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Vitória Da Conquista(BA), Sexta-Feira, 21 de Janeiro de 2022 - 17:37
27/11/2021 as 11:48 | Por Luiz Carlos Figueiredo |
“O DESEMBRIAGADOR”
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Em meados dos anos 1970 uma das profissões mais promissoras da nossa região, era a de curador. É... O tal do curador ganhava mais dinheiro na época que experientes farmacêuticos. Neste tempo existia até uma ou outra farmácia (cujo nome da placa ainda era escrito com ‘ph’) como Seu Ubaldino, Seu Rufino, Dona Rosa, Humberto, etc... Porém, nego só procurava este tipo de drogaria quando precisava comprar biotônico Fontoura, cibalena, esparadrapo ou tomar uma injeção (geralmente de penicilina) para combater furúnculo! Já o curador, não. Este era verdadeiramente um “mestre” na arte de curar quase todas as mazelas da vida, desde a famosa “dor de cotovelo”, até baço inchado ou “espinhela caída”. Alguns eram até multifuncionais, desenvolvia com relativa competência o ofício de rezador, benzedor, adivinhador e muitas vezes alquimista (afinal de contas tá pensado que é mole misturar aquela renca de raízes e folhas de plantas diferentes dentro do mesmo caldeirão e tirar de lá, completamente engarrafado um composto homogêneo pronto para curar todos os males de um corpo morrinhento? Não é não. A coisa é preta).

À medida que o tempo foi passando, a classe começou a se sofisticar e alguns até se transformaram em guia espiritual saltando diretamente das benzeduras (utilizando para isso folhas de arruda ou pião roxo) para as adivinhações através do baralho, água benta, da agulha virgem, do pó de serra e até do pó de café.

Daí, curadores como João Braúna, Mãe-da-Ilha, Seu Sena, Antônio Facho, Dona Edite e outros menos cotados “lavavam a égua“ à custa dos que os procuravam para resolver um ou outro problema. O “responsadô” enchia logo uma bacia esmaltada com água, colocava sobre ela uma agulha donzela e assim que o artefato afundava ele dizia enxergar o exato lugar onde estaria o objeto perdido. Acertava quase sempre – sabe Deus como. Além de receber antecipadamente o valor da consulta, ainda ganhava logo na manhã do dia seguinte uma galinha gorda ou um graúdo capão de presente para fazer um molho pardo. Marido safado que caía na bestagem de trocar a esposa mais velha por uma novinha em folha, geralmente se dava mal. As esposas já sabiam que bastavam procurar algumas destas “tendas de curador” para que logo no dia seguinte o caboclo voltasse sem lenço e sem documento pra casa, todo rastejante – muitas vezes literalmente – completamente debilitado. Quando o pobre coitado chegava mais desconfiado que cachorro em bagageiro de bicicleta, levava logo uma boa surra da patroa à vista de todo mundo e ficava completamente desmoralizado. Separação (ou ajuntamento) de casais era muito comum, bastava à parte interessada comparecer com a quantia exigida para que a harmonia perdida retornasse galopando para o seio do antigo lar!

O Curador Antônio Facho diante da enorme concorrência viu-se obrigado a se reinventar desenvolvendo a arte dos “benzimentos” de propriedades rurais, fazendo que as suas rezas tangessem as cobras existentes (que se divertiam picando o “calcanhar” de um boi ou outro) para bem longe dali. Assim, o velho rezador chegava à fazenda todo paramentado e após subir na cancela (geralmente ao lado do fazendeiro – precisava causar uma boa impressão) que dava acesso à fazenda, fazia logo uma renca de mungangas acompanhados com o “pelo-sinal” e após uma reza ininteligível, era possível testemunhar por mais de duas horas uma surreal procissão de cobras de cores e tamanhos diferentes (caninana, cascavel, coral, patrona, jaracuçu e até jiboia) rastejando tranquilamente em fila indiana para às terras da vizinhança. O dono da fazenda ficava satisfeito e Antônio Facho abarrotava os bolsos.

Seu Sena, depois de perceber que a concorrência estava se acirrando, desenvolveu o – até então inédito – método de “desembriagar” os viciados em meizinha. Diariamente chegavam caravanas e mais caravanas de bêbados para serem curados pelo velho rezador. O método dele era pra lá de ortodoxo. Fingia que era amigo do caboclo, abria dois litros de conena e depois de solverem gulosamente o conteúdo dos litros, o coitado completamente mamado começava a extravasar os seus “sentimentos reprimidos”, ou seja, aqueles tradicionais jeitos e trejeitos que só os bêbados têm. Era aí que o velho curador entrava em cena. Aproveita-se da situação do coitado e lhe aplicava uma pêa tão caprichada (com um grosso cordão de São Francisco) que o infeliz faltava morrer. Quando o efeito da conena passava, o pobre completamente marcado pela surra – muitas vezes sem, sequer se lembrar do sucedido - desistia de vez da empreitada e nunca mais colocava um copo de pinga na boca. 

Assim que a propaganda boca-a-boca (sem trocadilhos) começou a surtir efeito, começara a vir caravanas de “bêbados” até dos estrangeiros empanturrando a porta da casa do famoso curador. Seu Sena ganhou tanto dinheiro que comprou uma fazenda enorme.

Na época a nossa cidade era famosa por ter uma renca de “bêbados de estimação”, o mais famoso destes bêbados era o mecânico Zé Corró – o pai de Lolozinho. Zé Corró era um conceituado pai de família, um profissional tão bom quanto Loló (o seu filho) e bebia duas vezes mais que Lolozinho - que muitas vezes bebe por até 48 horas ininterruptas.

Nos meados de 1991, Cândido Sales foi tomada por um terrível temporal e Zé Corró quase que “esticou as canelas”. O vento que nos atingiu foi tão forte que além de levar mais da metade dos telhados das casas da cidade, derrubou muros, tirou prédios do prumo, e arrancou pelas raízes mais de uma dúzia de árvores adultas. Não é que este temporal pegou Zé Corró com a calça na mão pra lá de embriagado bem no centro da cidade? Pois foi. Pegou e o arrastou por quase um quilometro fazendo que o seu pequeno corpo saísse se chocando violentamente contra muros, árvores, portas, barracas e até postes de cimento.

Apesar de sair sem um arranhão deste acidente (dizem que Deus protege os bêbados), a família ainda em estado de choque se reuniu no dia seguinte e lhe deu um ultimato: Ou ele deixava a cachaça de lado ou a família o deixaria definitivamente e se mudaria da cidade. Sem alternativas, o jeito foi Zé Corró aceitar se consultar com o temido Véi Sena.

Uma tarde tão linda de sol e lá foi Zé Corró (acompanhado de toda a sua família) ter uns dois dedinhos de prosa com o famoso Pai de Santo. Ao chegar, ele já foi convencido a tomar uns três ou quatro litros de conhaque na ilustre companhia do curador (segundo as más línguas, esta interação entre curador e curado era tiro e queda para o sucesso da cura). Conversa vai, conversa vem, a tarde se foi, entrou a noitinha e quanto mais Zé Corró bebia, mais falante ficava. Chegou o momento que ele passou a achar o Véi Sena a melhor pessoa do mundo. Abraça aqui, baba ali, beija acolá e entre um trago e outro Zé Corró deu de falar:

- Então, caba réi! És tu que vais tirar a minha cachaça, é?

- Ôxe! Eu sô lá home de tirá cachaça de ninguém, home? Quem vai lhe “desembriagar” é o meu “cordãozim” de São Francisco que daqui a “poquim” vai istalá o seu lombo!

Quase meia noite, os dois já completamente “medicados” e o curador completamente trôpego se invocou de dar uma bela de uma pisa em Zé Corró! Tropicando nas próprias pernas pegou o cordão de São Francisco e estalou na direção do mecânico. Pra que? Quando Zé viu o estalido do famoso cordão, deu um salto igual um gato e já foi babatando este cordão das mãos do rezador e depois de jogá-lo no chão, botou um dos joelhos nas costas do véi e lhe aplicou uma surra tão violenta que quem assistiu ficou até com pena do pobre curador! No escuro da noite, em meio à neblina tudo o que se ouviam eram a chibatada comendo e os berros desesperados do curador:

- Socorro! Tira este homem daqui! Leva este satanás embora! Ninguém tira a cachaça deste cão não! Socorro! Me acode! Socorro! Tira ele daqui!

- Toma, toma, toma fí da peste! – gritava Zé Corró descendo a “pêa” no curador que gritava mais que filhote de caga-sebo:

Resultado: a turma do “deixa disso” interviu separando cada “santo” para seu lado e Zé Corró ainda teve a petulância de levar como recordação o cordão de São Francisco do curador. Depois deste sucedido, o Pai de Santo pra lá de desmoralizado mudou-se de mala e cuia no meio da noite. Nunca mais voltou a dar por estas bandas.  Quanto ao Zé Corró, voltou bebendo o dobro do que bebia e a partir desta data não podia ver uma chuva caindo que já fundava no meio, caminhando pelas ruas estreitas da cidade, gritando a pleno pulmões:

- Tá “bêba”, égua?

 

FIM

Luiz Carlos Figueiredo.

Escritor e Poeta

CSales, BA. Quadras de Novembro de 2021. Minguante de Primavera.



 




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