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Vitória Da Conquista(BA), Sexta-Feira, 21 de Janeiro de 2022 - 16:48
08/01/2022 as 11:45 | Por Luiz Carlos Figueiredo |
O CABOCLO NAMORADOR
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

 
Nos meados dos anos 1950, Mané Doido, o mais famoso morador do Porto de Santa Cruz ao ver a chegada de uma boiada tangida das bandas dos Gerais, quis atrair a atenção dos vaqueiros pulado da mais alta gameleira que ali existia e se estatelou nas águas pardas do rio ficando mais mochilado que a cara de João Pelanca – o matador de porcos da região.  Após ficar em estado vegetativo por quase um mês, a sua pobre mãe acatou a sugestão de levá-lo a um famoso terreiro de candomblé que existia entre o Porto e a Ninheira, situado no norte dos Gerais, onde a curandeira era a famosa Mãe Sinhá de Ogum, temida e respeitada por todos. O rapaz foi conduzido amarrado a um carro de boi (quase um dia inteiro de viagem) e ao chegar todo machucado, bastou a Mãe de Santo batucar os “zói” no jovem Mané (no auge dos seus 17 anos de idade com o seu dorso forte, peito definido, músculos bem delineados, barbudo e com cabelos longos) para que desenvolvesse um “carinho todo especial” pelo garoto dando-lhe um tratamento digno dos ricos coronéis que mandavam na época na região. Tomada as primeiras providencias, Dona Maroca e ele se tornaram habituées do candomblé visando terminar o delicado tratamento. Quando o jovem chegava ao caramanchão no sábado à noite era uma apoteose.  Era sempre recebido com abraços apertados, beijo no cangote, mordiscadas no lóbulo da orelha, cheiros prolongados por todas as partes do corpo, massagens sensuais na titela, terminando sempre com um bocado de passes mediúnicos - onde todos os ossos do infeliz eram estalados. Após a demorada seção de mungangas Mané era conduzido completamente nu (e à vista de uma renca de Filhas de Santo) para dentro de uma grande bacia de madeira, cheia até os “beiços” de água de cheiro obtida do cozimento de ervas. Durante o banho, o garoto tinha o seu corpo demoradamente esfregado pela mãe de santo que ficava um tempão alisando suavemente as suas partes íntimas. Na flor da idade - sem conhecer completamente os prazeres da carne -, o garoto ficava mais duro que pão dormido, e quando era obrigado a sair da banheira naquele estado dantesco, corria desesperado para o meio do terreiro e completamente despido se abraçava a um toco de pau, e, ensandecido, começava a gritar sofregamente, esfregando violentamente a genitália na parte mais cascuda da madeira deixando dona Maroca extremamente desconfiada.  
Depois deste sucedido “Mané Doido” era conduzido quase à força para o “descarrego”. Dentro da camarinha era jogado ainda nu no meio do símbolo de Salomão desenhado em pólvora. Um palito aceso era jogado provocando uma explosão que envolvia completamente o pobre rapaz em uma espessa nuvem de fumaça. Após a queima da pólvora, “Mané” era defumado e entrava em um estado de loucura tão eminente que mesmo todo mochilado, saía pulando pelo terreiro, dando cabriolas, saltos mortais, “plantando bananeira”, dando rolamento, jogando capoeira, colocando a cabeça no chão e rodopiando o corpo feito um pião desgovernado fazendo que os presentes o aplaudissem efusivamente.  
Depois de tomar gosto pelo candomblé, Mané Doido fez literalmente a cabeça, passando oficialmente a receber o Caboclo Zé Pilintra. Na umbanda Zé Pilintra é considerado um bom malandro, alguém que viveu em condições de vida sofrida e que foi negligenciado como ser humano, mas que não guardou rancor em seu peito ao desencarnar. Mesmo após a morte ele ainda acreditava na salvação e a prova maior disso era o sorriso constante que ele levava no rosto. Quando incorporado, a primeira coisa que o caboclo pedia era um copo esmaltado de cachaça cheio até os beiços. Após tomar a conena no fôlego, passava a atender os presentes que formava uma enorme fila, sendo a maioria absoluta de jovens mulheres que se deliciavam com os “passes” emanados do “caboclo”!  
O ritual chegava a ser engraçado. Enquanto três ogãs tiravam um ritmo alucinante dos atabaques, tocando com maestria e graça, as filhas de santo entoavam o cântico das chulas formando uma enorme roda na camarinha. Cada uma das mulheres dançava de forma diferenciada com suas longas saias se entrelaçando aos seus turbantes enrolados cuidadosamente nos longos cabelos. Assim que “Mané Doido” bebia a “talagada” de pinga no copo esmaltado faltava subir nas paredes de tanta excitação. Quando estava com o “Zé Pilintra” incorporado era de se estranhar a quantidade de “filhas de santo” que dançava esfregando o “derriére” nas partes íntimas do rapaz. O assédio era tamanho que na maioria das vezes, era necessário à providencial intervenção de Mãe Sinhá de Ogum, que expulsava as “concorrentes” na base do “sopapo” e se sentindo livre dançava o resto da noite rebolando literalmente no “vai-e-vem” dos quadris de “Mané”!  
Claro que assim que a fama do jovem e sarado “guia espiritual” rompeu as fronteiras da região, começaram a chegar semanalmente verdadeiras caravanas de jovens mulheres -  quase todas casadas – vindas dos Gerais. As filhas de Santo que já tinham que disputar os “prazeres da dança” de Mané Doido com Mãe Sinhá, agora também tinha que suportar uma renca de fêmeas ensandecidas e rebolativa que se derretiam de prazer nos quadris do moço. Quando a moçada de fora começou a demarcar território no candomblé, inevitavelmente surgiu uma onda violenta de ciúmes entre as “filhas de santo” mais antigas. 
Entre elas existia uma nativa linda, de uma morenice brejeira, Jovem, sensual, elétrica e solteira. Das filhas de Mãe Sinhá, Clemildinha era quem mais se aproveitava daquele momento único de excitação e luxúria rebolando de costas nos quadris de Mané. Ela gostava tanto daquele momento que saía literalmente do corpo, atingindo um indescritível prazer! O diabo era que agora com aquela renca de senhoras mineiras, o contato – quando não era completamente cortado – ficava cada vez mais reduzido. Para piorar ainda mais a situação, Jussara a esposa do Coronel Gumercindo dono de uma enorme fazenda para os lados do “Paraíso” começara a pagar toda semana uma considerável quantia em dinheiro à Mãe Sinhá apenas para que pudesse dançar um tempo maior com a “entidade”. Assim, todo sábado, fizesse chuva ou sol, quando a noite começava a comer as fraldas do dia, lá vinha à assanhada da Jussara abrindo os dentes para os lados de Mãe Sinhá que após receber o combinado, deixara até de dançar com a entidade para que a arrelienta da esposa do Coronel Gumercindo pudesse passar a noite “inteirinhazinha” se requebrando nos quadris do jovem cabeludo.
A gota d’água veio quando Clemildinha foi proibida de se remexer nos braços da “entidade” para que Jussara pudesse ter um tempo maior. Chorosa e amuada, a linda filha de santo astuciou um plano tenebroso e após confirmar que a esposa do Coronel fora visitar um parente pros lados da Vila dos Montes Claros, amarrou na barra da anágua todo o sucedido do terreiro, e após acrescentar generosas doses de exagero se pós a apear o lombo da Mula “Da Penha”, e riscando o suvaco e o vazio do animal em uma correria desembestada chegou ofegante à fazenda do Coronel Gumercindo em tempo recorde. 
Assim que desapiou na fazenda foi logo pedindo uma audiência com o famoso coronel e contou até o que não tinha acontecido. Era ela contando e o coronel chorando igual a um bebê. Demasiadamente contrariado o velho Gumercindo pediu ao seu capataz Farofino para dar alguns cobres para Clemildinha e passou o resto da noite em claro astuciando uma forma de se vingar da “traidora”.
Eis que chega o fatídico sábado à noite e mal o sol se recolhia, já parava na porta do famoso caramanchão a indefectível charrete de Jussara vinda diretamente de “Paraíso”, repleta de colegas doidas para se requebrarem nos quadris sensuais do jovem cabeludo, barbudo, sarado e doido.
Após o devido pagamento, as filhas de Mãe Sinhá foram avisadas que aquela noite Zé Pilintra seria exclusivo da moçada que chegara dos Gerais. Após as cabriolas de sempre, Mané tomou a sua costumeira talagada de pinga, recebeu o caboclo namorador e ficou só se divertindo com as ancas carnudas das jovens e lindas senhoras mineiras. Após uma hora de remelexo ao som dos atabaques divinamente tocados pelos ogâns, Jussara se apossou de Mané e dançou com todo o apetite que tinha. Ao se sentir abraçada pela “entidade”, colocou a cabeça no ombro do jovem, fechou os olhos e rebolou com todas as forças que possuía. 
Ali parada no seu canto, encoberta pela fraca iluminação do recinto, Clemildinha clamava por todos os santos para que o Coronel chegasse a tempo de contemplar aquela cena. Com todo o ódio que podia exalar, a jovem fitava a cara de prazer de Jussara, rebolativa e provocante, endiabradamente dançante, fogosamente agarrada ao corpo de Mané Doido que às vezes entrava um no outro como se os dois fossem apenas um. Quanto mais Clemildinha olhava, mais ódio sentia da concorrente, ali, na sua frente, em êxtase, dançando com o seu “santo de devoção” e com um largo sorriso de prazer no rosto. 
Quase meia-noite a entidade aí enroscada no sensual corpo de Jussara, o silencio da noite cortado literalmente pelo som dos atabaques e das palmas das filhas de santo e a sensualidade do casal esvaindo no centro de uma roda formada pelas amigas da esposa do Coronel e das filhas de santo que entendiam que o caboclo namorador precisava daquele “momento energético” para repor as baterias... 
De repente se ouve um barulho de uma porta sendo arrombada e entra furiosamente o valente e famoso Coronel Gumercindo, devidamente acompanhado por uma renca de babões armados de tudo quanto há (atendendo as preces de Clemildinha) flagrando o rebolativo show da sua querida esposa no “vai-e-vem” dos sensuais quadris de Zé Pilintra/Mané Doido! 
- Jussarinha, meu bem, que diabo é isso?  - Pergunta desnecessária de alguém que teimava em não enxergar o que os seus olhos teimavam em mostrar. - Nada. – Respondeu a trêmula Jussara - Não é o que você está pensando! 
- Você virou puta, minha esposa?  Está parecendo às quengas do cabaré de Ana Calanga!  Larga deste home, agora, vá!
- Ôxe, home! Me respeita! Este aqui é o Caboclo Zé Pilintra!  - Falou Jussara ainda tentando impor algum respeito. 
– Apôis eu vou mostrar pra este caboclo namorador que ele buliu com a muié errada! Quebra tudo, Cabruêra! – Foi mandar e os quebra-facas sentaram a pua! Meteram os cacetes em tudo que viram pelo caminho. 
Olha gente. Verdade seja dita. Eu não vi, mas, quem estava lá naquele momento contaram que a chegada dos homens foi um “estrupício”. Já foram entrando quebrando na base do cacete o que acharam pela frente. Portas, panelas, potes, quadros, candeeiros, os “cambaus”... Caco pra todo lado! Desceram o porrete com vontade, e, só se viu as “filhas de santo” correndo para o mato. Quem mais apanhou foi a pobre da Mãe Sinhá que ficou moída de pancadas.  O que ninguém entendeu, foi porque na hora que a coisa ficou “preta”, “Zé Pilintra” todo malandro incorporado em “Mané Doido” foi o primeiro a pular a janela e cair literalmente no matagal correndo para um lado, enquanto “Mané” desesperado, corria para o outro. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Jussara continuou casada, embora vigiada dia e noite por Farofino. O famoso terreiro de candomblé se mudou da região, e Mané nunca mais quis receber o famoso caboclo Zé Pilintra, entrando de vez para a Igreja católica, passando a ser o condutor oficial da santa Cruz nas procissões da Igreja do Porto! Quanto ao Coronel teve uma crise de amnésia se esquecendo completamente do sucedido! Gumercindo morreu anos depois...  feliz nos braços da sua amada Jussara.
FIM
Luiz Carlos Figueiredo
CSALES, BA. Minguante de Primavera. Quadras de Janeiro de 2022.
Texto originalmente publicado em 2012 no livro “As Extraordinárias Histórias do Porto da Santa Cruz”!
 




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