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Vitória Da Conquista(BA), Quarta-Feira, 20 de Outubro de 2021 - 14:34
18/09/2021 as 11:11 | Por Luiz Carlos Figueiredo | 294
“PALAVRA DE HOMEM RACHA, MAS NÃO VOLTA DIFERENTE”.
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Nos meados dos anos 1930, a igrejinha do Porto de Santa Cruz ficou desativada por mais de um ano (por ordem da Paróquia de Nossa Senhora das Vitórias). O fechamento da igreja deu-se após uma apoteótica briga na procissão no dia do padroeiro.  Logo após a punição os festejos voltaram em grande estilo com quermesse, missa e procissão. Neste tempo o Porto tinha alguns “ilustres” moradores, dentre os quais o vendedor de carne de porco Dão Sabão, que ganhava honestamente o seu sustento, criando, abatendo e vendendo diariamente a carne dos seus suínos. Dão era um senhor baixinho, encorpado, feições atarracadas, cabelos crespos e que além de usar um velho par de butinas furadas nos solados, tinha por hábito andar segurando as calças, já que a sua famosa e volumosa pança dificultava o ajuste na cintura, mesmo utilizando o currião.     

Após um ano sem sucedidos importantes, o povoado parou literalmente para prestigiar a volta do evento. Dão Sabão além de não gostar muito de tomar banho (imagine aí, trocar de roupas?), neste dia deu de deixar a sua família na casa do amigo Titonho, para sozinho ir à feira improvisada que excepcionalmente acontecia bem na porta da igreja, e, para isso, resolveu vestir um terno seminovo (emprestado às pressas por um amigo), que de tão justo parecia pertencer a um “finado” muito mais magro que ele. Não satisfeito, ainda deu de usar um par de butinas novinha em folha. Além de apertar bastante às banhas do velho açougueiro, o paletó deixava à mostra uma grande parte da sua avantajada barriga cabeluda enquanto a botina lhe apertava todos os calos (que não eram poucos), existentes nos seus velhos pés.  Mais perfumado que filho de barbeiro, lá ia o velho açougueiro trôpego e cambaleante diante do calçado novo, trocando literalmente as pernas pelos estreitos becos do povoado, proferindo centenas de palavrões. Agoniado, Dão Sabão já se preparava para voltar para casa de Titonho, pensando em retirar a roupa e o calçado que tanto lhe incomodava, quando deu de passar pelo meio da feira improvisada e bateu de cara com uma voz grossa e ampliada por um enorme megafone:

- Oia aí cumadi, oia aqui cumpadi, quem vai querer e quem vai comprar a banha da Jiboia Preta, vinda diretamente das Oropa, que cura “tudo quanto há”!  Se você está com prisão de vento, espinhela caída, hemorroida inflamada, dor nos quartos, baço inchado, berruga, impinge, custipação e inté farta de vontade para “bater nos couro”, não se avexe não!  Adquira agora mesmo aqui na mesa de propaganda a banha milagrosa da Jiboia Preta das Oropa. É tiro e queda! Cura de “um tudo” e o preço é um “tantim assim”! “Se aprochegue, patroa, se aprochegue, patrão”!

Não foi que Dão Sabão gostou de ver a tal da propaganda? Ficou entretido com a conversa do camelô, um sujeito magérrimo, de gravata borboleta e com uma velha cartola desbotada pelo sol, com uma lábia desgraçada de boa, trazendo enrolada no pescoço, uma cobra jiboia de todo tamanho, que entre um beijo e outro, aproveitava para tascar-lhe algumas picadas nos beiços...

Boquiaberto, Dão Sabão já tinha até se esquecido do incômodo que o velho paletó lhe causava quando foi subitamente abordado por um mulato alto, da grossura de um palito, usando um fino bigode a lhe enfeitar a cara, trazendo os cabelos empapuçados de brilhantina, isto sem falar que o distinto se encontrava muito do bem trajado, usando um belo terno de casimira azul, levando delicadamente pendurado nos braços, alguns cortes de tecidos.

- Com quem tenho a honra de conversar? – Indagou o mulato. - “Cuma”? – Perguntou um sonolento Dão. - Qual a “graça” do distinto cavaleiro? – Repetiu educadamente o mascate. Surpreso, o velho Dão olhou para os lados imaginando ter mais alguém ali perto dele. Não tinha o hábito de ser abordado assim, principalmente, por um estranho. Mas, para a sua decepção, era com ele mesmo que o distinto cavalheiro queria falar.

- Ah!... “O sinhô está falano é cum eu”?... Minha graça é João Ramos, mas todo mundo aqui me chama de Dão Sabão, é q’ueu quando converso muito, fico com os cantos da boca mais espumeada que sabunete, num sabe?

- Pois bem seu Dão... – Bradou firme o camelô – Eu tenho aqui o que um homem da sua “iguala” está precisando. Eu vendo peças de fazenda. Coisa fina, vindas diretamente do estrangeiro, prontinha para senhor fazer um lindo terno para ficar mais luxuoso do que já é. Sabe o que é melhor? Está tudo a preço de bananas! - O matuto levou um tremendo susto ao ver atirado em seus peitos o corte de tecido. - “Ôxe”, isto num é pra mim não sinhô! Sou “home” de poucas posses, num tá no meu “arcance” não. – Falou tentando se desvencilhar do comelô, mas foi seguro fortemente pelo braço.

- “Oxente”! Que avexo é esse? Num se avexe não, aqui está tudo o que o senhor precisa. Com esta fazenda, além do terno, o sinhô pode mandar fazer um lindo vestido para sua patroa, uma calça curinga para os “bacurim” e cum este outro uma linda camisa. Bote preço aí, bote! É uma promoção especial para um cidadão decente cuma o senhor!

- Oia moço... – Suspirou Dão, quase perdendo a paciência. - O senhor está confundindo as cousas. Eu só troco de roupa nos dias que tem festa, minha profissão de matador de porcos não permite que eu use palitó. Este nem meu é, foi “talgualamente” emprestado inguale este par de butina que só tô usando por causa da quermesse, num sabe? O “tantim” de dinheiro que possuo é a conta de fazer a feira da semana. Portanto, passar bem! – Falou e foi tentando sair, e, mais uma vez foi seguro pelo mascate. - Oia seu Dão – Falou novamente o mascate jogando-lhe novamente um corte de tecido nos seus peitos.

– Pague dez menréis e leve este lindo tecido importado, vindo diretamente das “oropa”...

- Dez menréis? O “sinhô” ficou é maluco! Sô rico não!

- Então fale quanto “dá”, ué?! Afinal de contas estou conversando com um cidadão, ou com um saco de batatas? - Não quero isto não! – Gritou meio que desesperado o pobre homem. – Vá vender isto pra outro. – Falou e quando foi saindo tropeçou nas “butinas” novas e só não deu de cara no chão porque foi seguro pelo camelô.  - Se segura seu Dão, senão o senhor cai! – Pilheriou o vendedor, o ajudando a se recompor.  - Tô vendo que aqui na Santa Cruz “num” tem “home” não! – Provocou o vendedor. Dão Sabão sentiu o sangue ferver e virou-se irritado, já coçando a peixeira que sempre trazia escondida na parte de trás do “currião” que lhe segurava as calça. - O “sinhô” está dizendo que João Ramos “num é home”? - Se fosse homem, botava preço no corte de fazenda, ué! – Disse com um sorriso no rosto o camelô.

- “Ancê” acha que eu tenho dinheiro sobrano pra comprar pano?

- Então diga quanto vale o pano? – Insistiu o camelô. - Num quero não! “Num” gosto de roupa nova, e num quero comprá nada. Pronto! – Falou irritado segurando no cabo na velha faca, geralmente usada para matar porcos e que lhe era inseparável, mesmo quando usava roupas novas, como neste dia. - Bote preço pelo menos! – Insistiu o mascate.

- Rapaz, pra ocê me dexá em paz, eu dô dois menréis! – Falou o açougueiro, sem imaginar, jamais, que o camelô aceitaria a sua proposta. - Pois então, seu Dão, o pano é seu! Agora sim, ancê mostrou que é homem de palavra! – Falou o mascate, jogando o corte de pano nos braços do velho. – É piléra, num quero não! – Falou Dão Sabão com um sorriso desbotado nos lábios. - Você não falou que era homem? – Provocou o mascate, já de cara fechada! – Ou o senhor não garante as calças que veste? – Mas eu “num” tenho todo este dinheiro não! – Choramingou o pobre homem. - Quanto o senhor tem aí? – Perguntou o mascate. Meio afobado, Dão Sabão coçou de um lado, coçou do outro, juntou uma parte de dinheiro meio embolado nas meias, tirou outra parte da cintura, mas uma pouco da algibeira e somando tudo, deu um “menréis e pouco”.

- Oí pro sinhô vê... Não dá nem dois “menréis”. – Falou, achando que estava livre do mascate. Mas, surpreso, viu o mulato arrancar-lhe das mãos, todo o dinheiro embolado.

- Tudo bem. Depois você me paga o restante. – Falou, jogou o corte de pano nos seus braços e rapidamente deu as costas, sumindo no meio da multidão.

- “Peraí, peraí”! – Gritou meio atordoado sem saber o que fazer com o tecido. O mulato sumiu no meio da feira.  Um Dão embriagado e choroso, sentado no balcão de madeira da venda de Titonho, foi à “atração” daquela tarde. O dinheiro de fazer a feira da semana foi levado todinho pelo mascate. Os amigos riram a valer!  Pediam pra Dão repetir por várias vezes a história. À medida que ele contava, enchia a cara e abria a boca chorando. Os amigos, penalizados, fizeram uma “vaquinha” e restituíram a grana perdida para que Sabão pudesse fazer sua feirinha. Zé Barbosa que era o grande líder da região juntou alguns amigos bons de briga, armaram-se até os dentes e saíram à procura do mascate para tentar lhe dar um “corretivo” e recuperar os tostões de Dão Sabão, porém, quem disse que acharam? Só encontram mais duas ou três vítimas, que, a exemplo do velho matador de porcos, foram iludidos e lesados pelo esperto camelô!

 

FIM

 

Luiz Carlos Figueiredo

Escritor e Poeta

CSales, Quadra de Setembro de 2021. Minguante de Primavera. Conto adaptado do livro AS EXTRAORDINÁRIAS HISTÓRIAS DO PORTO DA SANTA CRUZ publicado em 2012.

 

 




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