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03/04/2021 as 10:28 | Por Luiz Henrique Borges | 1105
O treinador e a pré-temporada
O treinador e a pré-temporada
Fotografo: Reprodução
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O treinador e a pré-temporada
 
Por:Luiz Henrique Borges
 
 
Poucas profissões são tão árduas como a do treinador de futebol. Normalmente, exceto se for o Guardiola ou o Klopp, técnicos do Manchester City e do Liverpool, seus nomes são questionados antes de assumirem o cargo. As redes sociais servem de termômetro para os dirigentes e se o nome sondado não alcançar uma aceitação mínima, o pretendente é descartado. Após superar o desafio das redes sociais, sendo contratado, bastam dois ou três resultados ruins ou algumas apresentações não convincentes para que torcedores, dirigentes e até parte da imprensa comecem a “cornetar”. Nada é levado em conta, como se o resultado não dependesse do processo.
Vou exemplificar, Marcelo Chamusca assumiu em meados de fevereiro, o Botafogo. O clube amargava o seu terceiro rebaixamento e, ao meu ver, o mais vexaminoso de todos. Era uma equipe sem alma e sem coração. Várias rodadas antes da confirmação do inevitável, percebia-se claramente o desânimo dos atletas, a plena incapacidade de reação. Nelson Rodrigues em suas crônicas geniais nos lembra que sem alma não se atravessa a rua ou se chupa um simples e delicioso Chicabon. Com esse espírito é impossível “devorar” a bola, dividir as jogadas, deixar sangue e suor em campo pela vitória.
Com o louco calendário de 2021 devido à pandemia da Covid-19, Chamusca herdou uma equipe desmoralizada. Sem recursos em caixa, não contou com contratações impactantes. Para piorar, não teve sequer tempo para realizar a pré-temporada. Enfim, como ele afirmou semanas atrás, teria que trocar o pneu com o carro em movimento. Cobranças mais enfáticas nesse momento não são apenas injustas, mas irresponsáveis. É preciso dar tempo ao novo treinador.
A pré-temporada é fundamental uma vez que ela deve definir, a partir do primeiro dia de trabalho, um modelo e uma filosofia de jogo. Para isso, o treinador usará esse momento para conhecer os seus jogadores e perceber os aspectos que deverão ser fortalecidos na equipe. Além disso, deverá condicionar fisicamente os atletas para a extenuante temporada que se avizinha. Todos os pilares que sustentarão a estrutura da temporada devem ser assentados nesse momento. É este o momento para moldar o plantel, definir o modelo de jogo e começar a treinar os seus princípios que serão aprimorados no decorrer do ano. Se essa etapa falhar, é praticamente impossível qualquer projeto contar com bases verdadeiramente sólidas.
Jorge de Jesus, por exemplo, substituiu Abel no Flamengo em meados de 2019. Em decorrência da Copa América disputada no Brasil, o treinador português teve a oportunidade de fazer sua pré-temporada com a nova equipe. No retorno às competições, o Flamengo ainda oscilou, mas depois engrenou respeitando as determinações de seu treinador. 
Na pré-temporada a equipe inicia o processo de operacionalização de seu modo de jogar. Nesse sentido, a equipe precisa alcançar primeiro a precisão de movimentos e só depois a velocidade de execução. A velocidade por si só, sem a precisão, não permitirá a eficácia do modelo de jogo desejado. O passo inicial é dominar os movimentos elaborados pelo treinador, incorporar a ocupação dos espaços, garantindo a posse de bola, algo que a velocidade sem a precisão não efetuará. Se a troca de passes não é correta, a bola logo cairá nos pés do adversário. Sem precisão, sequer os contra-ataques serão efetuados de forma eficiente. Só após, quando os atletas dominarem os princípios, é que podem começar a imprimir velocidade. A técnica, atributo pessoal, necessita da moldura correta, ou seja, a tática, a noção coletiva. A fusão tático-técnica é aperfeiçoada na pré-temporada.
O treinador ainda terá que gerir uma babilônia de personalidades. Como nos lembra o jornalista lusitano Luís Freitas Lobo, “o futebol é um mundo de emoções onde a química interpessoal também joga”. Mais uma vez é na pré-temporada que o treinador deverá conquistar o vestiário e isso deve ser feito antes mesmo da implantação do sistema que ele julgue ser o mais adequado para a sua equipe. Luís Lobo sabiamente ressalta que “antes de mobilizar as capacidades técnicas de um jogador, há que mobilizar as emoções”. Em outras palavras, o treinador, além de conhecer de futebol, precisa ser gestor de pessoas. 
O conhecimento do grupo, a preparação da tática, o aprimoramento técnico, apesar de estarem em processo constante de reelaboração ao longo da temporada, começam na pré-temporada, quando a pressão pelos resultados ainda não é um fato concreto. Agora, imagine, caro leitor, ter que fazer tudo isso com as competições em andamento? É lógico que o triturador de treinadores, que caracteriza o futebol brasileiro, trabalhará de forma mais intensa do que já o faz em tempos normais.
Vejamos o atual treinador campeão brasileiro, Rogério Ceni, ele assumiu o Flamengo em meio às competições. Se, inicialmente, seu nome foi pouco contestado, sua paz não durou muito e a própria continuidade do seu trabalho foi questionada. 
A diferença entre as grandes equipes e as demais se encontra, muitas vezes, no saber lidar com o entorno do futebol, com o que nasce de fora para dentro dos gramados. As equipes vencedoras são aquelas que sabem dominar a pressão criada pelos torcedores, pela imprensa e pelos dirigentes. É preciso dar tempo para o resultado florescer e nesse sentido, as novas regras sobre a troca dos treinadores para o próximo Brasileirão me parecem um caminho adequado. 
O clube começará o Brasileirão com um técnico inscrito e, caso demita este treinador, poderá inscrever apenas mais um. Em caso de segunda demissão, o profissional substituto tem que estar trabalhando no clube há pelo menos seis meses. Em caso de pedido de demissão por parte do treinador, o clube não sofrerá limitação para inscrever um novo técnico. Isso obrigará que os clubes atuem, ao longo da temporada, de forma planejada e que as emoções, sempre presentes no futebol, tenham que ser minimizadas nas tomadas de decisões.
Os treinadores, por sua vez, também deverão ser mais precavidos, afinal se eles resolverem sair de um clube para outro por iniciativa própria, também só o poderão fazer em uma única oportunidade.
Boas e cuidadosas escolhas, confiança no planejamento, estrutura de trabalho adequada e paciência serão os pilares da nova fase que se avizinha para o relacionamento entre os clubes e seus técnicos. 
 
 




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