Fotografo: Reprodução
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Divulgacao

O feitiço pode virar contra o feiticeiro!
 
Luiz Henrique Borges
 
 
O Brasil passará para os anais da história como um estudo de caso em relação à pandemia do Coronavírus. Mas, nada de ilusões, caro leitor, este não será um case de sucesso. As más lições também servem de aprendizado e estamos ganhando, a cada dia, um arsenal de novos exemplos, o maior dos quais é a incapacidade dos nossos governantes de criarem uma linguagem e um direcionamento único para o enfrentamento das emergências que nos afligem. Essas autoridades parecem estar em uma bizarra arena, “brincando” de cabo de guerra, no qual, a corda, que aos poucos se desfaz, é a vida da população. A ausência de orientação segura levou a que muitos se mostrassem despreocupados com o vírus e entendessem o isolamento social como uma antecipação das férias. Atitude que reduziu os efeitos das medidas de afastamento.
Vamos ao retorno do futebol carioca. Na Europa, aos poucos, os jogos foram retomados. Primeiro, na Alemanha, exemplo de combate à Covid-19. Portugal, Espanha, Itália, dentre outros, seguiram esse caminho. Todos esses países, em algum momento, combateram de forma séria a pandemia que também aportou em seus territórios antes de chegar ao Brasil. Nada mais natural, seja pela questão temporal ou pela adoção de medidas duras e de controle, que estivessem, senão livres, ao menos com a pandemia sob controle.
Ainda assim, um alerta acendeu a luz amarela. Montenegro, pequeno país do conflituoso Balcãs, estava livre da pandemia, passou duas semanas sem novos registros, porém após o retorno do futebol, registrou nove casos de contágio (espera-se ainda por outros) e segundo as autoridades do país, a presença da doença ocorreu em razão de uma partida disputada na vizinha Sérvia com presença de público. Neste último aspecto, até o momento, tal insanidade, se paira nos pensamentos dos dirigentes, ainda é de forma velada.
Por aqui, vivenciamos diversas crises políticas sérias em um momento tão delicado. A ciência foi desacreditada. Ouvi discursos marcados pela falta de empatia e respeito com as vítimas e seus familiares. O placar final desse primeiro jogo bruto: vitória de goleada da pandemia. Por mais adverso que seja o placar, a esperança na inversão do resultado permanece, uma vez que o “campeonato” ainda não finalizou. A vacina se desenha no horizonte.
Agora, o futebol carioca, folclórico por suas competições mal organizadas, por denúncias de corrupção, gerenciado por dirigentes compromissados apenas com os seus projetos econômicos ou políticos, retrato fiel da sociedade brasileira, resolveu retornar o campeonato carioca e contou com o apoio de Flamengo e Vasco, além dos pequenos clubes do Rio de Janeiro. 
Se o rubro-negro carioca se tornou, ao menos aparentemente, um exemplo de gestão do futebol, o que lhe gerou importantes títulos, em outros aspectos mostra carecer de empatia, de humanidade e de ética. Como disse meu amigo Leonardo Valadares sobre o retorno do Campeonato Carioca: “Se já não bastasse a conduta deplorável no caso dos adolescentes que morreram por negligência nas dependências do clube, agora temos mais essa. Lastimável!”. 
O Vasco da Gama mancha sua gloriosa história de combate ao racismo e de respeito à ideia do “homem universal”, ou seja, aquela em que todos os seres-humanos são iguais, adotando posição semelhante ao do seu rival. 
Na primeira partida disputada, viu-se a vitória incontestável do Flamengo sobre o Bangu, e exemplos de desrespeito ao “novo normal”. Os treinadores das duas equipes foram flagrados dirigindo suas equipes, na beira do campo, sem suas máscaras. Os atletas se abraçaram no momento dos gols, por sinal, orientação descumprida em quase todos os países em que o futebol retornou.
Também foi muito triste, mas necessário, comemorar os 70 anos do Maracanã sem o seu ator principal: a torcida. Ao menos aqui, o bom senso prevaleceu.
Botafogo e Fluminense tentaram, na arena judicial, com pouco sucesso, suspender os seus retornos aos gramados em junho. Não seria possível o consenso entre os clubes em relação à data? Pobre futebol brasileiro, dirigido com inépcia, irresponsabilidade e pouco profissionalismo. Se o Flamengo possui os recursos para realizar as testagens em seus atletas, será que os grandes clubes endividados e os pequenos possuem tal capacidade? Realizar os exames é fundamental, mas eles não garantem a saúde dos atletas que não estão imunes à pandemia e deveriam ser vistos, por um lado, como seres-humanos e, por outro, como importante ativo dos clubes. Um atleta infectado e, torcemos que isso não ocorra, com algum comprometimento maior, não poderá representar uma perda muito maior para seu time? Cuidado, o feitiço pode virar contra o feiticeiro!