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O amálgama da vitória
 
Por: Luiz Henrique Borges
 
São inúmeros os exemplos no futebol de jogadores, técnicos e até de equipes que realizam uma temporada excepcional, mas que não conseguem manter o mesmo nível de performance na ou nas seguintes. Como já é muito conhecido e divulgado no mundo esportivo, o mais difícil não é chegar ao topo, mas se manter nele. Em todos os esportes a manutenção no topo exige contínuo esforço, dedicação, aprimoramentos e, particularmente, privações que nem todos estão dispostos a fazer.
Ainda assim, se a afirmação é válida para todos os esportes, ela mais se ajusta ao futebol. No basquete assistimos, por exemplo, o Chicago Bulls de Jordan dominar o cenário norte-americano por anos. No vôlei, as seleções brasileiras estão sempre disputando e conquistando títulos e internamente, na Superliga, percebemos equipes que se tornam hegemônicas por algumas temporadas, como o Cruzeiro na competição masculina e o Rio de Janeiro na feminina. Ao contrário do que ocorreu no vôlei não há no Campeonato Brasileiro uma única equipe que tenha conquistado cinco títulos seguidos.
Uma temporada mágica no futebol, como a que o Flamengo experimentou em 2019, depende de inúmeros fatores, que precisam se fundir em um amálgama que não é fácil de ser produzido. É essencial contar com um técnico respeitado e aceito pelo elenco, os jogadores têm que “comprar” e serem capazes de executar as ideias defendidas pelo seu treinador. É preciso que os atletas estejam no ápice da sua forma física e técnica. Some-se a tudo isso dose maciça de sorte.
Sim, sorte! Sorte de não ter jogadores machucados ou suspensos, mantendo e aprimorando o entrosamento da equipe. Sorte de conquistar vitórias em apresentações em que a parte técnica não se sobressai. Talvez o melhor exemplo seja exatamente a final da Libertadores. O Flamengo não realizava uma grande partida, o seu adversário, o River Plate, ganhava o jogo até os minutos finais do confronto e eis que, em duas jogadas, nos derradeiros minutos, o rubro-negro carioca virou o placar. Sem sorte não é possível nem chupar um Chicabon, já dizia Nelson Rodrigues.
Além de contar com um elenco de qualidade é fundamental que os jogadores estejam vivendo uma grande fase. Quando todos esses elementos se fundem, a probabilidade de êxito é elevada. O problema é manter a liga, a cola, para a temporada seguinte em um esporte em que as oscilações são normais.
Apesar de ter um elenco ainda mais forte, os resultados e mesmo os espetáculos oferecidos pelo Flamengo estão abaixo daqueles de 2019. Muitos torcedores e jornalistas afirmam que a saída de Jorge de Jesus foi a causa. Não tenho dúvida que a saída do técnico lusitano trouxe instabilidade, porém, a equipe, ainda dirigida por ele, não se impôs em suas últimas apresentações como costumava fazer. Vários jogadores já estavam atuando em nível abaixo do que faziam no ano anterior. Além disso, não se pode esquecer que a pandemia destruiu qualquer continuidade de planejamento para 2020. 
Entendo perfeitamente os torcedores do Flamengo terem alçado Jorge de Jesus à categoria de herói, o que não entendo são os profissionais da imprensa fazerem o mesmo. Canso de ouvir nas mesas redondas que o treinador português quebrou vários paradigmas do futebol brasileiro, o principal deles a de não poupar a equipe titular. A imprensa brasileira que tanto crítica o imediatismo dos resultados que afeta o futebol nacional cai, nas suas análises, na mesma armadilha. O exemplo a ser seguido é daquele que venceu o último campeonato. 
Jorge de Jesus não promoveu nenhuma revolução, a manutenção do time titular sempre foi uma prática no futebol nacional, como pode ser atestado por técnicos brasileiros vitoriosos, como Claudio Coutinho, Telê Santana, Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, dentre outros. A imprensa também se esquece das loas que teceu ao treinador do Grêmio, Renato Gaúcho, quando ele conquistou vários títulos, dentre eles a Libertadores de 2017, poupando os titulares das partidas do Campeonato Brasileiro. E o que dizer de Felipão que atuou ao longo de 2018 com duas equipes e conquistou o Brasileirão?
Taticamente, a linha alta de marcação, também não é uma invenção trazida pelo lusitano. A Seleção de 1970, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê, com as características de preparação física de suas épocas, já atuavam pressionando o adversário. É tão velho quanto o próprio futebol afirmar que o ato de se defender começa pelos atacantes. 
Finalmente, o êxito inegável do Jorge de Jesus ainda trouxe como consequência uma injusta discriminação em relação aos treinadores brasileiros, como se eles nada soubessem. Não quero reduzir a capacidade do treinador português, mas o resultado em seu retorno ao Benfica não foi nada animador, derrota para o inexpressivo PAOK e eliminação na pré-Champions. Será ele é um treinador ruim, desatualizado, desaprendeu? Claro que não! O resultado demonstra que o Benfica não formou, pelo menos ainda, a liga, o amálgama que levou o Flamengo às conquistas de 2019. Jorge de Jesus e o Flamengo de 2019 são um caso excepcional. 
Rapidinha: O Flamengo retornou do Equador repleto de casos da Covid-19 e solicitou o adiamento do seu enfrentamento com o Palmeiras junto à CBF. Sou favorável ao pleito flamenguista, contudo, se aceito, espero que os mesmos critérios sejam adotados para todas as equipes. Os representantes de Goiás realizaram partidas com situações parecidas com a do Flamengo. Isonomia é a palavra-chave!