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Divulgacao

O futebol e a desigualdade nos gêneros 
 
Luiz Henrique Borges
 
Ao contrário do pensamento de alguns, que costumam interpretar os programas sociais como artifícios de perpetuação no poder por parte dos que os ocupam e ainda adotam discursos que culpabilizam as vítimas, ao dizerem que elas são preguiçosas e que preferem se encostar nas magras benesses “dadas” pelo Estado que trabalhar, devo lembrar, primeiro, que tais benesses são direitos à cidadania e que, os avanços sociais obtidos pelas chamadas minorias são quase invariavelmente conquistados, ou seja, dependem de resistência e de luta.
Neste momento, o leitor pode pensar: “O cronista enlouqueceu, deveríamos tratar de futebol e não de política”. Calma! Permita-me explicar. Na vida real, todos os campos que fazem parte das construções humanas estão interligados e, em poucos espaços, veremos essas ligações, de forma tão clara, quanto na participação das mulheres na arena esportiva, particularmente, no futebol.
Historicamente a beleza, a maternidade e a feminilidade são aspectos muito ressaltados quando se trata do universo feminino, inclusive nos esportes. Há maior preocupação em falar de seus corpos e aparências do que em suas trajetórias, conquistas e frustrações.
A história da mulher no universo esportivo é marcada por rupturas, transgressões, avanços e recuos. Enfim, sua participação nesse espaço não foi concessão, mas conquista. São movimentos de resistência e de luta.
A natação foi das primeiras práticas a inserir as mulheres. A partir de 1910 elas poderiam ser não apenas praticantes como também competidoras. O atletismo foi outro espaço pioneiro para o “sexo frágil”. O ciclismo, por sua vez, era tido como um esporte masculino, elas poderiam “andar de bicicleta”, mas não competir. No futebol, a realidade foi ainda mais excludente e marcada pelos estigmas.
No Brasil, as primeiras referências de jogos de futebol disputados por mulheres são da década de 1920, mas seus confrontos não eram entendidos como partidas, mas como performances, como shows. Em 1940 ocorreram jogos entre mulheres no Pacaembu, por exemplo. Mas, o resultado não foi fomentar a prática. A visibilidade gerou, na verdade, revolta em parte da sociedade e culminou, em 1941, na sua proibição. Mesmo sem tratar nominalmente do futebol, o decreto-lei federal 3.199 em seu artigo 54 dizia que as mulheres não deveriam praticar esportes que não fossem adequados a sua natureza. Em 1965, ficou expresso que a prática do futebol lhes era vedada. 
Neste período, a luta das mulheres por reconhecimento e direitos iguais aos dos homens proliferaram em todos os espaços sociais. No futebol, elas praticavam o esporte de forma clandestina, contudo, em virtude das proibições, os registros são muito escassos. Enfim, em 1979, foi revogada a lei que as proibia de jogar futebol.
Isso não significou uma mudança radical na realidade do futebol feminino, uma vez que elas continuaram a não receber estímulo dos clubes, das federações e até dos torcedores. Além disso, não devemos esquecer o quão machista e agressivo era o espaço dos estádios para a torcida feminina. 
A prática do futebol pelas mulheres foi regulamentada em 1983 e, aos poucos, a bola – substantivo feminino – pode ser agraciada com a habilidade e a arte das atletas. Finalmente, em 2019, assistimos o início de uma nova realidade no futebol nacional. A partir desse ano, todos os participantes da Série A do Brasileirão deverão, obrigatoriamente, manter um time de futebol feminino – adulto e de base.  
Obrigatoriedade! Ora, isto denota, tanto a resistência por parte de alguns à prática do futebol feminino, quanto o desinteresse por uma atividade que aparentemente não se mostra tão lucrativa. 
A distância entre o universo masculino e feminino na prática do futebol ainda é gritante. Um bom exemplo é a questão salarial. A melhor equipe do mundo feminina é o Olympique Lyon da França. As jogadoras de seu elenco recebem, somado, salários inferiores ao que recebe o melhor jogador da equipe masculina, que sequer é um dos astros do futebol mundial. A principal estrela da equipe, a norueguesa Ada Hegerberg, recebe 400 mil euros/ano, valor que jogadores medianos do Campeonato Brasileiro conseguem auferir.
Futebol é negócio, engana-se quem pensa de forma diferente. O local do romantismo é na pelada do final de semana. É fundamental que o futebol feminino ganhe visibilidade, o que acarretará em maior audiência e patrocinadores interessados pelo produto. Desta forma, os salários pagos poderão se elevar.
Mas, se as mulheres conquistaram, no futebol, espaço em um universo masculino, o caminho para a igualdade se encontra apenas em seu início, a trilha ainda será longa e com obstáculos, mas certamente, com perseverança, luta, resistência, inteligência e habilidade, o fosso aberto pelas diferenças irá se reduzir e que tal ação se espraie, sempre, por toda a sociedade e em todas as suas atividades. Nós só ganhamos com a presença feminina.