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13/02/2021 as 19:33 | Por Luiz Henrique Borges | 1123
Uma crônica e dois campeonatos
Uma crônica e dois campeonatos
Fotografo: Reprodução
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Uma crônica e dois campeonatos
 
Por:Luiz Henrique Borges
 
 
A crônica, em comparação com a narrativa histórica, é um gênero literário interessante na qual o cronista ou analista pode dar, mais livremente, vazão as suas opiniões, as suas percepções de mundo, sem se prender as amarras, como ocorre com o historiador, de se ancorar nas fontes, na documentação. No entanto, o discurso do cronista, particularmente o esportivo, mesmo livre e criativo, para ganhar legitimidade e angariar a simpatia do leitor, precisa levar em conta os fatos que ocorrem a sua volta e, no caso do futebol, também é necessária alguma isenção, em outras palavras, abandonar em certa medida o lado torcedor.
Confesso que não torço para o Flamengo nem nas disputas de bolinhas de gude ou de cuspe a distância. Não caio na esparrela do Galvão Bueno que qualquer clube brasileiro representa o país. A rivalidade criada entre os adversários próximos costuma ser muito mais intensa, forte, envolvente e apaixonante do que uma pretensa identidade nacional. Eu não torço para o Flamengo, assim como o corintiano não torcerá pelo Palmeiras, ou não foi isso que assistimos na atual edição do Mundial de Clubes? 
Como torcedor posso construir discursos pouco embasados para atacar meu rival, como cronista, se agisse dessa forma, a narrativa desenvolvida perderia força. Por isso, afirmo que há algumas rodadas, em um desses sites que podemos prever os resultados das próximas rodadas do campeonato brasileiro, fiz algumas simulações e, mesmo contrariando meus desejos, na maior parte delas eu concluía que o Flamengo seria campeão nacional de 2020.
Quando realizei a primeira simulação, o São Paulo estava na liderança com folga. No afã de já descartar qualquer possibilidade de título do Flamengo iniciei, feliz, as simulações. E, aos poucos, comecei a me decepcionar e percebi que poderia ocorrer uma repetição de 2009. Naquela época, o Palmeiras liderava com folga e o Flamengo, com uma equipe tecnicamente inferior a atual, arrancou e conquistou o título. A equipe paulista, em 2009, ainda ficou fora da Libertadores da América. Esse ano o São Paulo trocou de lugar com seu rival estadual e, se não abrir rapidamente os olhos, perderá a vaga direta na competição continental. Fluminense e Grêmio já estão próximos e a equipe gaúcha enfrentará, nesse final de semana, o tricolor paulista.
Outra coincidência com campeonato de 2009, o título, na última rodada, foi disputado entre o Flamengo e o Internacional. As chances de as duas equipes decidirem o campeonato de 2020 é enorme. Hoje, o Atlético Mineiro enfrenta o Bahia, se não conquistar a vitória, o sonho de repetir o título conquistado no longínquo ano de 1971 será extinto.
O leitor pode se perguntar os motivos pelos quais, nas simulações, achei que o Flamengo poderia conquistar o campeonato, algo que naquele momento parecia distante. Simples, me despindo das vestes de torcedor, tenho que reconhecer, mesmo com algum “ódio no coração”, que a equipe da Gávea possui o melhor elenco do Brasil no momento. Segundo, não considero o Rogério Ceni um treinador ruim ou despreparado. Várias críticas que ele sofreu ao longo da temporada ainda refletem a campanha impecável de Jorge de Jesus. Porém, tanto o Jesus bíblico quanto o Jesus futebolístico tiveram algo em comum: a capacidade de fazer milagres. A temporada do Flamengo em 2019 foi completamente atípica e, por isso, qualquer comparação é extremamente injusta.
Ao simular os resultados levei em conta os elencos das equipes. Ora, o São Paulo e o Internacional não possuem a mesma potencialidade que o Flamengo. A equipe gaúcha, dirigida pelo injustiçado Abel Braga, realiza um campeonato espetacular. Sua arrancada em direção à liderança foi incrível. No entanto, me parece que o motor começou a ratear. A derrota para o Sport deu a oportunidade ao Flamengo de superar o colorado na próxima rodada, a penúltima do campeonato, quando as equipes se enfrentam no Maracanã. Óbvio que isso dependerá do que ocorrerá nos jogos de amanhã. De qualquer forma, o Brasileirão está empolgante!
Vamos mudar de assunto, iniciamos o segundo tempo de nossa crônica. Os brasileiros presos no ufanismo ou nos triunfos passados, costumam olhar com desprezo para o futebol praticado em outros locais. Espero que o fracasso do Palmeiras no Mundial demonstre que, se tratando de clubes, estamos longe de ser uma potência futebolística. O campeão da Libertadores da América realizou dois jogos na competição, contra o Tigres e o Al Ahly. Em 180 minutos não fez um único gol. A atuação do Palmeiras no Mundial pode ser sintetizada nas penalidades extremamente mal batidas por Roni, Luiz Adriano e Felipe Melo.
Se a temporada do Palmeiras é, indubitavelmente, vitoriosa, o futebol praticado, com algumas exceções como a vitória retumbante contra o River Plate em Buenos Aires, nunca foi de encher os olhos. Depois de derrotar os argentinos na primeira partida, o Palmeiras flertou perigosamente com a desclassificação no jogo em São Paulo, fez uma final sonolenta contra o Santos, foi dominado pelo Tigres e não foi capaz de superar a bem organizada equipe egípcia do Al Ahly.
Os torcedores brasileiros precisam se conscientizar que os nossos clubes não são de ponta, não são o crème de la crème do futebol internacional. Os nossos atletas mais brilhantes e que se encontram em idade mais produtiva, em geral, atuam no exterior. Como somos exportadores de talentos, nossas equipes ficam enfraquecidas. Contamos com as jovens promessas, com os bons jogadores mais tarimbados, mas que não são excepcionais e com os jogadores consagrados que retornam do exterior já em idade avançada como Filipe Melo no Palmeiras ou, recentemente, Hulk no Atlético Mineiro. Temos ainda aqueles, como é o caso do Gabigol ou do Pedro, que apesar de todo o potencial não conseguiram se firmar no futebol europeu.
Essa é a realidade não apenas do futebol brasileiro, mas também sul-americano. Apenas para citar as outras duas potências continentais, Argentina e Uruguai, a situação é semelhante. Nesse sentido, estamos muito mais próximos das equipes mexicanas, egípcias, ou de outro local qualquer, exceto os gigantes europeus que ocupam outro patamar.
 
 




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