Fotografo: Danilo Sili Borges
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Danilo Sili Borges

Começo a crônica desta semana, lembrando entrevista de Ozires Silva, chamo-o assim, por escolha dele mesmo, que a prefere aos títulos de engenheiro aeronáutico, coronel da Força Aérea, ou ministro, tratamento usual aos que ocuparam qualquer ministério da República, não por desprezar essas importantes qualificações, mas pela modéstia que se percebe no entrevistado, cortês e com bom humor, qualidade que vai se tornando rara nas entrevistas feitas pelas nossas emissoras de televisão. Ouvir Ozires Silva é receber lição de brasilidade e de bom senso por quem tem a autoridade de muitas realizações, dentre as quais a de ter sido o criador da Embraer e, de anos depois, privatizá-la, possibilitando que a empresa se tornasse uma das principais construtoras de aeronaves do mundo. E isso não é pouca coisa.
 
O entrevistado contou que, num jantar comemorativo na Suécia, teve a oportunidade de estar à mesa com membros do comitê que confere anualmente o premio Nobel e aproveitou para perguntar sobre uma curiosidade, que é de todos nós: Por que nenhum brasileiro havia sido agraciado com o Nobel. Após uns segundos de constrangimento, um dos inquiridos respondeu: “Diferentemente dos outros povos, os brasileiros sempre agem contra seus indicados, contra seus heróis”.
 
Qual a razão desse procedimento, me pergunto? Ciúmes, política, ideologia, inveja, interesse financeiro ou qualquer outro sentimento de baixo calibre? O que sei, é que somos iconoclastas. Detestamos ídolos e, na primeira oportunidade, atiramos-lhes pedras para que seu conceito público desmorone, se for de agora, da nossa época. Se já for vulto da história, vamos escarafunchar para encontrar algo com que enodoar sua grandeza e colocar em dúvida a justa admiração que despertaram por gerações. Destruir reputações tem sido um maldito esporte nacional, tão em uso na política atual, usando os modernos meios das redes sociais.
Desconstruímos com prazer mórbido, sistematicamente, os nossos ídolos, imputando-lhes máculas que nada têm a ver com o desempenho excepcional em sua atividade específica, com seus feitos em nosso passado e até no presente. Desvalorizamos de Pelé a Caxias; de Pedro II a Chico Buarque; de Cabral a Juscelino. Pelé foi recusado para uma honraria, por uma Câmara Legislativa, por um desentendimento que tinha com uma filha. Nada com seu futebol. Chico sofre restrições por causa de suas opções político-ideológicas. Suas músicas continuam como sempre foram. Einstein será menor como físico, por ter tido comportamento menos digno em relação ao filho deficiente a quem nunca visitou no sanatório?
Como somos diferentes, por exemplo, de “los hermanos” argentinos, que cultivam seus ídolos, adotando, com maturidade, o velho adágio português, tão ao gosto do meu saudoso avô, “Não há bela sem senão”. O que é sempre verdade entre os humanos que somos.
Não quero dizer que não se deva dar a conhecer, na integralidade, a personalidade dos que se destacam ou destacaram. Pelo contrário, isso deve ser sempre feito. Os que estão em atividade, pela imprensa que deve dar conhecimento da vida pública dos protagonistas do hoje. É direito de o cidadão conhecê-los. Vultos do passado, que deixaram suas digitais tão profundamente marcadas na história, que estas perpassaram décadas ou séculos e de tal modo continuam presentes, podem e devem ter suas memórias recuperadas a partir das fontes históricas, não para desmerecê-los ao serem conhecidas suas dimensões humanas, conhecidas fraquezas, idiossincrasias, erros. Nada disso diminuirá o que fizeram.
Agora mesmo, Mary Del Priore, renomada professora e pesquisadora da História do Brasil, acabou de lançar seu último livro, As Vidas de José Bonifácio, no qual a trajetória aventurosa, a personalidade, o carácter e até as fraquezas do Patriarca da Independência são dissecadas, no rico cenário em que transitou esse protagonista da independência política do Brasil, na Europa, estando em Paris por ocasião da Revolução Francesa. Nas margens do Tejo, na partida apressada da família Real Portuguesa para o Brasil.
“Não há bela sem senão”. Não é digno ocultar os senões, como é mesquinho usá-los para ofuscar a beleza.  
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges – Brasília. Ago. 2019