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Vitória Da Conquista(BA), Domingo, 24 de Janeiro de 2021 - 06:52
09/01/2021 as 14:30 | Por Luiz Henrique Borges | 1053
O triunfo na derrota
Artigo Esportivo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Recebo em minhas redes sociais os mais diversos tipos de postagem e há aquelas que me chamam atenção. Algumas delas gostam de desvalorizar as narrativas e se apegam aos números, como se eles fossem fatos que retratassem a verdade de forma inquestionável. Os que assim agem, na tentativa de transformar suas teses em leis, jamais estudaram estatística e, provavelmente, desconhecem que eles, os números, podem ser manipulados e precisam ser interpretados, ou seja, passam pelo processo narrativo. Por exemplo, semana passada recebi a informação que os alunos de letras tiraram nota inferior em português que os de engenharia. A pessoa que postou, ex-aluno do curso de letras, criticou a falta de aulas de gramática. Entendo e considero justa a crítica realizada. No entanto, faltou em seus argumentos, baseados apenas nos números, refletir, por exemplo, sobre o extrato social e nível educacional dos acadêmicos que cursam engenharia e aqueles que estão na licenciatura de letras e a partir daí inferir sobre a formação desses alunos antes de entrarem no ensino superior. O problema se encontra no nível superior ou na educação de base? Enfim, muitas análises e cruzamentos de informações devem ser realizadas antes do veredicto ser decretado.

Por que tal introdução? Não é uma crônica de futebol? Você tem razão em questionar, mas quero chamar a atenção que as narrativas são extremamente importantes e não podem ser desconsideradas em nenhum espaço humano, inclusive no futebol. Vocês sabiam que muitos combatentes ingleses na I Guerra Mundial pensavam o conflito em termos esportivos, como se eles fossem disputar um grande jogo? É uma narrativa que ajuda a explicar o espírito dos ingleses que se dirigiam para uma das maiores catástrofes da história da humanidade. No futebol, particularmente, a narrativa dominante fala das conquistas, das vitórias, dos títulos. O clube é maior, mais importante, mais rico, mais conhecido, mais poderoso de acordo com os triunfos obtidos. No entanto, essa não é a única narrativa possível.

No México, o Cruz Azul, um dos maiores clubes do país, deu origem a um verbo em vias de entrar para a gramática local, cruzazulear, ou seja, o ato de perder o jogo quando a vitória já parecia garantida. O último acontecimento é emblemático. O Cruz Azul venceu seu adversário, o Pumas, por 4X0 na primeira partida da semifinal da Liga Mexicana. O que poderia dar errado? No Brasil, há coisas que só acontecem com o Botafogo, no México, com o Cruz Azul. O Pumas devolveu o placar na segunda partida e se classificou para a final por ter melhor campanha que seu adversário. A derrota foi tão vexatória que Edén Muñoz compôs uma música inspirada neste último fiasco: “Eu sou o rei dos quase / Eu costumava ser cético, agora acho que sou amaldiçoado...”.

Por aqui, mais precisamente no paradisíaco estado de Pernambuco, o Íbis Sport Club construiu o seu triunfo na derrota. A equipe foi fundada na cidade de Paulista em novembro de 1938 e ficou conhecido mundialmente por passar 3 anos e 11 meses sem obter uma única e misera vitória. Isso se deu entre 1980 e 1984. Na época, em tom jocoso, um jornalista, Lenivaldo Aragão, afirmou que o Íbis era o “pior time do mundo”. A brincadeira, em tempos distantes das redes sociais, permitiu que a pequena equipe pernambucana ganhasse notoriedade. Nos Gols dos Fantástico, que assistia todos os domingos antes da avalanche de canais por assinatura, Léo Batista, em algumas ocasiões, narrava mais uma derrota do Íbis como extrema naturalidade. O resultado adverso não era apenas esperado, era desejado.

Apesar dos números, historicamente, reforçarem a narrativa de “pior time do mundo”, o Íbis já venceu os três grandes de Pernambuco, sendo sua maior vítima o Náutico que perdeu em quatro oportunidades. O Sport foi derrotado em três ocasiões e o Santa Cruz em uma única. Além disso, Vavá, campeão do Mundo em 1958 pela Seleção Brasileira, e Rildo, que jogou a Copa de 1966, atuaram no início de suas carreiras na equipe do Pássaro Preto, símbolo do Íbis.

A partir do epíteto criado por Aragão, o Íbis começou a construir uma contranarrativa esportiva que efetivamente triunfou com o aparecimento das redes sociais. A partir daí o clube percebeu uma oportunidade de se promover como o pior time do mundo. A equipe pernambucana conta hoje com aproximadamente 200 mil seguidores apenas no Twitter, inclusive com a presença de jornalistas famosos e a @ibismania considera um absurdo o clube vencer jogos. Paradoxalmente, a divulgação e valorização de sua marca se dá pelos resultados pífios dentro de campo.

Como a derrota é o triunfo, quando a equipe vence, as publicações ganham um tom de cobrança às avessas, logicamente em tom irônico e divertido, pedindo a demissão do técnico e até dos jogadores. No ano passado, ao se classificar para o hexagonal final da 2ª divisão do Campeonato Pernambucano ao golear o Cabense por 7X1, o Íbis lamentou nas redes sociais a vitória, uma vez que ela afasta a fama de “pior do mundo”.  Ainda sobre a mesma partida, em virtude do placar, a equipe pernambucana não poderia deixar de, ironicamente, fazer uma alusão à Copa de 2014 e postou no Twitter: “Íbislemanha 7X1 Cabense. Apesar do péssimo resultado, estamos classificados para o Hexagonal do estadual...”.

Parece que os alemães realmente querem rivalizar em tudo com o futebol brasileiro. O Íbis que se cuide. O tradicional Schalke 04 vive seu “inferno astral” e completou 30 rodadas sem vitórias (20 derrotas e 10 empates) e está somente a uma partida de igualar o recorde do Tasmania de Berlim quando passou 31 rodadas sem triunfar na competição entre 1963-1964. Se não vencer o próximo confronto, o Shalke também completará um ano sem ganhar na Bundesliga. Um conselho aos alemães e mexicanos, estudem o caso de sucesso do Íbis e façam do limão uma limonada afinal, existem situações em que melhor que competir (e vencer) é apenas existir.

 

 

 




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