Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

O LINGUÔMETRO
– Tchutchuca é a mãe, é a vó.
–  “Parasita” é a mãe, é a vó!
–  Não, Parasita é o Oscar, o melhor filme do ano.
– Os funcionários públicos ganharam o Oscar?
–  Parem! Desculpem. Está tudo fora do contexto. Eu não disse isso. Sim, disse, mas não disse. O contexto era outro.
–  Sempre o contexto. O Chefe já avisou que não fala mais pela manhã. Publicam sempre suas declarações fora do contexto. Para comemorar ele distribuiu bananas para os presentes.
–  Uma start up do Vale do Silício desenvolveu, a pedido do Trump, aparelho que o político pode usar no bolso e que quando o portador exagera nas besteiras que está falando ele dá um pequeno choque de advertência na ponta da língua do portador. O choque vai aumentando se o cara continua a falar merda. É o tongueshitmeter.
–  Por aqui, ia ter muita gente morrendo eletrocutada por via oral.
–  Não tenha preocupações, logo inventarão um enxaguante bucal com um aditivo elétrico-isolante. Uma espécie de fita isolante líquida para boquirrotos incorrigíveis.
–  Você acha que desta vez o país sai do buraco?
–  Ora, vale a pena tentar. A Reforma da Previdência foi um ganho. A Tributária está difícil, mexer com 27 estados é rosca, veja a PEC Paralela, mais parece a PEC Divergente.
–  E a nova CPMF, passa?
–  Fala baixo, não fala assim. O Chefe pode entender. Chame de ITF. Seria uma saída meter a mão no bolso de todo mundo. Basta respirar que é taxado várias vezes ao dia. Mas até o povão ignorante já percebeu e está gritando. E o Chefe quer ficar mais tempo, né? O jogo é tentar trocá-la pela desoneração da folha de pagamentos.
– Ouvi dizer que essa desoneração é para aumentar a oferta de empregos, é verdade?
– Papo! Esses custos as empresas repassam nos seus produtos, além disso, não há estudos que comprovem essa conversa de mais vagas. O que as empresas precisam é de clientes. O que se quer mesmo é a CPMF.
–  Mas trocar bananas por batatas, isto é, seis por meia dúzia, não resolve nada.
– Você não entendeu. O jogo é trocar a arrecadação dos tributos incidentes na folha de pagamentos pela CPMF, trocar 6 por 6000. É tirar o Coringa da manga (o Oscar outra vez).
– Você acha mesmo que a Reforma Administrativa, ferrando os funcionários públicos, vai equilibrar as contas do Brasil? Afinal, descobriu-se o grande culpado?  Os funcionários públicos são realmente marajás, como falou, há tanto tempo, o Collor?
– Só quem recebe boa remuneração no Serviço Público são os indicados por políticos, os não concursados, funções provisórias, competências não comprovadas. Cheios de pompa e mordomias. A turma de carreira, que entrou por concurso, na média ganha miséria, eu sei. O certo seria modernizar as rotinas administrativas, informatizando-as, racionalizando-as, e pouco a pouco ir adequando o quadro. A campanha na TV contra o funcionalismo, com a Globo e tudo, vai tentar mostrar que a qualidade da saúde, da segurança, da educação, dos transportes, de tudo que está errado é desta turma de “parasitas”. Fake News pura, na veia.
– Mas pra que isso?
– Porque isso vai dar um blá, blá, blá sem fim e vai haver um burro em quem colocar a canga do fracasso das medidas que parece que não vão chegar ao esperado.
– Isso não te parece ser muita maldade, uma baita de uma sacanagem?
– Porra! Eles querem mais o quê? Já ganharam o Oscar, e isso é quase um Nobel da Economia!
– Só mais uma pergunta. No caso das domésticas que foram para a Disney, o lingômetro funcionou?
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Fev. 2020