Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Os mais chatos são os que se repetem com insistência.
Sou apreciador de música, sem ser expert. Ouço clássica instrumental, certas árias de óperas, jazz que encheu de encantamento triste e de alegria doída minha juventude, com as improvisações metálicas dos negros geniais. Dedico horas ao nosso samba raiz, a bossa nova leve, linda e orgulho da cultura popular de um Brasil que se destacava do futebol à economia no tempo da Geração Brasília. E garimpo coisas boas até na música rural.  
Tive que mudar de endereço com prejuízos materiais, depois de estar ouvindo, por três meses, 12 horas seguidas, por dias e noites, a maravilhosa canção My Way, na interpretação de Frank Sinatra, tocada pela minha vizinha da casa geminada e sonoramente mal isolada da 713 da W3 Sul, sei eu lá por que motivo. Indiscutivelmente a música era da melhor qualidade, a moça simpática e até bonita. Nas poucas vezes em que trocamos algumas palavras não notei distúrbio visível. Cansei e mudei de endereço.
Assistia na TV participação de Leandro Karnal, descendente de alemães, quando ele citou ditado que lhe repetia sua avó: “Não toque tambor pra maluco dançar”. Veio-me a memória a lembrança de Carlinhos, meu amigo de infância e adolescência, Carlos Heiss, e de sua família, Dona Berta, Érika, Seu Carlos, austríacos, exceto meu amigo, esse já nascido no Brasil. O velho Carl, Seu Carlos, foi por anos o Grande Chef de Cozinha da Confeitaria Colombo do Rio, respeitado hoteleiro na Baviera, havia deixado tudo na Europa, ao pressentir os rumores da nova guerra que estava para acontecer, reuniu a família e veio para o Brasil.
Fomos vizinhos em Icaraí. Niterói era, antes da ponte, procurada por estrangeiros devido às suas características de cidade praiana, acolhedora, calma, próxima e isolada da metrópole que já era o Rio de Janeiro.
Privei do convívio daqueles amigos. À medida que crescia, além do filho, me tornei próximo do pai e era frequente sairmos juntos, os três, para pescarmos nas pedras das praias, hoje chamadas de oceânicas, ou apenas para apreciarmos a natureza rude das lagoas, então intocadas e agrestes, de Piratininga e de Itaipu. Ouvi mais de uma vez este ditado, algumas em alemão, que meu amigo traduzia, “Não toque tambor para maluco dançar”.
Como a minha vizinha de Brasília, existem indivíduos que solfejam a mesma música, sem descanso, em tom elevado e incomodativo. Todos têm direito às suas preferências musicais, futebolísticas, partidárias, religiosas, sexuais, ideológicas e de todas as naturezas, isso faz parte da liberdade humana, do livre arbítrio, que os deuses nos concederam como forma de não se comprometerem com os nossos erros. Essas preferências dependem de tantas coisas que estudiosos as vêm pesquisando sem serem conclusivos.
O que incomoda é a altura e a frequência com que os aficionados nos impingem suas crenças – como a vizinha da 713 – e de exigirem que gostemos das mesmas músicas que eles, e de nos colarem rótulos (e eles adoram colar rótulos), se não gostarmos exatamente do que eles gostam, de não aceitarmos as teses que eles criam nos seus devaneios, se não tocarmos o bumbo no ritmo em que eles querem dançar.
Algumas crônicas atrás, recebi de um leitor, que é também amigo, partidário de um extremo do espectro ideológico, elogio por ele ter entendido que escrito meu se havia aproximado do entendimento dele em determinado assunto. Mandou-me incentivos pelo que lhe pareceu uma possível conversão: “Se você continuar a pensar assim vai acabar atingindo a iluminação”. Claro, eu seria iluminado se pensasse como ele. Respondi: “Obrigado, a iluminação em demasia ofusca. Prefiro continuar a enxergar o mundo em luz e sombra, com todas as nuances possíveis”.
Tenho desenvolvido técnicas para me livrar dos radicais. Peço-lhes que citem fatos, que exponham suas hipóteses e teses. Isso funciona como Baygon Extra, espanta, mas logo perde o efeito e o zumbido volta.
A única receita que, às vezes, dá resultado é o ditado alemão: “Não toque tambor pra maluco dançar”. Se não der, mude de endereço, arranje outro grupo de amigos, tome sua cervejinha em outro boteco; mude de calçada para não se aborrecer. Mas vá com cuidado, há o risco deles se tornarem agressivos. Já passei por isso!