Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Garimpar temas para a crônica dos domingos é coisa que desconheço, meu trabalho é selecionar entre os que se me vão acordando às madrugadas, aí pelas 4 horas e se oferecendo para minhas elucubrações, enquanto ainda no torpor da noite incompleta e solto da autocensura e dos limites do senso comum, o que me permite voos para ver, com poucas emoções, questões que me preocupam.  Ao longo do dia, se o tema persiste, é possível que daí surja a crônica. Nesta semana, foram muitas as ofertas recebidas e que dariam bons textos. Vou mostrar algumas.
“Acabei com a Lavajato, no meu governo não tem corrupção”, talvez esse convencimento o tenha feito tornar impossível a permanência, no Ministério, de Sérgio Moro, especialista em combater bandidos de colarinhos de todas as cores e até daqueles que não usam gravata. E vi também, com poucas horas de diferença, no Dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida, manifestações a exortar o povo a impedir que a Lavajato fosse descontinuada. A aparente contradição apareceu no meu torpor matinal. Opiniões e visões diferentes dariam boa crônica, pensei. Acho que vou por aí. Logo considerei que religiosos e presidente tinham a mesma intenção: Um país decente. Será? A dúvida que me assaltou, esta sim, poderia dar crônica interessante. O sono incompleto me estaria fazendo ver fantasmas?
Noutra madrugada, o imaginado agastamento do Ministro Marco Aurélio interrompeu meu já difícil dormir, quando sonhava com manhã domingueira da adolescência na minha Icaraí, ainda com seu histórico trampolim. Imaginei o mal estar do Ministro ao ver sua decisão suspensa pelo seu colega e reprovada pela opinião pública do planeta e de todas as galáxias. Naqueles poucos minutos, nos quais as ideias ocorrem livres, perguntei a mim mesmo: – Será que Sua Excelência, o Ministro Celso, com tantos anos de Tribunal, antes de conceder o habeas corpus ao André do Rap, não poderia ter trocado ideias com colegas do tribunal? Será que cada ministro, que cada um desses 11 ministros, pensa que é dono único da verdade ou que existem 11 verdades para cada assunto?
Marco Aurélio poderia ter dividido suas dúvidas e imagino que as tivesse – ter dúvidas é sinal de inteligência – e trocado ideias com Gilmar, talvez com o próprio Fux. Se não quisesse envolver os atuais, uma ligação para o ponderadíssimo Carlos Ayres de Britto poderia lhe mostrar rumos e alternativas. Certamente uma conversa a distância com aquela angelical ex-ministra, a Ellen Gracie, lhe fizesse ver todos os lados da questão. A sensibilidade feminina nunca se deve descartar.
Sou engenheiro formado há 56 anos, ao me aparecerem problemas espinhosos recorrerei, como tenho recorrido, a colegas de grande saber e bom senso. Se existisse um SAE – Supremo para Assuntos de Engenharia – eles poderiam estar sentados lá, como o Marco Aurélio e os demais que estão no STF. Questão de escolha no vestibular, de quem os indicasse, da política e até do parentesco na época da vaga. Simples assim. Deus não ungiu os ministros e eles devem acreditar nisso.
Os médicos quando têm paciente em risco, chamam colegas e fazem Junta Médica. André do Rap solto é risco para milhares.
Eis que inesperadamente o país é surpreendido com o cofrinho do Vice-Líder do governo no Senado, devidamente coberto com suas cuecas, guardando importância superior a 30 mil reais. A corrupção baixou de nível, de dólares para reais.
Poucas horas depois da mídia internacional ter repercutido a escatológica história, um amigo português mandou-me a piada que por lá circula a justificar a fraqueza do Real no mercado de câmbio, tendo como causa a sua contaminação por coliformes fecais, com origem no hábito de políticos brasileiros guardarem papel moeda nas cuecas.
Ser piada em Lisboa não me agradou.
Na madrugada, acordei incomodado com desagradável odor. A princípio achei que havia sofrido um acidente noturno, afinal tinha exagerado na pizza do lanche vespertino. Felizmente logo me dei conta que tudo não passou de produto da minha imaginação, sempre aguda naquele horário e me empurrando para escrever. Veio-me logo a mente o grotesco episódio do vazamento nervoso sofrido pelo Senador Francisco Rodrigues sobre seus tão bem protegidos 30 mil reais.
Governo sem corrupção é outra coisa!