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Vitória Da Conquista(BA), Segunda-Feira, 27 de Setembro de 2021 - 04:36
11/09/2021 as 11:42 | Por Luiz Henrique Borges | 1346
Vergonha
Artigo esportivo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Passei parte dos quatro anos do doutoramento pesquisando as narrativas de periódicos brasileiros e argentinos sobre a representação do futebol praticado pelo seu adversário. Terminei a tese em 2018 e, naquele momento, o confronto já tinha 104 anos. Neste mês, mais precisamente no dia 20/09, o clássico fará 107 anos. Os contratempos não tardaram a acontecer! A viagem realizada no navio “Alcântara” que levou a delegação brasileira para Buenos Aires foi atribulada. O mau tempo, obrigou a embarcação a fazer uma escala no porto de Montevidéu, o que atrasou a chegada ao destino. Delicadamente e em sintonia com os valores do cavalheirismo e de civilidade da época –  lembre-se que o futebol era um esporte elitista –, os argentinos, preocupados com o cansaço dos atletas brasileiros que só desembarcaram em Buenos Aires às 9 horas da manhã do dia do jogo, insistiram que o troféu em disputa deveria ser jogado no domingo seguinte, 27 de setembro.

Mesmo relutantes, os brasileiros acataram a proposta de seus anfitriões e a partida do dia 20/09 tornou-se amistosa. Ainda assim, o interesse pelo enfrentamento foi grande, 18 mil torcedores argentinos compareceram ao estádio para assistir a vitória de seu selecionado por 3X0. Na semana seguinte, 27/09, valendo a Copa Roca, mais descansado e contando com ótima atuação do sistema defensivo, o Brasil obteve sua primeira conquista ao derrotar a Argentina por 1X0.

O embate também ficou marcado pelo cavalheirismo e espírito esportivo. Aos 20 minutos do segundo tempo, em um dos ataques da equipe local, Leonardi marcou o gol de empate, porém no entusiasmo da jogada conduziu a bola com a mão. O árbitro não viu a infração e validou o tento. Sem o auxílio do VAR, desculpe a ironia, os próprios jogadores argentinos alertaram o juiz da irregularidade ocorrida. Ele voltou atrás em relação à sua decisão e anulou o tento de empate. Práticas que ficaram na história.

No último domingo, dia 05/09, as duas seleções se encontraram no estádio do Corinthians. O jogo era válido pelas Eliminatórias da Copa de 2022. Levando em conta a tradição das camisas, os valores individuais e as posições na competição – as duas seleções lideram a disputa – esperava-se por um confronto emocionante e que escreveria mais um capítulo desta rica história. Meu amigo leitor, o “jogo” de fato entrou para a história e, contraditoriamente, pelo o que ocorreu no campo. Sim, no campo! Cabe um reparo, não pelas belas jogadas, pelos gols, pelos dribles, pelas grandes defesas dos goleiros, mas por ter sido suspenso em seus minutos iniciais. Fato único em seus 107 anos de história.

Minha percepção e comentários sobre o que ocorreu não estão envoltos em tons patrióticos. Mesmo sabendo que a imparcialidade é atributo inalcançável, as boas análises devem primar por ela.

Dito isto, sabemos que os protocolos sanitários adotados no Brasil exigem que qualquer pessoa, jogadores ou não, provenientes de certos lugares, dentre eles o Reino Unido, ao entrarem no país precisam cumprir a quarentena de 14 dias. As regras eram de amplo conhecimento. A Portaria 655 da Anvisa que dispõe sobre a restrição excepcional e temporária de entrada no País de estrangeiros, de qualquer nacionalidade foi publicada no Diário Oficial da União no dia 23 de junho de 2021, ou seja, mais de 2 meses antes do confronto. Além disso, a imprensa brasileira, na semana anterior, já discutia o que poderia acontecer com os quatro atletas da delegação argentina que atuam no futebol inglês. Não é admissível alegar desconhecimento.

A situação ganhou ares vexatórios quando a Anvisa divulgou que um membro da delegação argentina teria fraudado os documentos dos quatro atletas em questão. Foi-se o tempo do cavalheirismo, impera o da esperteza e da desonestidade. Me lembrei de outros dois casos envolvendo nossos rivais. É importante ressaltar que eles nunca foram provados. O primeiro, a vitória por 6X0 na Copa de 1978 sobre os peruanos. A goleada alçou os argentinos à final contra a Holanda e o Brasil teve que disputar a terceira colocação com a Itália em virtude do saldo de gols. O outro caso, na Copa de 1990, foi o da “água batizada”. Um suposto tranquilizante teria sido colocado na água que os argentinos teriam oferecido ao jogador Branco.

Por último, mas não menos importante, os argentinos, aproximadamente uma hora antes do confronto, solicitaram o auxílio do Ministério da Saúde para a liberação de seus quatro atletas. O requerimento foi negado pelas autoridades brasileiras minutos depois. Em outras palavras, os argentinos sabiam que estavam infringindo as leis brasileiras e poderiam ter escalado outros jogadores para o confronto. Não o fizeram e o resultado todos nós já conhecemos. Com menos de 5 minutos de bola rolando, agentes da Anvisa e da Polícia Federal entraram no gramado e interromperam o jogo. Mais uma vez os argentinos poderiam ter resolvido a situação realizando as três substituições, mas não o fizeram.

Por que a Anvisa e a Polícia Federal não agiram antes? As respostas dadas não me convencem. Eles alegam que ao chegarem no hotel onde estava a seleção argentina, a delegação já havia ido para o estádio. Partiram então para o local do jogo, mas foram impedidos de entrarem no vestiário argentino. As autoridades brasileiras não poderiam ter agido antes? Os atletas, em desacordo com a legislação, não poderiam ter sido impedidos de sair do hotel até que todas as eventuais negociações estivessem sido efetuadas?

Enfim, foi uma vergonha. Vergonha que demonstra que os países da América do Sul continuam acreditando no “jeitinho”. Fica aqui uma pergunta, os argentinos teriam agido da mesma forma se fossem jogar nos Estados Unidos ou em países europeus? Também fica claro a crença de que, abaixo da linha do equador, o mundo do futebol está em paralelo ao das leis. Onde já se viu interromper o maior clássico do futebol mundial? Astros internacionais do futebol devem ser regidos pelas mesmas leis que atingem os simples mortais? A incompletude da cidadania brasileira expressa claramente tal distinção, a separação entre os privilegiados e que ridiculamente se intitulam “cidadãos de bem” e os outros. Para que a cidadania seja exercida em sua completude não pode existir “cidadão de bem”, mas apenas cidadão, a lei precisa ser a mesma e aplicada igualmente para todos. Ela não pode ser distinta ou desrespeitada nem mesmo pelo presidente da República.

Agora, o abacaxi gerado pelas Repúblicas de Bananas será descascado pela FIFA. Se as duas seleções continuarem sua trilha, sem grandes percalços, para a Copa do Catar, o tempo jogará favoravelmente para a entidade máxima do futebol e ele será descascado sem traumas. Mas, imaginem, se na última rodada o Brasil ou a Argentina precisarem dos pontos desta partida? Independente da decisão da FIFA, vergonha e desrespeito é a palavra que define todos os envolvidos, brasileiros e argentinos.




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