Fotografo: Divulgação
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Sem Legenda

Santa Dulce é dos pobres, dos pobres do mundo. Sua pátria é a humanidade sofrida esteja ela onde estiver. A Santa brasileira é do mundo, mas vou lhe pedir, que se puder, faça uns milagres para nós, estamos precisando.
O reconhecimento pelo trabalho de uma vida dedicada aos necessitados e sofredores permite-nos orgulharmo-nos agora de termos entre os santos da Igreja Católica uma santa nascida em terra brasileira, qualquer que seja a nossa religião ou mesmo se não professarmos alguma.
O rito da canonização se deu no Vaticano, na Praça de São Pedro, domingo, 12/9, sob a condução do Papa Francisco. Milhares de brasileiros deslocaram-se à Itália, a maioria de católicos, mas também outras pessoas que acreditam na bondade e na misericórdia. Quase todas pagando suas passagens e hospedagens, para saudar o melhor do espírito humano, naquele momento de reconhecimento festivo e solene.
O governo do nosso país, como não poderia deixar de ser, mandou ao piedoso evento comitiva representativa do povo brasileiro, constituída de conhecidas personalidades, cujos nomes, por suas funções presentes e passadas, frequentam, com persistência, nossos órgãos de imprensa. Nem todos, é verdade, por suas ações religiosas ou de características humanitárias ou filantrópicas, como seria desejável. A comissão oficial foi designada pelo Presidente da República, que conseguiu organizar grupo representativo do momento atual dos compromissos políticos do governo. Por falta de espaço, deixo de nomear sua composição, mas penso ser de interesse que os brasileiros conheçam seus embaixadores ao singular evento religioso. Para esses representantes, em torno de 15, nós arcamos com passagens e hospedagens, afinal representam a todos nós, os que não tivemos a possibilidade de ir, ou porque não quisemos, ou porque não tivemos “boca”. “Quem tem boca vai a Roma”, diz o velho adágio.
Certamente os componentes da colenda equipe de representação nacional são pessoas da mais alta condição moral, não falo pela explícita religiosidade, pois isso são coisas independentes. O que vale mesmo é a história de cada um, a conduta ilibada demonstrada pela vida reta, principalmente pelos que ocupam ou ocuparam funções públicas.
Além da comissão oficial, a nomeada pelo presidente, que foi levada em dois aviões da FAB, outras comitivas de políticos também se formaram para estarem presentes à canonização da santa brasileira, recebendo diárias, passagens e certamente outras atenções da representação diplomática brasileira na Itália. “Nunca na história deste país” se viu tanta devoção religiosa. Destino, Roma. Quem tinha “boca” foi.
Vamos aproveitar o que resta de espaço nesta crônica e fazer um exercício do absurdo. Imaginemos que algum dos componentes de qualquer dessas comitivas oficiais, ser humano falível, afinal, que ao longo de sua vida pública, num momento de fraqueza de caráter, vamos aqui supor, talvez premido por necessidade angustiante, a que humanos podem estar submetidos, tenha posto a mão em dinheiro público (e em seguida o tenha posto no bolso), aquele dinheiro que fez sempre falta aos desvalidos da Irmã Dulce. Pergunto. Como deveria esse hipotético cidadão estar se sentindo no rico voo da FAB que o levou a Roma, para que se acomodasse na Embaixada do Brasil no deslumbrante Palazzo Pamphili, na central Piazza Navona, ou num hotel 5 estrelas, pois as polpudas diárias, que são em dólares, permitem isso? Talvez, quem sabe, o fato criminoso do passado lhe tivesse pesado durante a emotiva cerimônia da Canonização na localização especialíssima a ele destinada. Mais um milagre não declarado da Santa.
Se o fato imaginado fosse real, teria lhe doído na consciência? Se pudesse, o personagem teria devolvido os minguados reais que afanou um dia? Se fossem milhões, devolveria anonimamente, pelo menos, uma parte? Certamente se o fizesse não o seria por temer castigo. Não pela Justiça humana, essa anda querendo é punir juízes, promotores e policiais e soltar bandidos. Por intersecção da nova Santinha brasileira também não há o que temer. Pela sua natureza divina, os santos perdoam tudo.
Nós é que não perdoamos!