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Vitória Da Conquista(BA), Terça-Feira, 11 de Maio de 2021 - 04:29
10/04/2021 as 11:56 | Por Luiz Henrique Borges | 1171
Glória em três cores: Grená, Verde e Branco
Artigo
Fotografo: Divulgação
Sem Legenda

Em 21 de julho de 1902, nascia nas Laranjeiras, bairro do Rio de Janeiro, então a capital do país, uma sociedade civil de caráter desportivo, tendo o futebol como sua atividade principal. O esporte criado pelos ingleses ainda era novo no país, a sua introdução segundo a historiografia oficial se deu em 1894 e era praticado pela fina flor da sociedade brasileira.

Vinculado às transformações que mudariam, ao longo do século XX, a face do Brasil, particularmente o processo de urbanização, o tricolor carioca não surgiu tão ligado à aristocracia agrária, ele era representante de uma parcela da sociedade que não se baseava na posse de terra, em outras palavras, em torno do novo clube se agruparam industriais, intelectuais de diversas áreas e profissionais liberais. Elitista, mas com matiz distinto ao abarcar novos grupos sociais em ascensão.

As palavras de Artur da Távola, advogado, jornalista, radialista, escritor e político brasileiro, reverbera claramente o caráter elitista do tricolor: “Ser Fluminense é entender esporte com bom-gosto. É ser leal sem ser boboca e ser limpo sem ser ingênuo. Ser Fluminense é aplicar o senso estético à vida e misturar as cores de modo certo, dosar a largura do grená, a profundidade do verde com as planuras do branco”.

Todo grande lutador precisa de um adversário do mesmo porte e o Fluminense gerou o seu. Relembrando o conto machadiano, Esaú e Jacó, a cisão fratricida ocorrida em 1912 nas Laranjeiras gerou sua nêmesis, o Flamengo. Na mitologia grega, Nêmesis era a deusa que personificava o destino, o equilíbrio e a vingança divina. Em português, a palavra refere-se a “alguém que exige ou inflige retaliação” ou ainda, “um rival ou adversário temível e geralmente vitorioso”. O rubro-negro tornou-se esse adversário.

No decorrer dos anos 20 e, de forma ainda mais vigorosa na década seguinte, o futebol se popularizou no país. O afastamento do amadorismo e a implantação da profissionalização foram fundamentais para o alargamento social do futebol para atletas e torcedores.

Sem perder sua marca de fidalguia, identidade que o Fluminense buscou manter para se diferenciar do Flamengo, o tricolor ganhou popularidade e tornou-se um dos clubes mais importantes e queridos do futebol nacional. Nelson Rodrigues, tricolor doente, publicou no Jornal dos Sports, no ano de 1968, a crônica intitulada “A grande noite do ceguinho”. Nela, ele nos apresentou o único torcedor ceguinho do mundo e ele era tricolor. E com a irreverência que caracteriza os escritos rodriguianos, concluiu: “de não sei quantas encarnações”.

Ao final da crônica escreveu, demonstrando a amplitude da torcida tricolor e sem se esquecer seu toque fidalgo: “Por isso, já disse e vivo repetindo que não há torcida como a do Fluminense. Temos tudo. Há ministros na massa tricolor; paus-de-arara; e grã-finas; e marias-cachuchas; e presidentes; e veterinários e crioulões”.

No decorrer do século passado, o Fluminense tornou-se o clube mais vitorioso nas disputas estaduais no Rio de Janeiro e por isso ostenta o título honorífico de Campeão Carioca do século XX. O seu destino vencedor permanece intocado, mesmo com alguns percalços, como os rebaixamentos para a segunda e terceira divisão do futebol nacional. Como fênix, o tricolor renasceu das cinzas para, no século XXI, conquistar dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, além de ter disputado duas finais continentais.

Além de ser uma potência nacional, equipe respeitada no futebol profissional, ele é um exemplo nas categorias de base, conquistando títulos, criando craques e, principalmente, cidadãos, em Xerém.

Nesse momento é mais do que legítimo o leitor se perguntar os motivos dessa crônica. Ela é uma forma de homenagear o colega de trabalho, que se tornou amigo pessoal e que faleceu no dia 7 de abril em virtude da Covid-19. Doença que está ceifando inúmeras vidas e que é tratada de forma descuidada, desleixada e até irresponsável pelos brasileiros e pelas autoridades nas diferentes instâncias de poder.

O meu amigo e xará, Henrique, era torcedor fanático do Fluminense. Em viagem ao Rio de Janeiro, pelo trabalho, em uma quarta-feira chuvosa, foi ao Maracanã assistir o duelo que envolvia o tricolor. Até aí, nada de especial, qualquer torcedor comum faria o que ele fez. Mas, ir ao estádio, em uma noite de semana, debaixo de muita chuva, para assistir uma partida da terceira divisão do Campeonato Brasileiro, demonstra o amor e a dedicação que ele tinha pelo seu clube.

Amor, dedicação, seriedade e ética eram marcas não apenas do torcedor, mas também do cidadão que nos deixou. Muito do que sei sobre o funcionamento do serviço público, em especial a parte orçamentária, aprendi com o Henrique.

Nas inesquecíveis feijoadas em sua casa, quando suas gêmeas fazem aniversário, vivenciei o carinho e o amor que ele tinha por toda a sua família. Nesses momentos, além da convivência e da celebração familiar, travávamos discussões apaixonadas sobre o futebol, em especial o “Clássico Vovô”, Botafogo X Fluminense.

Perdemos um pai dedicado, um marido presente, um avô atencioso, um amigo leal e um torcedor apaixonado. Não é apenas a perda do amigo que me entristece, mas a maneira como parte da sociedade brasileira naturalizou ou banalizou as mortes, como se elas fossem inevitáveis. Nesse triste cenário, a única certeza que tenho é que muitos outros Henriques, Joãos, Marias, Josés... nos deixarão, e que muitas outras famílias sofrerão com o luto precoce.

Não sentir essas mortes, não compartilhar o luto e permanecer apegado aos discursos erráticos, é uma prova de desumanização. Eu tenho o direito de “chorar pelo leite derramado”, afinal a doença está vencendo a sociedade brasileira de forma muito mais vexatória que qualquer goleada sofrida.

Meu amigo Henrique certamente estará carregando as cores do tricolor, o grená, verde e branco, onde quer que esteja. Quando o Fluminense adentrar ao gramado ele suspenderá por 90 minutos o seu descanso e gritará, em altos brados, com a alegria que lhe era característica “é pó de arroz, é pó de arroz”.

 

 

 




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