Fotografo: Danilo Sili Borges
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Sem Legenda

Um antigo e politicamente incorreto ditado apregoa, em uma de suas partes, que “melancia doce ... ninguém come sozinho”. Isso é um recado chulo aos donos  – ou enamorados – de belezas ou riquezas excepcionais, para que delas cuidem com zelo e denodo, evitando se verem privados da desejável fruta. A Amazônia é um desses casos.
 
A cada dia o planeta torna-se menor para sua população, que se aproxima dos dez bilhões de habitantes e para os meios de comunicação que nos ligam, uns aos outros, instantaneamente, bastando ter acesso ao celular. A moda é o Globalismo, hoje visto com grande desconfiança, apesar de trazer na sua raiz mensagem positiva. Qual humanista, ou ser humano consciente, não gostaria de ter o Planeta Terra, como o seu país natal? Todos gostariam de ver abolidos os preconceitos. Ver negros, amarelos, brancos e humanos das diversas procedências, religiões e línguas sentirem-se irmãos.  Saber que atletas brasileiros negros podem jogar na civilizada Europa, na França, sem manifestações de racismo.
 
Há décadas somos afetados pela precursora do Globalismo, a Globalização, que é, antes de tudo, financeira. Sua proposta inicial era a liberalização do comércio, eliminando barreiras, incentivando a produção industrial e agropecuária, privilegiando a eficiência e as melhores condições comparativas, o que espalharia a riqueza pelos quatro cantos do mundo. Benefícios para todos, num mundo globalmente rico. Na realidade, tornou-se uma bomba de sucção que tem drenado recursos globais para uns poucos centros, agravando a concentração da riqueza e da renda.
 
A pretensão maior do Globalismo é a responsabilidade de todos pelo todo planetário. O Homem Global (sem nenhuma referência ao grupo empresarial de comunicações) só poderia ser menos completo que o Homem Cósmico, mais ao gosto dos místicos, que pretendem que andemos sempre conscientes da nossa origem e permanente ligação com o Universo. Aí, adentrando no campo sutil da religiosidade, também em falta no moderno.
 
Pelo movimento globalista, todos seríamos responsáveis e militantes pela pureza das águas do oceano, dos rios; pela preservação da vida marinha e da vida natural, com atenção especial para as espécies ameaçadas de extinção, pelo bem estar de crianças e idosos, pela manutenção de condições climáticas adequadas no planeta, pela preservação correta dos monumentos e sítios históricos e assim por diante.
 
Questões delicadas aparecem quando se trata, por exemplo, de regimes autoritários que mantém presos políticos, ou os que acobertam a corrupção endêmica. Como conceituar no movimento globalista a violência das grandes cidades, as do Rio, só para citar; é interessante saber como os militantes do simpático movimento globalista veem a luta da população de Hong Kong para manter sua liberdade contra o colosso chinês.
Certamente as preocupações do presidente francês, Emmanuel Macron, enquadram-se nesse conceito globalista ao aparecer como protagonista na recente questão das queimadas na Amazônia. Ao afirmar sua disposição de interferir unilateralmente numa região sob soberania de outras nações, inclusive do Brasil, o francês parece que levou longe demais seu conceito de globalista de carteinha, ou usou alguma versão do almanaque napoleônico, em desuso desde o começo do século XIX.
Ainda no início, um tanto difuso, usado para fins ideológicos camuflados, o movimento globalista é uma ideia bondosa de pertencimento e de sermos donos do nosso planeta, o que implica responsabilidades, discussões e ações pelos seus bilhões de condôminos. Mas como tudo, o Globalismo tem limites: ele esbarra no direito à individualidade e na soberania das nações.
O estabelecimento desses limites em casos específicos, como na presente questão amazônica, tem que ser estabelecido com jogo aberto, sem cartas na manga. Se o presidente francês está com problemas com os produtores agropecuários de seu país, com sua popularidade em baixa, que não venha tentar resolver esses problemas, de tabela, conosco. Segure o seu boi pelo chifre.
Para encerrar, entendo que as divergências devem ser tratadas com bons modos. Espírito aberto, inteligência nas argumentações e uma pitada de charme são requisitos aos líderes que de suas importantes posições, de seus parlatórios, saibam que são mestres, guias e que seus gestos, atitudes e palavras são modelos para seus povos.
O mundo é uma casa pequena. Nela, educação só ajuda e dá bons exemplos, até aos filhos.
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges. Brasília – Ago.2019