Fotografo: Reprodução
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Tereza Cruvinel

 
 
 
Falando ontem num evento evangélico, o presidente Michel Temer disse estar ali a chamado de Deus para celebrar a “pacificação dos brasileiros” com o fim da greve dos caminhoneiros. No percurso, pode ter visto as enormes filas de carros que se formaram nos postos da capital federal, onde muitos passaram a noite esperando a chegada da gasolina. Começou o alívio mas falar em pacificação é otimismo demais ou autismo. A conta alta vem aí e o governo parece disposto a produzir mais agendas que dividem o país.
 
Hoje mesmo o Palácio do Planalto pode encaminhar ao Congresso um projeto de lei, com pedido de urgência, autorizando a privatização de seis distribuidoras de energia da Eletrobrás. Necessária ou não, a proposta divide o país, promete confusão no Congresso e protestos nas ruas. O discurso nacional-estatista diz que o preço da energia irá às alturas. Na quarta-feira o TCU aprovou a publicação do edital de venda, dispensando a aprovação da MP 814, que a base governista, hoje rota, preferiu deixar caducar. E assim, buscando recuperar alguma confiança junto aos agentes econômicos, o governo vai acelerar o negócio. O BNDES lançará o edital em uma semana. Pela proposta, cada distribuidora será vendida pelo valor simbólico de R$ 50 mil e a Eletrobrás assumirá dívidas e encargos da ordem de R$ 19 bilhões.
 
Pesquisa do Instituto Datafolha mostrou anteontem que 55% dos entrevistados são contra a privatização da Petrobras e 74% contra sua venda a grupos estrangeiros. A Eletrobrás não tem, no imaginário nacional, a mesma força simbólica que a Petrobras, mas sua venda também enfrenta resistências. Com a vara curta que tem neste momento, o governo debilitado e em final de mandato deveria deixar esta para o do sucessor que será eleito em breve. Insistir chamará confusão.
 
Com o fim da greve, toda cautela é pouca, apesar do início do alívio. Pelo WhatsApp circulavam ontem mensagens de caminhoneiros avisando que ela pode voltar na segunda-feira, porque o desconto de R$ 0,46 no preço do diesel não estava chegando às bombas. O governo o prometeu foi para hoje. Deve ser terrorismo mas exige atenção. 
 
SEM DIVIDENDOS
 
Temer teve ontem a seu lado o pré-candidato do MDB, Henrique Meirellles. Entre todos, ele é o que mais perde com a cambalhota da greve. Afora o desgaste do governo que representa, agora virão os resultados nefastos da economia, tirando-lhe o discurso de que a colocou nos trilhos. 
 
Não parece haver dividendos eleitorais para ninguém, pois até Bolsonaro, que se colou ao movimento e inspirou os tais “intervencionistas”, teve que recuar e pedir o fim da greve. Rodrigo Maia tentou faturar aprovando a medida que zerou a cobrança do PIS-Cofins sobre o diesel mas ela terá que ser vetada e substituída por outros cortes orçamentários, que sacrificarão até programas sociais, pois seu efeito seria desastroso. Ciro Gomes foi o que tratou mais objetivamente dos problemas de fundo, como a política de preços da Petrobras e o rodoviarismo. Os outros balbuciaram platitudes. O discurso do PT, comparando a política de preços de Pedro Parente com a de seus governos, pode ter sido neutralizado pelas acusações de ter quebrado a Petrobras segurando os preços. 
 
Não pode haver ganhadores com um movimento que, além das reivindicações e da sangria provocada, exprimiu a descrença nos políticos e na própria democracia. Mas é certo que a campanha eleitoral ganhou mais ingrediente temático, que se junta agora a emprego, segurança e saúde.
 
VALOR DOS SINDICATOS
 
Os sindicatos, demonizados pelos neoliberais, foram castigados pela reforma trabalhista com o fim da contribuição sindical obrigatória. A greve dos caminhoneiros mostrou que, com as redes sociais, pode haver greve sem sindicato forte mas apontou também a falta que eles fazem para que os acordos sejam honrados. Não fosse a pluralidade de associações da categoria, a greve poderia ter acabado no domingo.