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Vitória Da Conquista(BA), Sábado, 28 de Novembro de 2020 - 13:30
24/10/2020 as 12:04 | Por LuizHenriqueBorges | 1168
O ídolo não pode ter pés de barro
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Os meios de comunicação, em particular no século XX, tais como o cinema, o rádio, a televisão e mais recentemente a internet permitiram que vários personagens, dentre eles os atletas, fossem alçados à categoria de ídolos. A palavra é originária do grego eídolon, transformou-se em latim para idolu. Ela indica objeto, entidade ou pessoa por quem se tem fortes sentimentos de afeição, por vezes até exagerado, em virtude das qualidades que lhe são atribuídas.

Por ser admirado e copiado, as qualidades do ídolo reverberam os aspectos valorados positivamente pela sociedade ou, ao menos, do grupo que o idolatra. Tal como os antigos heróis gregos, esses ídolos contemporâneos também são percebidos como semideuses e, em alguns casos, até como Deus, não nos esqueçamos da Igreja Maradoniana na Argentina. Na antiguidade ou na contemporaneidade, os heróis veiculam valores, tais como coragem, força, honestidade, inteligência, cordialidade, entre outros atributos.

Os ídolos se transformam em figuras públicas e a imagem que eles emanam passam a ter uma grande importância social e isso acarreta em muitos bônus e alguns ônus. Dentre estes, ressalto a importância e necessidade do ídolo, do herói, desse semideus, de cuidar ininterruptamente da sua imagem. Ela não deve sofrer qualquer arranhão, quanto mais uma rachadura e para isso, além da conduta ilibada é preciso que o ídolo esteja sintonizado com os valores, sempre em transformação, da sociedade em que se encontra inserido. Seus pés precisam de alicerces bem construídos, fortes, jamais feitos de barro.

Escrevo as crônicas, para serem publicadas aos sábados, com alguma antecedência. Deixo mais que um esqueleto pronto e faço as últimas inserções, quando necessárias, na véspera ou no dia da publicação. Por que estou ressaltando isso? Na última semana abordei o caso do jogador Robinho, contudo, ainda não tinha ouvido os repugnantes relatos que estão presentes no processo pelo qual ele já foi julgado e condenado em primeira instância na Itália. Além disso, durante o final de semana o atleta foi entrevistado e deu sua versão para o caso, atitude democrática e justa, uma vez que todos tem o direito à defesa.

A entrevista foi tutorada por seus advogados que, em vários momentos, impediram que as perguntas fossem realizadas como foram idealizadas e nas intervenções buscavam, nas palavras de uma das profissionais da imprensa ali presente, intimidar e conduzir o que deveria ser respondido. Esse tipo de estratégia, ao meu ver, mais prejudica do que ajuda a esclarecer os fatos.

O jogador brasileiro se disse perseguido pela imprensa. Desculpa recorrente. Esclareça-se que um dos papéis da imprensa é causar desconforto ao levantar e questionar os acontecimentos. Cabe a imprensa pesquisar, escarafunchar, elaborar perguntas fáceis, difíceis e até espinhosas de serem respondidas.

Robinho ainda destilou seu rancor ao movimento feminista. Aqui tenho uma leve concordância com o atleta quando ele afirma que: “Infelizmente, existe esse movimento feminista”. Sim, infelizmente, mas permita-me expressar minha opinião. A sua existência é fruto e reflete o machismo e a desigualdade de gêneros que perdura em nossa sociedade. Se ela fosse mais justa, se as mulheres, assim como outras minorias, não sofressem vários tipos de violência rotineiramente, se não fossem desqualificadas, teríamos uma sociedade mais igualitária e talvez, tais movimentos, sequer precisassem existir. Se o movimento feminista existe, caro Robinho e demais leitores, é porque não alcançamos tal estágio, porque elas continuam sendo oprimidas e desvalorizadas, infelizmente.

No decorrer da entrevista, o atleta afirma que o “X” da questão é saber qual é o crime que ele cometeu. Ora, tal argumento não passa de uma tentativa de vitimização, uma vez que o crime pelo qual ele é acusado, e já há uma condenação, está claro no processo. Jogos de palavras e vitimização não são suficientes, o atleta precisa provar, de forma inequívoca, sua inocência.

Aproveito a oportunidade para uma reflexão. A moça que acusou o jogador brasileiro é da Albânia, ou seja, ela também sofre com os preconceitos e a xenofobia dos próprios europeus. Os albaneses não têm o mesmo “status civilizacional” de um europeu ocidental. Nesse sentido, me pergunto se a vítima fosse italiana, francesa, alemã, a repercussão não seria ainda maior?

Em dezembro assistiremos o julgamento em instância superior e ainda há na Itália o recurso a terceira instância. Independente do resultado, a imagem do jogador, do ídolo, foi comprometida, foi rachada. Seus pés são de barro.

A figura pública precisa, muito mais do que nós, redobrar os cuidados com sua imagem. O ídolo é referência para milhões de pessoas e se isso rende muitas vantagens, inclusive monetárias, em compensação seus atos ganham uma repercussão imensa. Ninguém quer aliar suas marcas e ideias a ações que são reprováveis. Vou dar um singelo exemplo. Em 2006, ao defender o mestrado sobre a construção do discurso do Brasil como país do futebol, terminei a apresentação com o vídeo das pedaladas do Robinho contra o Corinthians, na final do Brasileiro de 2002. Era um exemplo do futebol-arte, do estilo do nosso futebol. Hoje, ao elaborar nova apresentação, inevitavelmente escolheria outro encerramento, retiraria o vídeo com os dribles do jogador, que não deixaram de ser encantadores, mas o ídolo, o exemplo, desmantelaram e é impossível separar as duas esferas.

Finalmente, o atleta, em tom rancoroso, afirmou que sendo inocentado na segunda instância gostaria que todos os que o atacaram lhe pedissem desculpas. Se alguém precisa se desculpar, independente do resultado, é você, Robinho. Foi você e somente você que criou tal imbróglio, foi você que rasgou as vestes de ídolo, foi você que não teve o cuidado de preservar a sua imagem pública, foi você que discursou contra os movimentos feministas, foi você que destilou comentários infelizes e que desqualificam as mulheres. A sociedade, que se quer mais justa, não admite mais tais comportamentos. A luta por igualdade continua! Viva os movimentos feministas! Viva os movimentos raciais! Viva os movimentos por igualdade de qualquer minoria! O futebol não está alheio à discussão.

 

A




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