Fotografo: Danilo Sili Borges
...
Danilo Sili Borges

“Jardim da Europa à beira mar plantado“, assim era vista aquela parte da Península Ibérica, em 1862, por Tomás Ribeiro, em seu poema A Portugal.
Há alguns dias, numa parada para o café, em reunião da Câmara de Comércio Brasil-Portugal, ouvi de companheiro português, que tem atividades lá e cá – cidadão das duas pátrias – observação que, desde então, me tem feito refletir:
–  Portugal está na moda. Vejam: por aqui, até desapareceram as “piadas de português”.
É verdade! Dei-me conta de que nos últimos tempos não tenho ouvido nenhuma dessas histórias inventadas que exploram a ingenuidade e a simplicidade do saloio, o homem do campo português, estereótipo do nosso avô, que imigrou para o Brasil até meados do século XX. A brincadeira pegou, como outras que caracterizam gaúchos como machistas, cariocas como gozadores, paulistas como cheios de pressa, mineiros como desconfiados. Nada para menosprezar ou ferir. Na longa convivência com os lusitanos, parentes, amigos e parceiros em negócios, eu nunca os vi se abespinharem com as tais “piadas”.
Como neto de portugueses, descendente, como a grande maioria dos brasileiros, sei que as piadas nunca tiveram intenção ofensiva e foram sempre devidas ao espírito brincalhão do povo alegre que fomos. Afinal, como diminuirmos nossos pais e avós, sem nos amesquinharmos a nós mesmos?
Devo mesmo constatar que existe, entre nós, um jeito um tanto estranho de acarinhar um amigo, que é contar uma história fantasiosa a respeito dele, mentirosa ou exagerada, preferencialmente na sua presença, como maneira de destacá-lo num grupo. É uma piada, mas não é uma ofensa. Lembro-me de observação feita por amigo português, aí pelos anos 1970, que convivia com os sete engenheiros brasileiros, dentre os quais me encontrava, que faziam longo estágio no LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa, e que ao observar essa nossa maneira de nos saudarmos, observou: “Vós brasileiros fazeis piadas, uns dos outros, todo o tempo, mas curiosamente, não vos sentis ofendidos”.
A verdade é que as “piadas de português” cessaram. Podemos levantar algumas hipóteses, sem tentar interferir nas áreas das ciências específicas, a quem passaremos a questão e que certamente, com seus métodos próprios, darão resposta à nossa curiosidade, além de propiciarem um paper a algum estudioso da área das humanas. Por enquanto, cumprindo o papel especulativo desta crônica semanal, levantemos o que nos ocorre para que os irmãos portugueses estejam a deixar o protagonismo das piadas.
 
A primeira possibilidade que me ocorre é o atual mau humor do brasileiro, que não o permite ter alegria para fazer piadas, de tão machucado que está com a crise moral que se alastra pela economia e para todos os outros segmentos da nacionalidade. A outra diz respeito ao próprio Portugal, que passou a gozar de ainda maior respeito e admiração pelos seus feitos e conquistas recentes. Percebo, no entanto, que não foi só o Brasil que descobriu Portugal, o mundo todo o fez. Migrantes de todas as partes escolhem aquelas terras miúdas, 92 mil  quilômetros quadrados, (aproximadamente a área do estado de Santa Catarina, 95 mil) com dez milhões de habitantes, como sítio ideal para viver, estudar, criar filhos e fazer negócios. A tradição de tolerância racial, política, religiosa, deixam longe de suas cidades as ameaças da violência enlouquecida que campeia por toda parte.
 
Portugal soube, em pouco tempo, recuperar sua economia e soltar suas amarras para conviver no mundo competitivo, onde a competência é a chave mestra. Claro que ao longo da sua história havia feito isso muitas outras vezes e não é por outro motivo que deles herdamos território com 8 milhões de km², num único estado e numa única língua, a quinta mais falada do planeta. E qualidades ímpares, como a grande integração racial, que por mais que tentem cindir, por razões político-ideológicas, encontra-se no nosso tipo físico e para sempre registrada no DNA de cada brasileiro.
 
O desenvolvimento social, cultural, econômico e tecnológico, de Portugal não permite mais que vejamos uma parte da sua população como ingênua e inculta. É por isso que Portugal está na moda. É por isso que as piadas desapareceram.
Crônicas da Madrugada. Danilo Sili Borges – Ago.2019