheiro? Quem eram os responsáveis do Flamengo que atestaram que o serviço foi realizado? Me parece que estamos diante de mais um caso de corrupção e que fique claro que ela não é apenas endêmica na política brasileira e não atinge somente o setor público. Por sinal, sem o luxuoso auxílio, conivência e participação das empresas privadas já estaríamos livres desse problema que tanto maltrata a estima, o respeito e a qualidade de vida dos brasileiros. Neste caso específico, temos duas instituições privadas envolvidas.

É enervante e desrespeitoso o silêncio tanto do Flamengo como da CBI Instalações, empresa que foi contratada para realizar os serviços. A instituição Flamengo não pode ser pensada de forma separada de seus dirigentes, eles fazem parte dela, eles tomam decisões em nome desta grandiosa instituição, eles mancharam a sua história.

Cabe à Justiça punir com o máximo rigor tais dirigentes, a empresa que deveria ter realizado o serviço e o próprio Flamengo. Os dois primeiros precisam ser responsabilizados, com a maior dureza possível, uma vez que seus atos ou suas inações resultaram em 10 mortes. O Flamengo, por sua vez, deveria pagar generosamente às famílias dos atletas mortos. Minha sugestão: Determinar o valor médio dos jogadores que atuam na Série A do futebol brasileiro, algo por volta de 300 mil reais/mês; cada um dos atletas mortos atuaria por volta de 12 anos no futebol de alto nível, ou seja, deveriam receber ao longo do período o valor atual de R$ 43.200.000,00. Que o Flamengo pague a cada uma dessas famílias minimamente esse valor.

As punições precisam ser duras e efetivas, só assim a impunidade que impera em todos os setores da vida cotidiana brasileira será desestimulada e evitaremos que casos como o que ocorreram no Ninho do Urubu voltem a acontecer. Não podemos mais aceitar, socialmente, que dirigentes de futebol, políticos, empresários, se escorem na popularidade ou em suas relações de poder, para perpetuar a impunidade. Muda Brasil!