Fotografo: Reprodução
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Sem Legenda

Domingo passado, o velho Maraca teve mais um dia de glória nestes seus quase setenta anos de existência. Neles viveu, e nós com ele, grandes tristezas e inumeráveis alegrias. Certamente a marca indelével foi a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, logo após sua inauguração. Poucos são, hoje, os sobreviventes àquele desastre que nos conscientizou do nosso, hoje já superado, “complexo de vira-latas”. Ainda assim, passarão os séculos, mas o gol de Ghiggia estará instalado na memória dos brasileiros desde o nascimento, é hereditário. Houve o contraponto: foi nessa mesma Copa que surgiu o grito de “Olé”, nos estádios do mundo, no jogo Brasil e Espanha, quando os nacionais golearam os ibéricos, num desempenho perfeito. Lembranças! O doce-amargo do futebol.
 
Mesmo nos campeonatos locais e interestaduais assistimos ali, a cada fim de semana, jogadas memoráveis de Pelé, de Garrincha, de Zico, de Gerson, de Didi e de tantos outros. Naquela época esses nossos artistas não eram vítimas da diáspora que os leva para o exterior ainda garotos, quase imberbes. O nosso Maracanã, então maior estádio do mundo, foi palco de inesquecíveis alegrias, que suplantaram muito as lágrimas vertidas.
 
O Maracanã é, por si mesmo, um espetáculo à parte. Mesmo vazio, impressiona. A renovada arena esportiva, quando completa de público, leva ao êxtase antes mesmo de a bola rolar. O estádio é reconhecido como um dos mais importantes para a prática do futebol, mas é também um teatro que valida ou que pode destruir reputações, não apenas de atletas, de árbitros, de técnicos e de todos que permanente ou eventualmente façam parte do espetáculo.
Os apupos debochados das dezenas de milhares de indivíduos ecoam em uníssono nos círculos concêntricos que formam a sua estrutura e são fatais para suas vítimas. O público não economiza garganta para mostrar seu desagrado.
O saudoso Nelson Rodrigues dizia que “o Maracanã vaia até minuto de silêncio”. Vaia, mas também aplaude. Ri e chora. Exalta-se e se acabrunha. Em nenhuma outra circunstância se pode ver, com tanta clareza, a reação das massas.
Domingo, o estádio recebeu a visita do Presidente da República e de alguns de seus ministros. Todos embecados nos melhores ternos de seus guarda-roupas. O inverno ajudou a mostrar a elegância e a distinção oficial. Com certeza, o que se procurou foi destacar visualmente o Presidente e seu entourage no ambiente. Claro, Bolsonaro, que sempre se tem notabilizado pelo despojamento nas atitudes e no trajar, estava a trabalho, em missão, pelo menos, oficiosa.
A decisão da Copa América teve o desfecho previsto. Tenho para mim que o grande sucesso do futebol, como o esporte mais popular do planeta, está na grande imprevisibilidade dos resultados: cada partida é uma partida e o time reconhecido como melhor, com grande frequência, não é o vencedor. Essa imprevisibilidade elevada é que o torna tão popular. Essa pitada de jogo de azar, de loteria é atraente.
 Presidente comparecer ao Maracanã em jogo decisivo da Seleção é correr grande risco de ser vaiado. Dos presidentes que me lembro, Médici era o que se fazia mais presente aos embates de futebol e fazia questão de popularizar seu interesse apaixonado pela seleção, a tal ponto de ter tentado interferir na convocação dos jogadores e ter recebido do então técnico, a reprimenda nos termos: “o presidente escala os ministros e eu escalo os jogadores”. Naquela época dos anos 70, os governos se empenhavam nos resultados da Seleção, como questão de estado. Um erro, que hoje já não ocorre.
Bolsonaro levou consigo a parte mais expressiva do governo para o teste de popularidade no Maracanã. Obteve aplausos, vaias e até xingamentos. A maior parte foi de aplausos. Teve a coragem de se expor e isso é bom para a democracia.
O Maracanã transformou-se assim num IBOPE ao vivo e em cores. Pena que, com o ingresso tão caro, o povão esteja afastado das arquibancadas e a amostra estatística não foi tão representativa, quanto teria sido desejável.
Crônicas da Madrugada. Danilo – Jul.2019